terça-feira, 11 de dezembro de 2018

A400M VAI À PRAIA EM DEZEMBRO (M2013 - 73/2018)


Apesar da época estival ter claramente passado, a 10 de Dezembro de 2018 foi dia do A400M n/c ZM414 da Royal Air Force ir à praia.
Mais concretamente em Pembrey Sands, Gales, realizou testes de operação em pista de areia. Sempre impressionante ver uma aeronave destas dimensões aterrar e descolar numa praia.
As imagens falam por si.



 







Imagens: Pembrey Airport







segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

TU-160 RUSSOS VOLTAM À VENEZUELA (M2012 - 72/2018)

Foto: AVIAMIL

Foto: AVIAMIL

Aterram hoje no aeroporto internacional Maiquetía, na Venezuela, dois bombardeiros estratégicos Tu-160, da Força Aérea Russa.
Os mesmos foram escoltados por F-16, na chegada àquele país da América do Sul, onde irão realizar exercícios militares com a Força Aérea Bolivariana Venezuelana.

A chegada dos Tu-160 de matrículas RF-94100 e RF-94108 foi precedida por um An-124 de transporte e um Il-62, para apoio logístico aos bombardeiros.

An-124-100 Ruslan de apoio aos bombardeiros na chegada à Venezuela

Pelo caminho, e à passagem ao largo das ilhas britânicas, o alerta da Royal Air Force foi despoletado, com a consequente descolagem de dois caças Typhoon da base de Lossiemouth, e um avião de reabastecimento aéreo Voyager desde Brize Norton. A intercepção contudo, não chegou a ocorrer, com os bombardeiros a passarem em espaço aéreo internacional.



Segundo comunicado do Ministério da Defesa Russo, a rota das aeronaves pelo Mar de Barents, Mar da Noruega, Oceano Atlântico e Mar das Caraíbas, "foi realizado em estrito acordo com as regulamentações internacionais para o uso do espaço aéreo".

Cerimónia de recepção dos Tu-160 em Caracas       Foto: AVIAMIL

Esta deslocação dos Tu-160 não é uma novidade, tendo estado já na Venezuela anteriormente em duas ocasiões, em 2008 e 2013. Desta feita no entanto, parece inscrever-se num período de especial actividade desta frota com capacidade nuclear, e após o anúncio de Donald Trump, de retirar os EUA do Tratado de Armas Nucleares de 1987.

Vídeo da aterragem:





segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

MEIO SÉCULO DE JAGUARES (M2011 - 71/2018)

O F-16 com a nova pintura comemorativa, em frente de um Fiat G91 preservado da Esquadra 301

Escassas semanas depois dos Falcões terem chegado às seis décadas, comemorando a efeméride com uma pintura num dos F-16 operados pela Esquadra 201, foi a vez dos Jaguares atingirem também um número "redondo": 50 anos.
Nark, o mesmo artista que decorou a cauda do F-16 15103 com o falcão da 201, foi de novo chamado a ilustrar a cauda de um F-16, neste caso com um jaguar, na aeronave com número de cauda 15105.


A cerimónia comemorativa teve lugar na Base Aérea nº 5, Monte Real, no passado dia 25 de Novembro, dia exacto em que se completou meio século sobre a data oficial de criação dos "Jaguares", actualmente com a designação oficial Esquadra 301.
Nela estiveram presentes actuais e antigos membros dos Jaguares, bem como das duas outras Esquadras de voo que operaram o Fiat G.91 nas guerras de África (Esq.121 -Tigres e Esq.702 - Escorpiões),  das quais a Esquadra 301 é herdeira natural.


A descerrar a pintura esteve o General CEMFA Manuel Rolo, o actual Jaguar-mor TCor Nuno Monteiro da Silva e os elementos mais antigos das três Esquadras de África, de que descende a actual 301.


