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sábado, 20 de janeiro de 2024

Contributos para um roteiro dos locais históricos de aviação no Porto [M2457 – 02/2024]


Confesso Tripeiro e entusiasta de aviação militar Portuguesa, meteu-se na minha cabeça a ideia de que haveria de escrever algo acerca dos locais do Porto que tiveram alguma relação com a aviação, o que, por não serem muitos, seria fácil de fazer, ou assim eu o pensei, já me dirão.

Afastado dos centros nevrálgicos da aviação nacional, cujo umbigo fica ali para as bandas do Terreiro o Paço, o Porto e o Norte no seu todo, historicamente, fornecem uma mole humana muito substancial e ímpar para a aviação nacional.Não sendo a região frutífera em eventos históricos de monta desde o advento da aviação nacional, com as honrosas excepções claro está, para o aeroplano “Creche do Commercio do Porto” (1912), e ainda mais a Norte, do voo do Blériot XI do Eng. João Branco e de Norberto Gonçalves (1913), pretendo com este trabalho enumerar cronologicamente os eventos ou feitos, ou apenas sucedidos, registados na cidade do Porto, alguns dos quais ainda podemos encontrar vestígios, embora na sua maioria, apenas poderemos imaginar como foram.

Neste sentido também, fica aqui um embrião de cunho pessoal, plasmado nas páginas do Pássaro de Ferro, daquilo que poderá bem ser uma espécie de percurso turístico pela Invicta, por diversos locais onde há referências à aviação. Tanta oferta há para o turista que visita o Porto, falta na cidade um percurso desta temática tão querida a todos os Pássaro-Ferrosianos, digo eu.


 Cronologia


Rezam as crónicas, que remota ao Século XVIII o relato mais antigo da aviação em Portugal, o do voo do aeróstato do Padre Bartolomeu de Gusmão, que embora não tenha sido no Porto é, por ser o primeiro, digno da competente vénia e registo.

10 de Maio de 1795 – O italiano Vincenzo Lunardi (1759-1806), aeronauta cuja primeira ascensão em balão remonta a 1784, em Londres, fez no Porto a sua primeira ascensão nesta data, aquela que é a primeira de todas as exibições aeronáuticas registadas na Invicta. Esta ascensão realizou-se no Campo de Santo Ovídio (actual Praça da República), teve uma duração de 45 minutos e com descida em Sobreiras. 

Gravura da ascenção de Vincenzo Lunardi

25 de Junho de 1820 – ascensão em balão (hidrogénio), por Eugénio Robertson, a partir da Quinta do Prado, então pertença do Bispo do Porto, actual cemitério do Prado do Repouso. A ascensão decorre durante as festividades do S. João e em honra do Rei D. João IV. O balão elevou-se a uma altura indeterminada durante cerca de meia hora, aterrando a Norte do Porto, na localidade de Ferreiro, em Vila do Conde. 

2 de Agosto de 1857 – antecedidas de diversas ascensões cativas no recinto do Tivoli Portuense, os aeronautas Eugène e Louise Poitvin efectuam uma ascensão livre. O balão desceu cerca de 25 minutos depois junto ao Monte de Lamaçais. Numa segunda ascensão, a 23 de Agosto, o balão desceu uma hora depois dos areais do Areínho.

2 de Dezembro de 1883 – primeira ascensão nos jardins do Palácio de Cristal, do aeronauta Emile Castenet, no balão “Rosita”. O balão tomou grande altura e seguiu na direcção do mar, sendo o aeronauta recolhido a 9 milhas a Sudoeste da barra do Douro, por um salva-vidas, regressando no vapor “Victória”. O balão não foi recolhido e continuou a navegar chegando a ser avistado, no dia seguinte, a 25 milhas do Cabo Mondego.

20 de Janeiro de 1884 – nova ascensão de Emile Castenet, com um novo balão, o “Cidade do Porto”. Que se elevou dos jardins do Palácio de Cristal, dirigindo-se de novo ao mar. Foi resgatado e trazido até ao areal da Cruz, em V.N.Gaia, onde foi esvaziado.

 

Cartaz da ascenção de Emile Castenet e Luís Vianna

3 de Fevereiro de 1884 – terceira ascensão de Castenet, desta vez junto com Luís da Terra Pereira Vianna, também dos jardins do Palácio de Cristal. Reconhecidamente já a sua “veia marítima”, foram mais uma vez os aeronautas recolhidos pelo vapor “Victória” a 10 milhas da costa, perdendo-se o balão.

23 de Março de 1884 – depois de um período em que os amigos e a cidade se desdobraram em esforços para não só retirar Castenet da penúria bem como adquirir um novo balão, denominado “O Portuense”, dá-se a sua primeira ascensão, descendo em V.N. Gaia. Dois dias depois, “O Portuense” volta a elevar-se, desta feita com um burro amarrado à barquinha. Nesta ascensão, o aeronauta desceu perto de Vila da Feira, na localidade de Cavadas, freguesia de Pijeiros. O burrito, coitado, é que não ficou lá com muita saúde…  
O aeronauta efectuou mais uma ascensão, a 30 de Março.

8 de Junho de 1884 – nos jardins do Palácio de Cristal, dá-se nesta data a tentativa de ascensão dos aeronautas Henri Beudet e Émille Allier, no balão “Cidade de Lisboa”, sem sucesso. A 15 de Junho, o balão ascende a 3000 metros, descendo entre Grijó e Espinho.

20 de Junho de 1884 – segunda ascensão desde o Palácio de Cristal, com Beudet suspenso num trapézio, fazendo um risco de fumo no ar (através da queima de palha). Desceu pouco depois, de forma desastrada, sobre o telhado da Igreja de S. Francisco, onde ficou suspenso, dependurado, para o lado da Rua Ferreira Borges.

26 de Junho de 1884 – última ascensão destes aeronautas, a partir os jardins do Palácio de Cristal. A descida dá-se no Candal, em V.N.Gaia, num campo de cultivo, tendo-o danificado. O dono, auxiliado pelos criados, arrestaram o balão, exigindo o reparo dos estragos. Beudet fugiu. O balão foi recuperado mais tarde apresentando alguns rasgões.   

Novembro de 1887 – após a ascensão de 12 de Novembro em Penafiel, em que ascendeu pela primeira vez Felix Barreau, um operário das obras de construção do Porto de Leixões, que terá feito várias ascensões no Porto.

