sábado, 13 de junho de 2026

ANOS 80, GUERRA FRIA E UMA BASE AEREA PORTUGUESA - 1ª parte

 


A Guerra Fria foi um período histórico que mediou entre o final dos anos 40 do século passado e 1989, data da demolição do Muro de Berlim ou 1991, data do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ou URSS (consoante diferentes opiniões). Independentemente da data do seu fim, aquele período caracterizou-se por elevada tensão política e militar entre dois blocos de Estados, os da Aliança Atlântica (com a sigla inglesa NATO), conduzida pelos Estados Unidos da América (EUA) e o Pacto de Varsóvia (PV), orientado pela então existente União Soviética. 

 


Naquele período, a que alguns chamam “a Primeira Guerra Fria “, a momentos de alguma distensão sucediam-se outros de elevada perigosidade, sendo exemplos destes últimos, o bloqueio terrestre de Berlim no final dos anos 40, a construção do respetivo Muro em 1961, a crise dos misseis de Cuba em 1962 e, em meados dos anos 80 do século XX, época relacionada com este artigo, a disputa dos chamados “euromísseis” (focados mais adiante). 

A NATO, nestes anos, era constituída inicialmente por 15 Estados, depois 16 com a entrada de Espanha, enquanto o PV alinhava 7 Estados (alguns dos quais fazem hoje parte da NATO) tendo, entretanto, desaparecido um deles, a República Democrática Alemã (RDA), ou Alemanha Oriental, e separando-se o antigo Estado da Checoslováquia em dois Estados independentes, a República Checa e a Eslováquia. Também a URSS perdeu várias repúblicas, incluindo os Estados bálticos de hoje, invadidos e anexados nos anos 30 do sec. XX. A separação geográfica entre ambos os blocos ocorria entre as Alemanhas Ocidental e Oriental, bem como na Noruega, Grécia e Turquia. 

A NATO encontrava-se significativamente ultrapassada pelo PV na generalidade das capacidades militares, em termos quantitativos. A Aliança Atlântica apostava, sobretudo, na sua superioridade qualitativa, embora muitos observadores levantassem receios sobre se esta seria suficiente em caso de guerra. Neste caso, as hostilidades deveriam ocorrer transversalmente a todos os ambientes, naval, terrestre e aéreo, desenvolvendo-se desde a Noruega, no norte, até ao Mediterrâneo, no sul. 

Eram especialmente focadas duas áreas, o Atlântico, por onde deveriam chegar os reforços americanos para a Europa, área sujeita à ameaça submarina soviética, e a região central europeia, concretizada na zona alemã ocidental conhecida por “Fulda Gap”, por onde eram esperadas vagas sucessivas de blindados soviéticos, antecedidas de vastos ataques aéreos e de mísseis. Por documentos entretanto desclassificados, sabe-se hoje que a escalada para o emprego de armas nucleares táticas era bastante provável, e era treinada em exercícios. 

Outro potencial ponto de fricção era Berlim Oeste, então uma cidade isolada na antiga RDA, com limitadas ligações terrestres e aéreas com o Ocidente (três corredores aéreos, p.ex.º), por acordo entre as partes. Apenas aviões britânicos, franceses e americanos, militares e civis, podiam voar da Alemanha para Berlim Oeste. 
Para se ter uma ideia da intensidade esperada para os possíveis combates de um conflito, basta dizer que, segundo fonte não-oficial americana, um estudo sobre as perdas da aviação israelita na guerra de 1973 e sua transposição para a realidade da Europa, apontava para que a NATO ficasse sem aviões em 14 dias. Esse estudo, entre outros factores, influenciou a atual solução stealth. 

Naqueles anos, com a chegada ao poder do presidente americano Ronald Reagan, os EUA adotaram uma política mais enérgica no relacionamento com a União Soviética e suas ações mundiais, como a expansão na Ásia pós-Vietname ou em África. Assim, à decisão soviética de levar para o terreno, no leste europeu, os misseis balísticos SS-20, foi contraposta a intenção americana de colocar na Europa ocidental (Alemanha, Bélgica e Reino Unido, pelo menos) misseis balísticos Pershing II e misseis de cruzeiro ground-launched Tomahawk. Estes “euromísseis” incorporavam cargas militares termonucleares, como era prática desde há décadas. 