O 15105 foi desde então já visto a voar em missões operacionais e registado pelos spotters e entusiastas que tiveram oportunidade de passar por Monte Real.
Esta será também a pintura que a Esquadra 301 irá levar ao NATO Tiger Meet de 2019, que decorrerá de 13 a 24 de Maio, em Mont-de-Marsant, França.

Foto: Marco Casaleiro

Na mesma data foi ainda apresentado o livro fotobiográfico "Jaguares - 50 anos", que está disponível através do contacto da logística da Esquadra 301: ba5_go_esq301_jaguares@emfa.pt

Capa do livro fotobiográfico dos "Jaguares"






terça-feira, 27 de novembro de 2018

F-16 NO AM3 - PORTO SANTO (M2010 - 70/2018)

Descolagem do 15108

Na passada 2ª feira, dia 19 de novembro, quatro caças F-16 da Força Aérea Portuguesa aterraram no Aeródromo de Manobra nº3, no Porto Santo.
Sempre que estas aeronaves se deslocam à Região Autónoma da Madeira (RAM), salta logo pertinente a questão: para quando um destacamento permanente de alerta destes aparelhos naquela zona?
E a questão ganha corpo ainda mais consistente quando se percebe que o radar do Pico do Arieiro - na Ilha da Madeira -  já é uma realidade.

Os 4 caças a sobrevoar a Madeira. (Foto: Força Aérea Portuguesa)

Enquanto estas questões não são respondidas com "propriedade e sobriedade" até, resta praticamente a necessidade de fazer o registo das raras ocasiões em que aeronaves de combate se deslocam ao AM3.


Descolagem do 15112 e 15120

É que em tempos recuados, algures durante a primeira "Guerra do Golfo", em 1991, estiveram estacionados no Porto Santo, "para qualquer eventualidade", alguns A-7P Corsair II, na altura a ponta da lança da arma aérea nacional. Os registos dessa presença e passagem são raros e sonegam-se a uma certa escrita da História.
Para combater a raridade destes eventos, fica o registo simples dos quatro aparelhos que estiveram na RAM por algumas horas.

Descolagem do 15131

Fotos cedidas por Artur Neves a quem o Pássaro de Ferro agradece.

sábado, 24 de novembro de 2018

... à passagem por Sagres (M2009 - 69/2018)



Nas minhas férias deste ano também passei por Sagres, um dos quatro cantos do nosso simpático rectângulo à beira mar plantado, e aproveitei a deslocação para visitar as Commonwealth War Graves que se encontram no cemitério local.
Foi a 22 de Março de 1943 que a população de Sagres foi surpreendida com a passagem a muito baixa altitude de um Catalina da RAF, tão baixo ao ponto de colocar toda a população em alvoroço, havendo registo de a mesma ter saído de suas casas «esbaforida», com receio que o aparelho se fosse despenhar por cima das suas cabeças.
De acordo com a descrição no livro “Aterrem em Portugal”[1] , o susto terá sido tão grande que a guarnição da Fortaleza de Sagres saiu em auxílio da população que estava em pânico, temendo o pior. Uma das descrições refere mesmo que o Catalina passou «tão baixo que parecia que lhe podíamos tocar, se esticássemos o braço.»[2] !!!  
O avião estaria com problemas mecânicos, ou poderia ter sido atingido em combate, o que era muito comum nesta altura, confrontos entre a aviação aliada de escolta a comboios de navios e FW200 ou com submarinos alemães. Estaria a tripulação, por uma razão ou pela outra, a descer do coberto de nuvens para poderem ver terra ou o oceano para aí aterrarem ou amararem. Dizem as descrições que o aparelho saiu das nuvens a rasar a povoação, voltando logo a ganhar altitude em direcção da Baía no Tonel, por certo para tentar a amaragem. Não chegaram a tanto porque, já sobre a baía, e à vista da população, o avião explodiu.
Ainda se fizeram ao mar os pescadores locais para localizar sobreviventes, mas sem sucesso.
Da tripulação de 10 elementos, apenas foi encontrado, ainda preso à cadeira o Sargento Artilheiro Orton, perto da capela de Nossa Senhora da Graça. Alguns dias depois, deu à costa o corpo do Operador de rádio/Artilheiro Gibson, tendo sido ambos enterrados no cemitério local, com honras militares.
O aparelho, um Consolidated Catalina Mk.Ib, com o registo FP154/DA-D, pertencia ao 210º Esquadrão do Comando Costeiro da RAF, operado em missões de luta anti-submarina e escolta de comboios de navios.
Durante esta época o esquadrão estava baseado em Pembroke Dock, Pembrokeshire, País de Gales, mantendo um destacamento operando a partir do Air Head Quarters de Gibraltar, de onde saiu para missão de escolta a um comboio de navios (designado “SV8”) cerca das 08H12M desse dia, para onde já não regressou.