13 de Setembro de 1891 – primeira ascensão de Émile Louis Julhès, no balão “Le Tage”, subindo desde os jardins do Palácio de Cristal e vindo a descer no lugar do Cabo, freguesia de Monte Córdova, Santo Tirso. Uma segunda ascensão, a 20 de Setembro, com descida perto de Oliveira de Azeméis.

1 de Novembro de 1901 – actuou no Real Coliseu Portuense a “Companhia Franco-Espanhola”, da A. Imarieta que, incluía no seu espectáculo, entre outros, uma exibição de aerostática. Não se conhecem porém pormenores se se tratava de uma ascensão cativa ou livre.

30 de Agosto de 1903 - o balonista Émile Carton, com o balão “Portugal”, faz a sua primeira ascensão a partir do Palácio de Cristal, levando como passageiros Belchior Fernandes da Fonseca e o repórter do Primeiro de Janeiro, Aníbal Cardoso. A descida dá-se para Norte, no lugar de Esposado, Custóias, num campo agricola.  Ainda que tivesse outras planeadas, tal não aconteceu, por lhe ter sido imposto o pagamento ao agricultor dos danos causados no seu campo de milho.

15 de Novembro de 1903 -  Belchior Fernandes da Fonseca, farmacéutico gaiense, inspirado por Émile Carton, efectua duas ascensões em V.N.Gaia, a 1 e 8 de Novembro, sendo esta a sua terceira, já a partir dos jardins do Palácio de Cristal. Utiliza um balão que mandou vir de França , “O Luzitano”,  e desce em Fiães, Vila da Feira.

Uma das ascenções de Belchior Fernandes da Fonseca no "Luzitano"
junto à concha acústica, nos jardins do Palácio de Cristal

21 de Novembro de 1903 – nova ascensão de Belchior Fernandes da Fonseca a partir do  Palácio de Cristal, tendo como passageiros César Marques e José António d’Almeida. O balão dirige-se para o mar, logo saindo o salva-vidas e os vapores, e avisada a Marinha na Figueira da Foz e o Almirantado em Lisboa. Sabe-se que o aeronauta ainda tentou descer perto de Espinho, sendo o balão foi visto algumas horas depois sobre as Berlengas, não havendo mais registos de avistamentos.

Após este sucedido, passou a ser obrigatório, no licenceamento de demonstrações de balonismo, que o piloto-aeronauta comprovasse as suas habilitações o que, fez com que muitos fossem a Paris tirar o curso!

Um postal alusivo a uma das últimas ascenções de 
Belchior Fernandes da Fonseca no seu "Luzitano".


3 de Abril de 1904 - Inspirado nas ascensões de Émile Carton, e de Belchior Fonseca, António Costa Bernardes (conhecido por “o Ferramenta”), construiu um balão, “O Português”, que nesse dia fez a sua ascensão nos jardins do Palácio de Cristal, vindo a descer cerca de 4 horas depois, perto do Monte de Santo Izidro, em S. Cosme, Gondomar. Na verdade “o Ferramenta” tinha autorização do Governo Civil apenas para demonstrações de balão cativo, tendo acabado por fazer uma demonstração de voo livre. Por esse motivo, nunca conseguiu fazer mais ascensões no Porto, porque o Governo Civil não lho permitia.

Este balonista, em conjunto com Magalhães Costa, efectuou imensas outras ascensões em Portugal e no Brasil, ganhando grande fama, e construindo outros balões. Regressado a Portugal, compra um balão esférico à fábrica Lachambre que nomeia “Internacional”, e apresenta no Porto.

22 de Junho de 1906 – o “Ferramenta” efectua a sua 24ª ascensão, com o balão “Internacional”, a partir da Praça de Touros da Rua da Alegria, perante uma assistência de 15.000 pessoas!, descendo sem incidentes no lugar de S. Julião, freguesia de Santa Cristina do Couto, em Santo Tirso.

Uma das ascenções do "Ferramenta" a partir 
da Praça de Touros da Rua Alegria.

26 e 27 de Agosto de 1906 – tem lugar o festival aerostático na Praça de Touros da Rua da Alegria, com diversas ascensões por parte de António Costa Bernardes.  Neste balão, no lugar da barquinha, foi instalado um trapézio, em que a 100 metros de elevação, uma ginasta espanhola de seu nome Mercedes, fez uma demonstração arrojada. Neste festival o balão “Internacional” fez diversas ascensões, que se prolongaram até Setembro, sendo a de 8 de Setembro inédita, pois foi a primeira ascensão nocturna no Porto e em Portugal, a 28ª de António Costa Bernardes.

16 de Setembro de 1906 – ascensão de Alfredo Figueiredo no balão “Internacional”, desde a Praça de Touros da Rua da Alegria, descendo, após várias tentativas, nos rochedos no mar, nuns rochedos a 100 metros da Praia de Lavadores.

3 de Maio de 1909 – neste ano António Costa Bernardes adquiriu um dirigível tipo Santos Dumont à fábrica Lachambre, construindo ele próprio a barquinha em alumínio e instalado o motor. Com o objectivo de voar o dirigível a partir do Porto, inicia a 3 de Maio o enchimento e ensaios do “Aeromóvel”, no Palácio de Cristal. Diversas falha foram arrastando os ensaios até Julho, quando se dá uma fuga de gás, que levou à intoxicação e morte dos auxiliares e do próprio “Ferramenta”, este em “horrorosa agonia” -- era então o mais experimentado aeronauta/balonista português, com 31 ascensões.

o "Aeromóvel" durante o enchimento, na 
nave principal do Palácio de Cristal.

6 a 15 de Setembro de 1912 – diversas demonstrações de voo do aeroplano “Creche o Commercio do Porto”, tema que já abordamos no Pássaro de Ferro, daquele que foi o primeiro voo de um aeroplano na cidade do Porto, no Campo de Aviação do Castelo do Queijo.

Nesta foto vê-se claramente o nome do aeroplano bem como 
o piloto, Leopold Trèscartes, e o mecânico Felix Bouvier,

Curioso o facto de em 1913 o aeroplano foi oferecido ao governo, sendo integrado em Junho de 1913 na Companhia de Aerosteiros. Com a criação da Escola de Aeronáutica Militar, a 14 de Maio de 1914, foi para Vila Nova da Raínha, onde serviu como aeronave de instrução, até 1917, quando foi retirado de serviço. Curiosamente foi precisamente neste aparelho, à altura baptizado com o nome de “Casta Suzana”, que Gago Coutinho recebeu o seu baptismo de voo, a 23 de Fevereiro de 1917, tendo aos comandos o seu companheiro Sacadura Cabral.  É caso para dizer: e esta, heim?