Com efeito, desde os anos 50 que existiam na Europa em alerta de 15 minutos, dezenas de aviões municiados com bombas gravíticas nucleares (no Ocidente, B43, B57, etc. e, no Leste, 8U46/8U47/8U49) bem como misseis nucleares táticos (Lance, Mace, SCUD, etc.). Existiam ainda, em Inglaterra, quatro postos de comando voadores americanos EC-135 Silk Purse, que dispersavam para outros locais (incluindo uma ilha, identificada na internet) para controlar o alerta nuclear da NATO (este autor, por inadvertência, ia tendo problemas por se aproximar a pé do dito avião…). Juntava-se este dispositivo aos misseis balísticos e bombardeiros estratégicos das duas superpotências que, no caso americano, chegaram a incluir, durante os anos 60, o alerta nuclear em voo com B-52 (operação Chrome Dome). 
Pelos anos 80, um dos mais acesos pomos de discórdia consistia nas designadas Enhanced Radiation Weapons, que o vox populi e mediático renomeou como “bombas de neutrões”. Estas privilegiavam o efeito radioativo em detrimento dos efeitos térmicos e mecânicos, visando eliminar as guarnições de eventuais carros de combate invasores sem causar excessivos danos nas infraestruturas europeias ocidentais, uma opção técnico-militar que muitos diziam inumana. 

Todos estes desenvolvimentos levaram ao aparecimento de movimentos sociais e políticos anti mísseis e pacifistas, observando-se na TV as inúmeras manifestações no Ocidente contra a decisão da instalação daquelas armas (no Leste, se existiam manifestações pacifistas, não se dava por isso). Ficou célebre a frase “Better red than dead” divulgada por alguns desses movimentos, os quais, associando o pacifismo à recusa da energia nuclear, estão na origem de forças políticas ainda hoje muito relevantes nalguns países europeus. Outras demonstrações de rejeição do nuclear, na Europa ocidental, foram as chamadas ZLAN (Zonas Livres de Armas Nucleares), existindo algumas claramente sinalizadas pelos municípios de diversas povoações portuguesas, uma delas vizinha da base aérea aqui retratada. No campo da informação (ou propaganda…) publicada pelos dois blocos, em Portugal, se a embaixada americana fazia distribuir o fascículo “Poderio Militar Soviético”, voltado para as capacidades, consideradas ameaçadoras, das forças da URSS para lá da chamada “Cortina de Ferro”, a homóloga soviética providenciava o livro “Exército Soviético”, reunindo fotografias a cores dessas mesmas forças, abordadas agora numa perspetiva elogiosa. 

Para se avaliar do estado de espírito reinante na época, foi mesmo publicada uma obra literária da autoria do general britânico Sir John Hackett com o título “Terceira Guerra Mundial” na qual se vaticinava agosto de 1985 como data do início das hostilidades. Feliz e obviamente, a obra não passou da ficção. Outro britânico preocupado com estes temas foi o cantor Sting, que lançou a canção ‘Russians’, a qual se convida a ouvir, para “dar ambiente” a esta leitura. 


Juntavam-se a este cenário de confronto leste-oeste as ressonâncias letais do conflito israelo palestiniano, várias guerras civis (África, América Central, Líbano), algumas invasões (Afeganistão e Líbano, novamente), escândalos políticos internacionais (Irangate), operações militares falhadas (Eagle Claw), operações militares conseguidas (El Dorado Canyon), boicotes a Jogos Olímpicos (Moscovo), ataques suicidas (aos Marines no Líbano, mais uma vez) e inesperadas guerras intra-bloco ocidental (Falkland/Malvinas). Na Europa, viviam-se conflitos inter-religiosos (Irlanda do Norte), atentados bombistas (Paris, Berlim), desvios de aviões (TWA, Air France, Lufthansa), sequestro de navios (Achille Lauro), rapto e assassinato de políticos (Itália) e até o abate de um jato comercial em voo (KAL007). No palco internacional, foram assim os frenéticos e turbulentos anos 80. 

Atualmente, graças à desclassificação de diversos documentos, ocidentais e ex-soviéticos, os interessados pela História, amadores e profissionais, podem aceder a relevantíssima informação sobre a Guerra Fria, por vezes arrepiante. É que uma ou outra vez, ao que parece, geraram-se situações quase explosivas (por exemplo, por ocasião do exercício Able Archer 83). Para além da macro-informação oficial ou académica, inúmeros blogs e sites contêm a micro-visão de muitos cold warriors daquela época, a qual completa utilmente a visão histórica global. 