A tripulação era composta por:

Flight Officer    Martin Joseph French (GB)      Piloto
Flight Sergeant Robert Joseph Gordon Campbell (GB)
Sergeant  Gilbert Joseph Orton (GB)*     Artilheiro
Flight Sergeant     George Tod Wright Gibson (GB)* Operador Rádio/Artilheiro
Sergeant           Cyril Field (GB)
Sergeant           Ian Lockarbie Maclean (GB)
Sergeant           Ernst Hugh Strathearn Marsh (GB)
Sergeant           Eric Mckim (GB)
Sergeant           Eric Joseph Smith (GB)
Flight Officer  George Eriksen McNaughton (AUS)

(*) sepulturas no Cemitério de Sagres;



  
977499 Flight Sergeant
G.T.W. GIBSON
Royal Air Force
22nd March 1943 Age 33

THE DEAR SON,
OF ALEX, AND MARGARET GIBSON
LOCKERBIE, DUMFRIES, SCOTLAND
“REST IN THE LORD”



1495606 Sergeant
G.J. ORTON
Royal Air Force
22nd March 1943 Age 21

LET PERPETUAL LIGHT
SHINE UPON HIM, O LORD:
MAY HE REST IN PEACE


Rui “A-7” Ferreira
Entusiasta de aviação

Nota: o autor escreve na grafia antiga por opção.




Notas:
[1] “Aterrem em Portugal”, de Carlos Guerreiro, Ed. Pedra da Lua, 2008
[2] Carlos Guerreiro cita no seu livro uma outra publicação: o jornal “The Portuguese Resident”, na sua edição de 4 de Novembro de 2002, onde publica um trabalho sobre este acidente, da autoria de Jon Rivelson Wilson.

Outras referências:

Aterrem em Portugal: http://aterrememportugal.blogspot.com/2011/04/sagres-homenageia-combatentes-e.html
CWGC Portugal:https://www.cwgc.org/find/find-cemeteries-and-memorials/results?country=Portugal
Forum Keypublishing: https://forum.keypublishing.com
WW2 Forum: https://ww2aircraft.net
History of War: http://www.historyofwar.org/articles/weapons_PBY_catalina_RAF_service.html


domingo, 11 de novembro de 2018

Vila Chã: um local, dois aviões, seis heróis… (M2008 - 68/2018)


A História é uma coisa que já aconteceu, já está por isso escrita, no espaço e no tempo, como sulcos na palma das mãos, ou rugas num rosto. Mas não é estanque, vai sendo acrescentada, descobrem-se novos dados, artefactos, documentos, vai por isso sendo objecto de novas interpretações, reescrevendo-se os catecismos que se julgavam concluídos.
Confesso-vos que o livro “Aterrem em Portugal!” de Carlos Guerreiro (que acabei de ler só agora!!!), é um belíssimo documento mas que, como acontece com outros, é um processo dinâmico, podendo ser alvo de novas edições, revistas e aumentadas – assim o esperamos todos nós! O Autor tem alimentado esta nossa fome, e muito bem, no seu blog , e percorrido o nosso jardim à beira mar plantado em busca de novos testemunhos, documentos, e artefactos.