6 de Outubro de 1912 – ascensão aerostática do balão “República”, pilotado por Francisco de Carvalho. Partiu do campo do Foot-Ball Club da Rua Antero de Quental, aterrando três quartos de hora depois em Santa Marinha (Gaia).

 
No final dos anos 50, foi erigida esta singela homenagem aos 
pioneiros da aeroestação, pelo Aero Clube de Portugal, nos 
Jardins do Palácio de Cristal.

30 de Março a 15 de Junho de 1922 - Gago Coutinho e Sacadura Cabral, empreenderam aquela que foi a maior epopeia da Aviação Nacional, ligando Lisboa ao Rio de Janeiro através do ar, em diversas e difíceis etapas, um feito ímpar para a história da Aviação Mundial. Sem entrar grandes pormenores, foi uma viagem que introduziu alguns feitos técnicos inovadores, como foi o caso do sextante que permitia tirar a posição no mar ao qual foi aplicado um horizonte artificial para calcular essa posição em altitude, e ainda um corrector de rumos, para automatizar o cálculo da direcção e força do vento e ajustar o rumo do voo de acordo com esses importantes vectores, que tiveram como consequência directa, a alteração dos métodos de navegação aérea. No Porto, é no interior da estação do caminho de ferro de S. Bento, que se evoca o feito histórico, reacção das gentes Lusitanas que, por todo o país, assim como no Porto foram recebidos em apoteose, a cidade rendeu-se à Glória dos Aviadores! Por forma a marcarem condignamente o feito, perpectuado em bronze, fica o registo da homenagem e do agradecimento dos ferroviários das Linhas do Douro e Minho.




9 de Abril de 1929 – é inaugurado o Monumento aos Combatentes da Grande Guerra, da Liga dos Combatentes, traço de Henrique Moreira. Não sendo um local directamente ligado à aviação, nem a aviadores nativos do Porto, é um local de memória dos que combateram naquela que foi a última guerra com maior participação de forças Portuguesas, e onde também deram a vida seis aviadores portugueses, integrados em diversas esquadras de voo francesas.  O autor reconhece uma efémera ligação à aviação e ao Porto, mas não poderia deixar de a referir.

Pormenor do monumento aos combatentes.


21 de Março de 1935 – data da fundação do Aero Clube do Porto, surge no seguimento da criação a 6 de Março de 1929, de um movimento associativo denominado “Núcleo do Norte do Aero Club de Portugal”, núcleo esse que ganhou mais visibilidade com a organização, no Campo de Aviação Militar de Espinho, da primeira Escola de Aviação Civil. Este núcleo promoveu entre outros, a tentativa de obter um aeródromo próprio, tendo usado um terreno improvisado na Senhora da Hora, onde chegou em 1934, aí a realizar  um Festival Aéreo. 
Funda-se então o Aero Club do Porto, operou os seus aviões em Pedras Rubras desde 1947, e onde se mantiveram as suas actividades aéreas, até aos anos 90 quando mudaram a sua base de operação para o Aeródromo Municipal da Maia. A sua sede primeva, na Rua de Santa Catarina, actualmente (ab2023) situa-se na Rua da Bainharia, e as suas operações aéreas baseadas no Aeródromo de Vilar de Luz.  

Imagem aérea do aeroporto do Porto no final dos anos 40.

16 de Dezembro de 1937 – data da fundação da Liga da Iniciação e Propaganda da Aeronáutica (LIPA), com sede na Praça de Carlos Alberto nº.63 3ºandar.
São inúmeros os trabalhos desta colectividade, que nos primeiros anos de vida corporizou um movimento denominado “Pró-Aviação Portuguesa”, destacando-se na organização de competições desportivas em diversos locais do país, diversos trabalhos de “aviação em miniatura” como meio de propaganda da Aviação, como actividade de iniciação à aeronáutica. Contando com o apoio do Secretariado da Aeronáutica Civil, constituiu a primeira Escola de Aeromodelismo do Porto.
Passando por alguns altos e baixo na sua história, a sede ainda é no mesmo local, e a sua actividade aérea tem lugar na pista da Seroa, na Trofa.
A já desaparecida placa da LIPA no 
edifício da sua sede social.

 
1939-1945 - Durante o período da 2ª Grande Guerra, na qual Portugal não foi um país beligerante, sucederam-se os sobrevoos e até batalhas aéreas de maior ou menor monta, que resultaram em inúmeras aterragens de emergência, e acidentes aéreos. Deste período, jazem na Invicta 11 aviadores da Royal Air Force e da Royal Canadian Air Force, sepultados no Cemitério Britânico do Porto, e cujos túmulos integram as Commonwealth War Graves. 
O cemitério é visitável, nos dias de serviço religioso (domingos), sendo que nos dias 11 de Novembro, data do Armísticio da 1ª Grande Guerra, se realizam as cerimónias alusivas ao Remembrance Day (a cerimónia nem sempre coincide com o dia).

A entrada da igreja de St. James do Porto à direita, 
à esquerda a Cruz do Sacrifício.

Correspondem os túmulos aos seguintes acidentes, 

13 de Julho de 1942 – despenha-se um Vickers-Armstrong Wellington Ic, da Royal Air Force, ao largo de Fão, perto de Esposende. Da tripulação de 6 elementos, todos eles perderam a vida, encontrando-se sepultados no Cemitério Britânico do Porto

29 de Maio de 1942 – acidenta-se junto à praia de Vila Chã, a Sul de Vila do Conde, um Vickers Wellington IC, da Royal Air Force, em voo de ferry, entre Portreath e o Egipto, via Gibraltar. Dois dos tripulantes perderam a vida, encontram-se também  sepultados no Porto.

6 de Março de 1944 – acidenta-se um Lockheed Hudson IIIA, do Esquadrão 269 da Royal Air Force, perto de Mira. Três tripulantes perderam a vida e um salvou-se.

Nada disto se passou exactamente na cidade do Porto, apenas se regista aqui por ser esta cidade o local onde á evocada a sua memória. O que se passou sim no Porto, foram duas amaragens e uma aterragem forçadas, 

5 de Março de 1943  - amarou de emergência, frente à Foz do Douro, um Short Sunderland Mk.III, vindo de Pembroke com destino a Gibraltar. O avião foi afundado e a tripulação e passageiros todos salvos, tendo chegado à costa em botes salva-vidas. 