A visão sobre a Guerra Fria aqui apresentada, no caso a de um militar desse tempo, é uma de muitas possíveis, uma por cada elemento que prestava serviço militar na época. Outras perspetivas poderão existir. 

Como nota final, é óbvio que se vivem hoje tempos bélicos que decorrem dos anos aqui retratados. Muito simplificadamente, enquanto alguns atores internacionais entendem que a Guerra Fria terminou, com vencedores e vencidos, outro ator recusa, violentamente, tal end state. Espera-se uma conclusão aceitável para o atual processo polemológico. 



Autor:  M. Tralha 
Edição: Pássaro de Ferro


Nota (foto capa) - Os exercícios NATO Open Gate e Locked Gate, realizados em anos alternados, traziam à base aérea durante duas semanas, aproximadamente, aviões americanos RF-4C (na foto, um vindo de Zweibrucken, Alemanha) e F-111 (vindos de Inglaterra), para operação em ambiente marítimo. Os RF-4 detetavam forças navais (usando um sistema electrónico designado por TEREC) e os F-111 “atacavam” as mesmas mais tarde. Assim, todos os dias pelas sete ou oito da manhã, a base e seus arredores eram acordados pelo ruído ensurdecedor dos Phantom, seguido meia hora ou uma hora depois pelo ruído mais ensurdecedor dos F-111. Para além destas aeronaves, a base começava a receber, duas ou três semanas antes do exercício, múltiplos voos de C-130 e C-141 trazendo pessoal e toda a espécie de material, incluindo os géneros alimentícios american style necessários. A Base só fornecia o chão e as camaratas…


Um Dornier Alpha Jet alemão (com nariz pontiagudo) equipado com um pod ventral contendo um canhão Mauser de 27 mm. Dado este pormenor, estaria provavelmente envolvido em tiro ar-solo (strafing) na carreira de tiro aéreo vizinha da Base. Uma das diferenças entre os Alpha Jet de origem alemã e os franceses era precisamente o armamento, com os franceses a utilizar um canhão DEFA de 30 mm, idêntico aos do FIAT G.91, a arma aérea de maior calibre até hoje usada pela FAP.


O Transall C-160 era o equivalente franco-alemão do C-130, sucessor do Noratlas e antecessor do actual A400M. No entanto, não foi tão vendido como o Hercules, sendo usado apenas pelos países fabricantes e mais dois ou três. A maior parte das visitas destes aviões eram de exemplares alemães, como se mostra. A pintura consistia na chamada “camuflagem NATO” (verde-escuro e cinzento) partilhada com quase todos os outros aviões da Luftwaffe e com aviões de outros países. No entanto, os aviões de transporte alemães possuíam extensas zonas de alta visibilidade.


Mais um avião holandês, mais um F-104. Como se depreende, aviões deste tipo visitavam a base com alguma regularidade, sendo prática habitual, após a descolagem, fazerem um ruidoso low pass a alta velocidade sobre os edifícios da área do aeródromo. Para o pessoal de manutenção aeronáutica da base, era uma ocasião de executar cross servicing em aviões estrangeiros, sendo por exemplo oportunidade para efectuar arranques de reactores usando air starters rebocados, dado que as aeronaves desta base não arrancavam com air starter.

Visitantes estrangeiros ocasionais, como é o caso deste Breguet Atlantic da Marinha holandesa, representavam as operações marítimas e anti-submarino, realizadas na esfera do, então existente, comando aliado SACLANT. O visitante é especialmente apropriado, já que dos cinco tipos e modelos de aviões anti-submarino operados pela FAP, três foram previamente holandeses (PV-2, P2V-5 e P-3C, sendo os restantes os Helldiver e os P-3P). Sublinhe-se que, na Guerra Fria, a Marinha holandesa enquadrou uma das duas aviações europeias da NATO com capacidade para empregar bombas de profundidade nucleares anti-submarino (mas não com os Atlantic), de propriedade americana, juntamente com a britânica RAF.