À curta distância em que me encontro de Vila Chã, em Vila do Conde, custa a crer que ainda não tivesse lá ido antes, visitar o local onde tiveram lugar duas aterragens forçadas, em 1942 e 1943, uma delas já referida por mim a propósito dos aviadores inumados no Oporto St. James Cemetery [parte 1][parte 2].
Mas foi a aquisição recente de uma fotografia num alfarrabista que me fez rever o tema e arrepiar caminho até à pequena vila piscatória.


“Memórias de uma Terra”

 Alguns aspectos do interior do Núcleo Museológico “Memórias de uma Terra” da Associação Vila Chã 
Pesca, que fica na Travessa do Sol, 54, 4485-743 Vila Chã. 
Horário: Terças e Quintas 14H00 – 17H00 (visitas por marcação) - Telefone 229370818 e 
telemóvel 916072881 - Localização GPS: 41°17'52.16"N  8°43'51.69"W

À semelhança de tantos outros locais onde se tenta preservar a memória dos hábitos e costumes, e a memória das pessoas, Vila Chã viu nascer por iniciativa da Associação Vila Chã Pesca, um espaço de memória, inaugurado ao público em 21 de Abril de 2012, denominado “Memórias de uma Terra”. 
Nele podemos encontrar todos os aspectos relacionados com a história da vila, com ênfase na actividade piscatória, não só na pesca frente à costa, como também na pesca do longínquo bacalhau. 
Por lá tem também um cantinho que fala de aviões, do período da 2ª Grande Guerra, nomeadamente de dois momentos que, como veremos, vieram perturbar a pacatez dos vilaplanenses.
  


Um Vickers Wellington e um punhado de heróis

Foi esta a foto do Wellington que adquiri num alfarrabista, no meio de uma 
colecção de fotos da região de Vila do Conde, obtida em dias seguintes ao acidente, 
já depois de o que restou do aparelho ter sido arrastado para a praia pela maré.

Como referi no a propósito dos aviadores inumados no Oporto St. James Cemetery [parte 1][parte 2], a 29 de Maio de 1942 [3], o Vickers Wellington IC, de registo HX390, do 1st Overseas Aircraft Delivery Unit/15th OTU, da RAF, em voo de ferry, entre Portreath em Inglaterra de onde descolou às 13H40M,  com destino ao Egipto, via Gibraltar, e que aqui se despenhou.

De acordo com uma das fontes consultadas [1], devido a problemas no motor de estibordo, a tripulação tentou a amaragem, mas o avião partiu-se, já que terá embatido nos Penedos d’Aguilharda. Dois dos tripulantes morreram, correspondendo aos túmulos existentes no Cemitério Britânico do Porto(*), e todos os restantes se salvaram, nomeadamente os sargentos Gould e Jakson, feridos com diversas lesões e braços partidos, subiram para uma das asas. Anstey e Wallace-Cox ainda tentaram utilizar um dos botes de borracha, mas este não chegou a encher convenientemente. Foram salvos por pescadores locais, seguindo os dois feridos mais graves para um hospital no Porto. Anstey e Cox foram encaminhados uma unidade militar na Póvoa do Varzim, onde estiveram durante três semanas, depois para o Porto, de onde seguiram de comboio para as Caldas da Rainha, e regressaram a Inglaterra a 12 de Julho, via Gibraltar. 
A tripulação completa era constituída por,
Sergeant H. Jakson – operador de rádio
1320384 Sergeant M.H.Thompson(*) – artilheiro de cauda
Sergeant J. W. Gould – operador de rádio
980177 Sergeant I. Wallace-Cox - navegador
114195 P/O J. P. Anstey – co-piloto
1312337 Sergeant John Gordon Daniels(*) - piloto


Os heróis de Vila Chã

Os seis heróis de Vila Chã num belíssimo registo fotográfico, são eles: 
Manoel da Silva Oliveira (arrais), Manoel Carneiro, Cândido Augusto, 
Emilio Alves Neto, Carlos Ribeiro dos Santos, e José Maria da Silva.