29 de Maio de 1943 - um Bristol Blenheim V (EH459) da Royal Air Force, que tinha sofrido vários bird strikes na costa portuguesa, levaram a tripulação a ter de amarar de emergência, em local indeterminado frente à costa do Porto. Foram resgatados por um navio da Royal Navy.

2 de Maio de 1945  - aterrou em Pedras Rubras um Junkers Ju88 G7A, da Luftwaffe, cuja tripulação tentava fugir da Alemanha. O aparelho foi transferido para o Campo de Aviação de Espinho, da Arma de Aeronáutica do Exército, tendo sido depois desmantelado. (Mais um caso de perda de património aeronáutico…)

17 de Março de 1963 – uma referência que encontrei no Guia de Portugal, da Calouste de Gulbenkian, levou-me a uma busca nos jornais da época e encontrei um registo daquele que foi o primeiro salvamento com recurso a helicóptero no Porto. 27 tripulantes do navio mercante “Silver Valley”, que naufragou no Cabedelo foram salvos por aviadores franceses, pilotos instructores que se encontravam a ministrar formação em Alverca à Força Aérea Portuguesa. 

Imagens dos Alouette II durante o salvamento.

1970 (década) - uma difusa memória pessoal, traiçoeira portanto, referente á década de 70, possivelmente na sua segunda metade (pós 25 de Abril de 1974), altura em que foram activados em diversos locais, helipistas possivelmente improvisadas, para na época balnear assistir o Instituto de Socorros a Náufragos. Tenho presente essa memória de ter visto várias vezes, junto à estação de socorros a náufragos dos Bombeiros Voluntários Portuenses, ao Passeio Alegre, num pedaço mais largo do molhe em frente, um SE.3160 Alouette III, equipado com “pantufas”, o que o permitia aterrar na água e na areia com relativa facilidade.

o "Pantufas"

26 de Março de 1977 – incontornável referência à minha querida Associação de Especialistas da Força Aérea, constituída em V.N.Gaia nesta data. Nasceu nesse mesmo ano na Praia da Aguda, e com sede social e histórica em Gaia, desde os anos 80 possui a sua Sede Nacional no Porto, em espaço cedido pela Força Aérea Portuguesa, onde se localiza o seu Centro de Recrutamento sito à Pr. Dr. Francisco de Sá Carneiro 219 1ºDto.. Trata-se de uma associação de cariz social e cultural, de antigos e actuais Especialistas da FAP. 

1977 – No Palácio de Cristal, então Pavilhão dos Desportos, realizou a Força Aérea Portuguesa, as comemorações do seu 15º aniversário, sendo este o espaço para a sua exposição de divulgação das suas actividades. Neste ano destaca-se a exibição, peça central da exposição, a réplica do Maurice Farman MF4, semelhante ao aeroplano “Creche do Commércio do Porto”.

aspecto da exposição no "Palácio de Cristal"


Maio de 2023 – as comemorações do Dia da Marinha tem lugar no Porto, tendo como ponto alto a cerimónia militar e a exibição de meios navais e aéreos desta arma. Nomeadamente com demonstrações de capacidades do seu braço aéreo, que executou no anfiteatro provisionado pelo Rio Douro, diversas demonstrações de capacidades de voo com os então renovados Westland Super Lynx Mk.95A. A última vez que a Marinha nos tinha brindado com exibições do Lynx foi na edição do Red Bull Air Race de 2008.



Algumas notas sobre pistas e helipistas

Há várias referências a “campos de aviação” no Porto, ou naquilo que são os limites da actual cidade do Porto, sendo que apenas consegui localizar um, por aproximação, não havendo referências actuais sobre onde seriam exactamente. Refiro-me ao Campo de Aviação do Castelo do Queijo, localizado no campo de corridas do Clube Hipico Portuense, entre a estrada da Circunvalação e a estação transformadora da Companhia de Carris do Porto. O outro campo de aviação, com localização mais ou menos precisa, seria o da Senhora da Hora, onde o Aero Clube do Porto realizou dois festivais aéreos. Fora estes, em anos recentes, foi criada uma pista de aviação para a realização da Red Bull Air Race, num dos extremos do Parque da Cidade (Ocidental).

Já o mesmo não se pode dizer das helipistas, sabe-se onde foram e quantas, construídas as primeiras nos finais dos anos 70 e 80, resultam principalmente de necessidades militares.
Das helipistas militares consegui identificar a do antigo Quartel Militar da Região Militar Norte, à Praça da República, do quartel do Centro de Instrucção de Condução Auto do Porto (CICAP) junto ao Palácio de Cristal, do antigo Regimento de Infantaria 6 (ao Monte dos Burgos), e a do Centro de Selecção do Porto (à Constituição). Seriam na verdade áreas da parada destes quarteis que, sempre que necessário recebiam um ou vários helicópteros. Penso que a do CICAP chegou a ser usada ou experimentada pelo INEM mas o downwash provocava muitos problemas naquele espaço fechado e pequeno.

Foto da helipista do antigo Quartel General da Região 
Militar Norte, à Praça da República.

Acrescente-se à laia de curiosidade, a parada do Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, em Gaia, tem sido utilizada diversas vezes como helipista, nomeadamente para visitas papais, como foi o caso do Papa João Paulo II (1982 e 1991), do Papa Bento XVI (2010).    

 
A 14 de Maio de 2010, na imagem acima, o EH-101 nº 19605 da Esquadra 751 em 
aproximação à parada do quartel da Serra do Pilar, em V.N.Gaia, o terceiro a aterrar, 
a bordo vinha o Papa Bento XVI. Na imagem de baixo, o SE.3160 Alouette III nº 19401 
da Esquadra 552, um dos aparelhos que fazia o acompanhamento da comitiva tendo a 
bordo pessoal da Unidade Especial de Polícia.

No contexto militar, repito a referência acima, à helipista “provisória” ou improvisada, frente aos socorros a náufragos no Passeio Alegre, onde estava baseado um SE.3160 Alouette III da Força Aérea Portuguesa.
Actualmente as helipistas civis existentes são maioritáriamente de utilização por meios de emergência médica, nomeadamente as do Hospital de S. João e Santo António. 
Ainda que a de Santo António esteja inactiva e com outras utilizações, a do S. João foi totalmente refeita e operacional desde meados de 2024.
  
Fotos do Bell 222 CS-HDX da OMNI na helipista 
improvisada do Hospital de S. João.

Vista aérea da helipista do Hospital de S. João, operacional desde meados de 2024. 