Um F-16 americano visitante, baseado em Torrejon, perto de Madrid. Estamos aqui na recta final da permanência de aviões de combate americanos em Espanha, que já ocorria desde os anos 50, sucedendo-se os caças F-86D, F-102, F-4D e F-16. A dada altura, existiram diversas manifestações contra as unidades aéreas americanas, exigindo a sua saída de Espanha. Tal veio a ocorrer, enquadrado na adesão espanhola à NATO, quarenta anos depois de Portugal (as unidades americanas estavam em Espanha ao abrigo de um acordo bilateral, que previa ainda o apoio a bombardeiros nucleares). O destino desta unidade foi Aviano, na Itália.


Não se imaginava, na época, que a FAP viria a operar o Alpha Jet. Aqui se vê um exemplar belga, em viagem de navegação, da versão produzida em França pela Dassault-Breguet (nariz arredondado). Como se sabe, os Alpha Jet portugueses foram da versão produzida na Alemanha pela Dornier (nariz pontiagudo) sendo certo que mais diferenças existiam.


Outro avião notável da Guerra Fria foi o bombardeiro médio Canberra, protagonista de várias missões incluindo, nos anos 60, o alerta nuclear táctico britânico, na Alemanha e em Chipre. Com efeito, tratava-se de um avião de apreciáveis dimensões, com piloto, navegador e porão de bombas. Invulgarmente, dava-se o caso de, nalgumas versões, o piloto dispor de cadeira ejectável (do famoso fabricante Martin-Baker) mas o navegador não a ter. Teria que abandonar o avião em voo abrindo uma escotilha e saltando em pára-quedas (esta diferença de meios existiu noutros aviões, como o bombardeiro Vulcan por exemplo). Alguns veteranos de África já conheciam este avião, dado que os Canberra rodesianos visitaram aeródromos portugueses nas ex-colónias. O Canberra que aqui se vê, numas cores algo invulgares para avião militar, é alemão e destinava-se a voos de teste, não a missões operacionais. A Alemanha possuiu apenas três, sendo, portanto, raridades.

Um dos mais frequentes visitantes da base, para Squadron Exchanges, eram os Harriers britânicos, quer baseados na Velha Albion, quer oriundos da então existente RAF Germany Harrier Force. Nesta foto pode observar-se um Harrier bi-lugar, para conversão operacional. Ocasionalmente realizavam-se demonstrações de voo vertical, muito interessantes, e ruidosas.


Outro belga, desta vez de asa rotativa, na Linha da Frente junto à torre de controlo. O insuperável Alouette III é aqui mostrado nas cores da Marinha belga, provavelmente baseado numa fragata em visita ao porto de Lisboa. A recepção de helicópteros embarcados não era muito frequente nesta base, mas ocorria por vezes.

O F-104 Starfighter, conhecido inicialmente por “o míssil com um homem dentro”, ganhou uma reputação algo triste nos anos 60 devido ao elevado número de acidentes ocorridos com diversos operadores. O mais notável destes foi a Luftwaffe alemã, a qual, também por razões que ultrapassavam a própria aeronave, perdeu centenas de aviões, dando origem a outra alcunha, o “fazedor de viúvas”. Mesmo assim, tornou-se um avião emblemático da Guerra Fria, desempenhando durante 30 anos missões de defesa aérea e de ataque, incluindo o alerta nuclear de sete países da NATO. Na imagem vêem-se F-104 belgas, numa das suas viagens de navegação cross country, as quais normalmente implicavam, para os belgas e outros, a chegada de uma ou duas parelhas à base numa 6ª feira à tarde e a partida na 2ª de manhã.

Os belgas foram dos primeiros operadores do F-16 a visitar Portugal com estes aviões, talvez o primeiro. À data desta foto, o Viper estava na panóplia belga há muito pouco tempo, na sequência do então chamado “negócio do século”, a compra por quatro países NATO europeus (Bélgica, Dinamarca, Holanda, Noruega) do F-16 (depois do primeiro “negócio do século”, a compra dos F-104 pelos mesmos países, mais Alemanha, Canada e Itália). Os aviões têm sob a asa um pod branco SUU-20, o qual comportava seis bombas de exercício e quatro foguetes, para treino, também usado em Portugal, mas mal amado pelos mecânicos de armamento FIAT.

ARTIGOS MAIS VISUALIZADOS

CRÉDITOS

Os textos publicados no Pássaro de Ferro são da autoria e responsabilidade dos seus autores/colaboradores, salvo indicação em contrário.
Só poderão ser usados mediante autorização expressa dos autores e/ou dos administradores.

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Laundry Detergent Coupons
>