Não há heróis anónimos, pelo menos aqui, e foram seis os pescadores de Vila Chã que naquele dia de mar muito agitado colocaram a sua vida em risco para salvar os tripulantes do Wellington, um gesto muito característico das gentes do mar, descrito na imprensa da época como revelador da sua «coragem, a sua generosidade, a sua solicitude e a fidalguia da sua alma».
Os seis homens fizeram-se ao mar, numa minúscula embarcação (catraia), num mar que como disse estava muito ruim, eram: Manoel da Silva Oliveira (arrais), Manoel Carneiro, Cândido Augusto, Emílio Alves Neto, Carlos Ribeiro dos Santos, e José Maria da Silva.

O seu gesto não passou ao lado da comunidade britânica, que demonstrou não só a gratidão e reconhecimento por parte dos tripulantes do Wellington, mas sobretudo pelo agradecimento oficial, por parte da RAF, que a cada um entregou um prémio de 500$00!


Um Lancaster … para a sucata


Uma das muitas fotos do Lancaster que amarou na praia em Vila Chã, já depois 
de também ter sido empurrado pela maré para a praia.  Repare-se no pormenor 
de destruição do nariz do aparelho, causado pela tripulação que, como era de 
esperar, destruiu todos os equipamentos electrónicos considerados secretos.

A 17 de Setembro de 1943, amarou frente a Vila Chã, o Avro Lancaster MkIII de registo EE106, do 619º Esquadrão do Comando de Bombardeiros da RAF. O aparelho descolou às 20H00 de 16 de Setembro de 1943, da sua base de Coningsby, para participar num ataque a viadutos de caminho de ferro, em Antheór, no Sul de França, tendo sido atingidos pela antiaérea, mas sem gravidade. No regresso devido ao mau tempo e pouca visibilidade, perderam-se e quando conseguem orientar-se verificam que estão a Norte de Espanha, no Golfo da Biscaia. Com combustível insuficiente para regressar a Inglaterra ou a Gibraltar, procuraram a costa Portuguesa para tentar aterrar ou amarar. 
Depois de duas passagens a baixa altitude empreendem a amaragem frente às praias de Vila Chã, imobilizando-se a menos de 200 metros da Praia do Puço. Os seis elementos da tripulação saíram ilesos, mas não sem antes destruiu os equipamentos electrónicos secretos. A população saiu à rua, e os pescadores também aqui ajudaram a tripulação a chegar a terra firme.

O aparelho foi sucateado no local, como aconteceu a muitos outros, não 
tendo ficado um parafuso como testemunho desta história… será?

Facto curioso, a vila tem sido visitada por familiares dos tripulantes de ambos os aparelhos, e em 22 de Novembro de 2015, foi inclusivamente erigido um pequeno memorial alusivo a este último acidente. Fica a faltar marcar o local do outro acidente.

Localização GPS: 41°17'17.98"N    8°43'55.11"W




Rui “A-7” Ferreira
Entusiasta de aviação

Nota: o autor escreve na grafia antiga por opção.



Notas:
[1] “Aterrem em Portugal”, de Carlos Guerreiro, Ed. Pedra da Lua, 2008
[2] Carlos Guerreiro cita no seu livro uma outra publicação: o jornal “The Portuguese Resident”, na sua edição de 4 de Novembro de 2002, onde publica um trabalho sobre este acidente, da autoria de Jon Rivelson Wilson.
[3] Por opção do autor, foi mantida a data inscrita nas lápides em St. James como a data do acidente e do falecimento dos tripulantes ainda que, segundo Carlos Gomes, referindo uma consulta ao Evade&Escape Report  desse acidente, o relatório este refere a data do acidente como sendo 28 de Maio, e não a data inscrita nas campas, nem tão pouco a que o autor refere no seu livro, 30 de Maio. Uma discrepância que fica por esclarecer.




sábado, 3 de novembro de 2018

Um lugar de memória, em Cascais ... (M2007 - 67/2018)


Arrisco algumas linhas acerca de um local de interesse aeronáutico que existe em Areia,  Cascais e, sem o intuito de aprofundar o assunto, já extensamente escalpelizado em diversas publicações, atrevo-me a dizer que este é possivelmente um dos locais mais importantes da história recente de Espanha, pois não fora o acidente aéreo ali ocorrido em 20 de Julho de 1936, não teria sido Francisco Franco a escrever a história da Espanha até aos nossos dias.