Nos anos 90 é activada a helipista de Massarelos, uma helipista privada, pertencente à empresa da Douro Azul, para voos turísticos sobre a cidade. A partir de 2010, e com a inactivação da helipista do Hospital de Santo António, esta passou a ser utilizada também pelo INEM, recebendo para tal uma rampa para acesso de ambulâncias. 
Será por certo a helipista mais utilizada na cidade (ab 2023), apesar da activação em 2024 da helipista do Hospital de S. João, quer pela utilização para voos turísticos, bem como pela utilização por parte dos helicópteros ao serviço do INEM.
Esta helipista também foi utilizada aquando da realização no Porto das Red Bull Air Races, por helicópteros ao serviço da organização nomeadamente na recolha de imagem (mas sem perder a utilização, em emergência por parte do INEM).


Texto e fotografias: Rui "A-7" Ferreira

Tripeiro e Entusiasta de Aviação


Nota: O autor do texto/reportagem escreve na grafia antiga.


Agradecimentos:
Paulo Soares; Francisco Piqueiro, Pedro Ferreira; Prof. Hélder Pacheco, Carmo Ferreira, Paulo Bandeira, Orlando Tato, Prof. Joel Cleto, Susana Ponte, 


Notas adicionais:

Há dois museus militares na cidade que, pela sua natureza, e independentemente da ligação à aviação na Cidade merecem a nossa visita.

O Museu Militar do Porto, integrado na estrutura de museus do Exército Português, sito à Rua do Heroísmo, integra um vasto acervo que atravessa diversas épocas da história do Exército. Ainda que, no presente contexto, não faça referências à componente aérea do Exército, apresenta alguns modelos de aviões na sua vasta colecção de miniaturas militares, e inclui um avião alvo.
O edifício é também ele digno de referência pelas suas origens, Sec. XIX, para habitação, sendo muito mais tarde sede da PIDE/DGS no Porto, estando na posse do Estado desde os finais dos anos 40.

O Museu do Núcleo do Norte da Liga dos Combatentes, localizado na Rua Formosa, merece a nossa visita e atenção. O Núcleo Norte da Liga dos Combatentes, fundado em 26 de Fevereiro de 1925, está instalado no Palácio do Visconde de Pereira Machado construído em meados do século XIX, de onde se destaca, entre outros, a escadaria interior, um dos belíssimos exemplos dos palacetes da cidade, de surpreendentes estuques e pinturas (das salas que visitei), sendo que é nelas que está instalada a coleção do museu. Possui nele uma colecção de artefactos militares que  abrange ambas as guerras mundiais sendo que no entanto ali podemos encontrar objectos de outros tempos, desde Aljubarrota à Guerra Colonial.
Visitável apenas nos dias úteis, por razões que ultrapassam as capacidades de discernimento do autor, não é permitido o registo de imagem no espaço do museu, algo que me entristece como fotografo, tripeiro e aerotranstornado. Porém fica o registo em vídeo, de há uns anos atrás, por parte do Carissimo Joel Cleto, num dos seus muitos e incontornáveis programas televisivos.
No que concerne genericamente à aviação, conseguimos encontrar numa das salas um hélice, o único elemento aeronáutico que encontrei, refere-se a uma oferta feita à Liga por parte de um aviador inglês, Allan Tilbroke Read, que ofertou em 1964 a hélice do Bristol F.2B do RFC que operou sobre o sector português, na Flandres.
[Nota adicional] - Na oportunidade de participar na apresentação no Porto do livro "A Força Aérea e o 25 de Abril de 1974", do estimado TCOR/PILAV João José Brandão Ferreira, que teve lugar neste espaço  a 28 de Fevereiro de 2026, foi então possível, sem restrições, ver e fotografar melhor o referido artefacto. 

Passa quase despercebida, num salão nobre de imensa riqueza de elementos 
arquitectónicos e decorativos, a hélice do Bristol F.2B de Allan Read., 
conforme legenda abaixo. 



Bibliografia/ Fontes

Portugal na Aventura de Voar, de Lourenço Henrique Henriques-Mateus ©2009

Apontamentos para a história … o aeroplano «Creche O Comércio do Porto» (M1997 - 57/2018) - http://www.passarodeferro.com/2018/09/apontamentos-para-historia-o-aeroplano.html

O Eng. João Branco e o voo do Blériot,  - http://portadembarque04.blogspot.com/2014/05/o-eng-joao-banco-e-o-voo-do-bleriot.html

Balonismo - http://portoarc.blogspot.com/search/label/Balonismo

Antecedentes da Busca e Salvamento com helicópteros; A barra do Douro - o 1º salvamento http://walkarounds-ccadf.blogspot.com/2014/05/antecedentes-da-busca-e-salvamento-com.html

http://portoarc.blogspot.com/2014/01/divertimentos-dos-portuenses-xxxviii.html

https://aecporto.com/clube/historia.html

https://portocanal.sapo.pt/um_video/x8j31ct

https://portocanal.sapo.pt/um_video/yowKSPww0qTIv530QATs

http://portodeantanho.blogspot.com/search/label/aer%C3%B3dromo%20da%20Senhora%20da%20Hora

http://portodeantanho.blogspot.com/search/label/aer%C3%B3dromo%20de%20Oliveira%20Monteiro

http://portodeantanho.blogspot.com/search/label/aer%C3%B3dromo%20do%20Castelo%20do%20Queijo

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/visita-de-sua-santidade-o-papa-joao-paulo-ii-a-portugal/

A Defesa do Património Cultural Subaquático e a criação de mecanismos para a construcção da Carta Arqueológica Subaquática Aeronáutica, por João Carlos da Silva Rodrigues Ferreira (CAP/TPAA), trabalho de investigação individual do CPOS/FA 2011/2012, pub IASM.


quarta-feira, 24 de maio de 2023

MARINHA PORTUGUESA NO PORTO - Exibição da EHM [M2410 - 42/2023]


No passado domingo, dia 21 de maio, uma parelha de helicópteros Lynx Mk-95A, pertencentes à Esquadrilha de Helicópteros da Marinha (EHM), efetuou uma demonstração bastante abrangente, que percorreu um envelope de capacidades que estes aparelhos - agora modernizados - dispõe para apoio às operações da Marinha Portuguesa.
Um dos aparelhos operou a partir da fragata D. Francisco de Almeida (F334), ancorada em pleno Rio Douro, enquadrada com a Ponte D. Luís I, um dos ex-libris da Invicta cidade do Porto.
Vários milhares de pessoas, em ambas as margens das zonas ribeirinhas de Porto e Vila Nova de Gaia,  tiveram uma oportunidade que não é frequente, de assistir à evolução dos dois aparelhos, durante vários minutos que, seguramente, não desiludiram nem deixaram ninguém indiferente.








Fotografias: Rui Ferreira
Edição: Pássaro de Ferro


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Apontamentos para a história … o aeroplano «Creche O Comércio do Porto» (M1997 - 57/2018)



Numa altura em que a aviação do mais pesado que o ar dava os seus primeiros passos, desde o “gatinhar” de pioneiros como Santos Dumont e dos Irmãos Wright (sem entrar em discussões sobre qual foi o primeiro), que o voo destes e muitos outros pioneiros, “gloriosos malucos das máquinas voadoras”, era um fenómeno crescente acompanhado à distância no nosso cantinho peninsular, acompanhado mas também participado, por pioneiros nacionais e estrangeiros, como foi o caso de João Gouveia, Abeillard Gomes da Silva, Armand Zipfel, Julien Mamet, Óscar Blanck, Sanches de Castro, D. Luís de Noronha, Abílio Nunes dos Santos, e outros.


Pelo que julgo saber, a primeira vez que se tentou voar em Portugal com recurso a um aeroplano, foi no ano da fundação do Aero Club de Portugal, que aliás promoveram a vinda do piloto francês Armand Zipfel, que aos comandos de um Voisin Antoinette, no Hipódromo de Belém, a 27 de Outubro de 1909, se elevou no ar num salto de 200 metros a 8 metros de altura. Lamentávelmente não foi muito bem sucedido, espatifando o aeroplano, não se repetindo a proeza. 
Algum tempo depois, é Julien Mamet que eleva sobre os céus da capital, num Blériot XI, a 27 de Abril de 1910.
Mas foi só em 1912, que tem lugar as «primeiras demonstrações aéreas executadas de forma consistente», no Porto, como veremos.


A Creche do jornal “o Comércio do Porto”

Fundadas a partir de 1910 e até 1933, por iniciativa do jornal “O Comércio do Porto” são um conjunto de creches que tinham em vista auxiliar a prole da massa crescente de operárias fabris, sendo as creches custeadas por apoios diversos, nomeadamente subscrições públicas, donativos, etc. 
Já em 1912, a creche “O Comércio do Porto”, prestava auxílio a um impressionante número de crianças, 770 por mês.

Sucede que, os primeiros passos da aeronáutica era seguidos com muita atenção não só pela redacção mas sobretudo pelos leitores do jornal de forma muito entusiasmada e, em 1912, a direcção da creche decidiu uma forma inovadora de angariar fundos para as suas obras: exibir um aeroplano em demonstrações de voo na cidade, para gáudio de todos e para que, ao mesmo tempo, pudesse «redundar em benefício da creche», conseguindo-se os fundos necessários para a manutenção e expansão da sua obra.
Tendo sempre presente esse objectivo, meteram mãos à obra e empreendeu-se a aquisição de um aeroplano para levar o público « a vêr esse prodigioso navio aéreo que se chama um aeroplano». Nas páginas do Comércio do Porto, foi-se criando nos leitores uma expectativa tal que a população estava ansiosa de ver o aeroplano voar muito antes de o mesmo cá chegar.

É por isso adquirido em Paris um Maurice Farman tipo 1912(1), por intermédio do agente local do jornal, o Dr. J. M. Cisneiros Ferreira, que depois de estudar as diferentes opções, procedeu à sua aquisição directamente junto do fabricante. 

A réplica do MF4 da colecção do Museu do Ar, 
quando ainda estava em Alverca.

O aparelho da casa Farman, e que foi testado pelo próprio, ostentava uma envergadura de 15 metros, velocidade máxima de 80km/h, motor Renault de 70cv, carga útil de 300kg. Podemos encontrar uma réplica no Museu do Ar, em Sintra.

A réplica representa um Maurice Farman MF4 “Longhorn”, foi construída na OGMA em 1977, tendo sido apresentada já no Porto, nas comemorações do aniversário da Força Aérea Portuguesa desse ano, e exposta como figura central, também esta, no Palácio de Cristal.
A exposição da FAP de 1977, no Palácio de Cristal, 
tem como figura central o MF4, sendo rodeada de 
diversos meios aéreos e equipamentos, não só da 
FAP como dos aeroclubes.  

Desmontado e embalado para a viagem por mar, a 26 de Agosto de 1912 chega a Leixões, a bordo do paquete “Hildbrand”, acompanhado do piloto, Leopold Trèscartes, e do mecânico Felix Bouvier, de onde segue para o Palácio de Cristal, para proceder à sua montagem.


O aeroplano no Palácio de Cristal


O aeroplano no Palácio de Cristal
Foto: Arquivo Municipal do Porto

O avião foi transportado para o Palácio de Cristal, onde se processou a sua montagem, iniciando-se a 28 de Agosto, à vista de todos, ou de pelo menos todos os que puderam dispor da módica quantia de 200 reis para o bilhete de entrada (preço já com selo incluído!).
Depois de concluída a montagem, a 1 de Setembro, teve lugar a apoteótica cerimónia na nave central, numa «festa de homenagem ao Progresso e ao Génio humano», conforme anunciou o jornal, e na qual estiveram presentes alguns milhares de pessoas. O programa durou dois dias, e que incluiu animação por parte de diversas bandas militares e civis, e também de concertos no órgão de tubos do Palácio. 
Sendo o objectivo angariar fundos para a creche, tudo foram pretextos para tal, como por exemplo: uma das casas de fotografia, registou os momentos da construção, vendendo depois as fotografias revertendo parte da receita para a creche; uma confeitaria da cidade colocou à venda durante este período «caixas e pacotes de doces finos envolvidos em papel com desenhos do biplano» com parte do produto a reverter a favor da creche; o restaurante do Palácio ofertou uma parte dos proveitos destes dias em prol da creche; a venda da “insígnia da aviação”, a “Ave Azul”, cinzeiros, e outros objectos também renderam alguns cabedais. Neste contexto, a angariação para creche, rendeu a astronómica soma de 625$165 reis!