 

Quem passa por aqui, pouco ou nada diz este monumento, e um pouco à boa maneira portuguesa, o mais certo é injuriarem a mãe de quem o plantou no meio da rua(!), já que este está numa estrada um pouco estreita e onde todos têm de se desviar dele para passar. É possível que a rua esteja mal construída, mas este monumento já cá está há quase 50 anos e marca o local de um acidente aéreo ocorrido a 20 de Julho de 1936, onde perdeu a vida o General Sanjurjo. 



General José Sanjurjo Sacanell (1872-1936).


Fazendo fé nas muitas fontes consultadas temos de voltar atrás no tempo para, em muito poucas linhas, falar um pouco de quem era e o que fazia por Portugal, o General Sanjurjo. 
O General José Sanjurjo Sacanell, foi um oficial com carreira extensa, que se notabilizou no reinado de Afonso XIII de Espanha, que lhe conferiu o título de Marquês de Rife, pelo seu papel na guerra de Rife (1909). No seu percurso militar, desempenhou diversos cargos durante a monarquia, na Ditadura de Primo Rivera, e na Segunda República. Divergências com este último regime e a sua participação como protagonista no golpe de estado falhado de 1932 (La Sanjurjada), foi condenado à morte, conseguindo posteriormente ver a sua pena comutada para um exílio em Portugal.
Com um conjunto de outros generais também no exílio, arquitectam um novo golpe de estado, iniciado a 17 de Julho de 1936, golpe esse que antecede a Guerra Civil Espanhola, sendo neste contexto o Gen. Sanjurjo o líder incontestado de todas as facções políticas e por isso, naturalmente o seu líder. 
Foi adquirido um avião, para que em segredo o Gen. Sanjurjo seguisse do seu exílio no Estoril, até Burgos, onde iria comandar as forças revolucionárias. Mas com a sua morte neste acidente aéreo, e com o número dois do movimento, o Gen. Emilio Mola, que também vem a perecer num acidente aéreo, torna-se consequentemente o Gen. Francisco Franco o líder da revolução e mais tarde o novo “caudillo” de Espanha.




O aparelho, um De Havilland DH.80A Puss Moth, de registo EC-VAA, foi adquirido em Inglaterra alguns dias antes do voo, pelo jornal espanhol ABC, com objectivo de proceder ao transporte dos responsáveis máximos das forças revolucionárias para Espanha. 
O piloto, Juan António Ansaldo, descola de Croydon a 11 de Julho, escalando Bordéus, Biarritz, Porto e Lisboa, onde chega na manhã desse dia. A bordo vinha Luís António Bolin, responsável pelo jornal ABC em Londres, e que é encarregado de convidar Sanjurjo para encabeçar o movimento e disponibilizando o avião par ao levar a Burgos. 
Três dias depois o avião chega a Gando na Gran Canária, com escalas em Casablanca, e o Cabo Yubi no Sahara espanhol, com o objectivo de clandestinamente trazer Franco para Tetuán, para encabeçar as forças revoltosas aí baseadas, onde chega a 19 de Julho.
Ansaldo parte para Santa Cruz, em Torres Vedras, onde chega a 20 de Julho, de onde seguiu para Alverca, para ser reabastecido, seguindo depois para uma pista improvisada no “Campo das Marinhas”, em Cascais, para o voo para Burgos.