Exemplar de postal comemorativo (note-se 
assinatura de Trescartes no canto inferior direito).
Fonte: APA


Muitas ajudas

Para além das ajudas em numeral, todo o processo desde o transporte, montagem e exposição, festival aéreo, passando ainda pela posterior deslocação a Lisboa, exibição e regresso, foram alvo de muitas ajudas – toda a cidade queria participar – aliando a nobre causa de ajudar a creche, ao inédito de ver um aeroplano a voar no Porto! 
Desde o transporte marítimo, despacho e desalfandegamento, ao aval das autoridades sanitárias; descarregamento, transporte em zorras da Companhia Carris de Ferro do Porto; disponibilização do espaço em si e do trabalho dos seus funcionários por parte da direcção do Palácio de Cristal, bem como no acompanhamento da montagem e exibição do aparelho; facilidades especiais para alojar o aviador e o montador, «em condições muito favoráveis» num conhecido hotel da cidade; cedência do espaço para a construção do campo de aviação pelo Clube Hyppico Portuense e por proprietários particulares; publicidade ao evento através da afixação de cartazes por uma empresa de reclames; várias ofertas de óleos e gasolinas para todas as exibições do aeroplano no Porto e em Lisboa; um altímetro cedido por um comerciante da cidade para colocar no aeroplano para permitir a medição das altitudes pelo aviador; o policiamento em todas as fases (transporte, montagem, exibições, etc.), cortesia do Governador Civil; etc.
O Aero Club de Portugal também se disponibilizou a ajudar, para além de um donativo chorudo, enviou o seu vice presidente, o Capitão de Engenharia, Manoel Gonçalves da Silveira Azevedo e Castro, como observador, e que publicou na Revista Aeronáutica um muito pormenorizado testemunho de tudo o que viu, desde a descrição das instalações, meios e dos voos realizados.
  
o Maurice Farman numa das ilustrações d'O Comércio do Porto


O Campo de Aviação do Castelo do Queijo

O voo teve lugar num campo de aviação construído de raiz para o efeito, no local do campo de corridas do Clube Hipico Portuense, localizado junto ao Castelo do Queijo, entre a estrada da Circunvalação e a estação transformadora da Companhia de Carris do Porto. 
Muito curioso o facto de que se situar no local onde fica o actual Parque Ocidental da Cidade, muito perto portanto da pista usada nas diferentes edições da Red Bull Air Race!!

Para a construção da pista, o que tomou alguns dias, muitos foram os que contribuíram para os processos terraplanagem, construção de vedações, construção do hangar, bancadas, montagem de linha telefónica, colocação de extintores, e que incluíram também, o transporte, os materiais, acompanhamento policial, para aqui também as forças vivas da cidade em acção, desde empresários a cidadãos comuns, passando pelas entidades oficiais, militares e civis, todos se quiseram de alguma forma envolver e participar.


Para além dos voos do Maurice Farman, registaram-se alguns outros, não se sabendo ao certo quando este espaço deixou de ser utilizado pela aviação.

Em Outubro de 1912, enquanto o Leopold Trèscartes voava por cima da capital, um outro pioneiro, Mr. Poumet, realizou diversos voos a partir campo de aviação do Castelo do Queijo, com um monoplano Borel. Os voos de exibição tiveram lugar a 11, 13, 15, 18 e 20 de Outubro de 1912, num total de 12 voos.
  
Uma multidão de curiosos em mais uma "invasão de campo" 
aquando da visita de um Nieuport Ni.83E.2 à pista do 
Castelo do Queijo.
Fonte: Ilustração Portuguesa/Jornal o Século

Em data que não consigo precisar Março e Abril de 1917, regista-se a passagem de um Nieuport Ni.83E.2 da Arma de Aeronáutica, tendo como piloto o Capitão aviador Norberto Guimarães, e o 1º Tenente de Marinha Adolfo Trindade, que efectuaram um voo com diversas escalas, desde V. Nova da Raínha, passando pela Figueira da Foz, Porto, Viana, e Braga.


O voo do “Creche O Comércio do Porto”

O aeroplano chegou ao campo de aviação a 4 de Setembro, em várias viagens de camião, um Saurer cedido pelo concessionário da marca, e desde então o campo esteve sempre rodeado de imensos curiosos que a polícia teve de ir afastando, nem sempre de forma pacífica.
Iniciou-se no dia seguinte a montagem e a 6 de Setembro, com o avião já montado, foram efectuados diversos testes no solo, inclusive de motor.

No sábado, 7 de Setembro de 1912, registou-se aquele que foi efectivamente o primeiro voo de um aeroplano no Porto, e depois um segundo, ambos de forma a testar o avião para os dias seguintes. A ele assistiram alguns milhares de pessoas, no recinto e nas redondezas.

o Maurice Farman a evoluir sobre o campo de 
aviação do Castelo do Queijo

A cerimónia oficial ocorreu a 8 de Setembro, um domingo, a população do Porto e dos seus arrebaldes compareceu em peso, estimando-se que estariam umas 60.000 pessoas no local, o que era em si um fenómeno! 
Os bilhetes para admissão no espaço do campo de aviação, variavam entre 100 e 1$000 réis, este último para a bancada, que estava cheia, bem como os demais espaços “a pagantes”.
O recinto incluía ainda a respectiva barraca de refrescos (parte da venda a favor da creche), bem como muitas outras do lado de fora do recinto (comidas e bebidas, frutas, limonada, etc.), e também aqui se venderam, como nos dias anteriores no Palácio de Cristal, as condecorações “Ave Azul”, bilhetes postais com fotografias do aeroplano, do piloto e do mecânico, cinzeiros alusivos, tudo em prol da creche.
A animação esteve garantida, e a cargo da Banda de Música dos operários da fábrica “A Constructora”, que também marcaram presença em todos os dias das exibições aéreas. Para além disso, a assistência médica estava assegurada, pela Cruz Vermelha, com diverso pessoal destacado para acudir a alguma desgraça ou simples maleita.
Todo o policiamento esteve a cargo da cavalaria e infantaria da Guarda Nacional Republicana que barrou, nem sempre com muito sucesso, as diversas “invasões de campo”, sobretudo na zona dos penetras “não pagantes” para assistir ao evento.

Nestes dias, e dado que o campo de aviação não estava localizado no centro urbano, e para que todos pudessem assistir, foram inúmeras as entidades que disponibilizaram transportes, nomeadamente através de serviços especiais e reforçados de eléctrico e carro americano, comboio (desde a Póvoa do Varzim, e Guimarães), todas elas a preços módicos; até rebocadores asseguraram também o transporte entre Leixões e a Cantareira, um navio até fez um cruzeiro para ver o aeroplano a voar desde o mar, e o único táxi registado na cidade fez incontáveis viagens. Escusado será dizer que, de distâncias consideráveis, muitos foram os curiosos que se deslocaram nos mais diversos meios de transporte, ou a pé…

Foram também inúmeros os lugares da cidade forrados de gente a querer ver o aeroplano, na Torre dos Clérigos, na Serra do Pilar, a bem dizer todos os pontos mais elevados, onde se podia vislumbrar um pouquinho do céu, e também telhados, varandas e janelas estavam pejados de mirones.
Repare-se a curiosidade de que, o Monte Crasto (Gondomar), que dista uns 6 kms do centro do Porto (13km do Castelo do Queijo), estava pejado de gente que teimava em querer ver aquele pontinho negro a evoluir ao longe por cima do contorno da cidade! (com as necessárias diferenças, o mesmo que se consegue ver hoje quando dali se avista o R44 a fazer os voos turísticos…). 

O primeiro voo do dia 8 foi um voo de teste, com o piloto a fazer um voo de 12 minutos, a 250 metros de altura, sobrevoando a Foz e Matosinhos.
O segundo voo, o dito “voo oficial” teve a duração de 16 minutos, e depois do avião evoluir sobre o campo à altura de 300 metros, dirigiu-se ao Porto, sobre o rio Douro, passando pela Torre dos Clérigos, Praça da Liberdade, Marquês, e S. Mamede de Infesta.
Foi precisamente por aí que se registou uma peripécia que poderia ter dado em desgraça. Leopold Trèscartes levava um passageiro, o sportsman Sr. Luíz Marques Merino, um de diversos entusiastas que pagou para poder voar (ofereceu a imódica quantia de 50$000 reis). Conforme previsto, o Sr. Merino, iria desde as alturas fazer publicidade às águas das Pedras Salgadas, lançando panfletos (sob a forma de pequenos papelinhos verdes e vermelhos). Sucedeu que, esses mesmos panfletos não “cairam” todos para baixo da fuselagem como seria desejável, muitos foram alojar-se no ventilador do motor, causando a sua paragem. Rapidamente o piloto tomou a direcção do campo de aviação, aterrando em segurança a escassos 50 metros da pista, com pequenos danos para o aparelho, e danos em postes telefónicos e na vedação do campo.
Logo se juntou a populaça, a querer ajudar, e gerou-se até um tumulto com algumas prisões! Ordem estabelecida pela autoridade, lá o aparelho foi conduzido pelo piloto e mecânico, com a ajuda dos populares para o recinto e para o interior do hangar.

Reparada a avaria, a 11 de Setembro foi efectuado um voo de teste de 7 minutos e, da parte da tarde, retomados os voos constantes do programa, que acabou por ser só um já que, depois de um voo de 10 minutos, ocorreu uma “invasão de campo”, já não sendo possível efectuar mais voos nesse dia.

A 12 de Setembro realiza-se apenas um voo de experiência, e a 15 tem lugar o terceiro e derradeiro espectáculo público, no qual se efectuaram cinco voos, terminando a exibição do Maurice Farman no Porto.

No dia seguinte inicia-se a desmontagem e preparação para a viagem de comboio para Lisboa onde entre 27 de Setembro e 26 de Outubro fez 31 voos de demonstração, quase todos com passageiros e até, pasme-se, com senhoras!  Para Lisboa também houve diversas ajudas, desde a disponibilidade da antiga carreira de tiro de Pedrouços (onde se localizava à data o Hipódromo) para os voos, bem como o respectivo policiamento, e muitas outras contribuições.
Regressou ao Porto no final de Outubro de 1912.

Capa da edição de 30 de Setembro de 1912 da revista OCCIDENTE.


O “Creche O Comércio do Porto” na vida militar

Era intenção na altura, da Direcção da Creche do Comércio do Porto em inaugurar uma escola de aviação militar, no Porto, sob orientação do piloto Leopold Trèscartes, assim que o biplano regressasse ao Porto, e naturalmente, o produto do valor das inscrições no curso reverteriam a favor da Creche. Tal não veio a ter lugar.

O Maurice Farman foi, algures em 1913, oferecido ao governo, sendo integrado em Junho de 1913 na Companhia de Aerosteiros. Com a criação da Escola de Aeronáutica Militar, a 14 de Maio de 1914, veio para Vila Nova da Raínha, onde serviu como aeronave de instrução, até 1917, quando foi retirado de serviço.
O primeiro aparelho da aviação militar é, como se sabe o Deperdussin B, oferta de Albino da Costa, e este o segundo aparelho, sendo que a estes se juntaram dois Maurice Farman MF11, todos eles utilizados no primeiro curso de aviação militar.
Para terminar, refira-se, o facto curioso de que foi precisamente neste aparelho, à altura baptizado com o nome de “Casta Suzana” (peça de teatro em voga na época), que Gago Coutinho recebeu o seu baptismo de voo, a 23 de Fevereiro de 1917, tendo aos comandos o seu companheiro Sacadura Cabral. 
É caso para dizer: e esta, heim?
Na Escola de Aviação Militar, recebeu o apelido de “Casta Suzana”.


Rui “A-7” Ferreira
Tripeiro e Entusiasta de Aviação
_____

Nota: Por opção própria, o autor não escreve sob o atual acordo ortográfico.


Fontes de Informação:
Prof. Hélder Pacheco; Jornal “O Comércio do Porto”; O Tripeiro/Brig.Nunes da Ponte; Maj. Adelino Cardoso; Dr. Mário Correia; Henriques-Mateus; Eng. Lima Basto; Museu do Ar; Arquivo Municipal da CM Porto; “Dez Décadas de Força Aérea”/TGen. Mimoso e Carvalho; blog exOGMA; Restos de colecção (Blog); Illustração Portuguesa/O Século; revista Occidente; Frank Lemos Silveira / APA; Paulo Moreira; Arq. Augusto Mouta/A Aviação Militar Portuguesa Durante a 1ª Guerra Mundial;


Notas:
(1) – Caríssimos leitores Pássaro-Ferrosianos, até posso admitir que seja este aparelho, efectivamente, um M.F.4, contudo, não encontrei de forma clara informação sobre qual o modelo exacto do Maurice Farman que foi adquirido pelo jornal, referindo-me a ele como sendo um modelo de 1912, ou type 1912. Será definitivamente um modelo anterior ao M.F.7 de 1913, sendo que diversos autores e também o Museu do Ar, se referem a ele como sendo um MF.4 [registe-se a excelente réplica construída em 1977 na OGMA in illo tempore existente no Museu do Ar.] 


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