Sobre o acidente há várias opiniões, sendo que algumas não descuram de todo a hipótese de sabotagem. De todo o modo, o aparelho, descolou na tarde de dia 20 dessa pista improvisada no hipódromo que existia perto da Boca do Inferno, o tal “Campo das Marinhas”. 
Por ir demasiado carregado [1] o piloto não conseguiu que o avião alcançasse a velocidade e altitude necessárias, terá embatido na copa das árvores que ladeavam a pista [2], o piloto ainda tentou a aterragem mas, despenhou-se o aparelho logo de seguida num campo de cultivo onde terão batido contra um muro. Aquando do violento embate, o piloto foi projectado para fora do avião, ficando o Gen. Sanjurjo preso no interior do aparelho, vindo a perder a vida por força dos ferimentos causados no impacto.




Inaugurado em 20 de Julho de 1961 este memorial, erigido por um grupo de companheiros de armas do Gen. Sanjurjo e do movimento revolucionário, constitui-se num memorial que, não sendo monumental ou imponente (por certo por imposição do regime), chega a ser ridiculamente simples, ainda que com forte carga simbólica.



Coordenadas: 38°43'3.48"N     9°27'36.61"W



Rui “A-7” Ferreira
Entusiasta de aviação

Nota: o autor escreve na grafia antiga por opção.


Agradecimentos:
Paulo Bandeira; Fernando Moreira; e Sérgio Couto


Outras notas:

[1] – é referido em várias fontes que o Gen. Sanjurjo era um homem vaidoso, e que, para além do peso do piloto e do passageiro, mais o combustível, o Gen. levava uma quantidade exagerada de roupa (fardamento) e algumas armas. Quando confrontado pelo piloto pelo peso excessivo da sua bagagem este terá respondido que necessitava de usar roupa apropriada como o novo “caudillo” de Espanha.

[2] – algumas fontes, citando o piloto referem que um “forte torrão” ou uma cova provocaram danos no hélice e que teria sido essa a causa do acidente.


Fontes/referências:

Aerohispanoblog   http://www.aerohispanoblog.com/aviones-que-cambiaron-el-curso-de-la-guerra-civil-espanola-el-accidente-del-general-sanjurjo/

Aeropinakes: https://aeropinakes.com/wordpress/reader/aviones-y-telefonos-transporte-y-comunicaciones-para-un-golpe-de-estado/

António J. de Oliveira https://ajoliveira.com/ajoliveira/pt/history/sjurjo.php
Aterrem em Portugal / Carlos Guerreiro  http://aterrememportugal.blogspot.com/2016/04/estoril-relembra-morte-do-general.html 
Biografías y Vidas  https://www.biografiasyvidas.com/biografia/s/sanjurjo.htm
Confilegal   https://confilegal.com/20180818-sanjurjo-hombre-pudo-franco-fue-condenado-golpe-estado-fallido-1932/

El Mundo   http://www.elmundo.es/la-aventura-de-la-historia/2016/09/01/57c82394268e3ee3098b45c7.html
http://www.elmundo.es/espana/2018/07/02/5b3a4147268e3e65048b46e2.html

El Pais  https://elpais.com/politica/2017/04/21/actualidad/1492793529_804189.html 
FIDEUS REPUBLICANS  https://www.fideus.com/biografiesF%20-%20sanjurjo.htm
Historialia   http://www.historialia.com/detalle/395/general-sanjurjo-golpista-frustrado
Malomil   http://malomil.blogspot.com/2013/10/o-monumento-sanjurjo-em-cascais.html

Nubenluz https://www.nubeluz.es/franquismo/sanjurjo.html

RTP https://www.rtp.pt/noticias/mundo/historia-e-ficcao-do-fim-de-sanjurjo-o-ditador-espanhol-que-nao-chegou-a-se-lo_n851097
Vedrografias: http://vedrografias2.blogspot.com/2015/06/o-aviao-de-sanjurjo-em-santa-cruz-novas.html

Wikipédia  https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Sanjurjo

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