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| Republic F-47 Thunderbolt Foto:AHFA |
O avião que mais gozo me deu a fazer tiro de metralhadoras foi o F-47 Thunderbolt.
Talvez possa parecer estranha esta declaração, mas é facilmente justificada porque, por duas vezes fiz fogo simultâneo com as oito, repito oito metralhadoras, calibre 0.50''. O efeito conjunto de recuo das armas quase que dava a sensação do avião reduzir a velocidade. Era uma sensação de força ímpar. Normalmente no entanto, os voos de treino de tiro limitavam-se a duas metralhadoras, uma de cada asa.
Tínhamos dois tipos de tiro: ar-chão e ar-ar. O tiro ao solo era mais emocionante porque nos permitia ver as balas a atingir a área do alvo e os seus efeitos. Já o tiro ar-ar era feito contra uma manga de nylon, com as dimensões, segundo me recordo, de 10 x 3 metros. Esta manga era rebocada por avião, igual ao atacante. Tinha um cabo de mais de 100 metros que a ligava ao avião. Este trabalho de reboque era desagradável devido às baixas velocidades que era necessário manter para o cabo não partir.
Como as armas de bordo eram harmonizadas para a distância de disparo entre 1000 e 1200 pés, os pilotos tinham muito pouco tempo para disparar sem desperdiçar munições. Porque disparando de mais longe as balas caíam antes do objectivo, e mais perto acontecia o inverso. Claro que, com o treino, aprendíamos a fazer pequenas correções.
Quer no tiro ao solo, quer no tiro ar-ar, éramos obrigados a disparar pelo menos 100 balas. Normalmente, disparava-se um pouco mais, porque se disparássemos menos, contavam como se fossem 100. Era preciso não estragar o score com desperdícios.
Nos disparos contra alvos no solo estávamos sujeitos às condições atmosféricas, por exemplo, turbulência. Daí, todos preferirmos a primeira missão da manhã, aproveitando a calmaria. Para não haver problemas, era feita uma escala, evitando assim beneficiados.
Esquecia-me um pormenor: os painéis dos alvos terrestres tinham 10x10 pés, portanto imagine-se começar a disparar a 500 metros e 400 nós, para um alvo daquele tamanho. No tiro ar-ar o problema aumentava porque a entrada para o alvo era em curva, ligeiramente a descer e ter-se-ia de suspender o fogo ainda em curva para evitar atingir o avião rebocador.
Isso felizmente nunca sucedeu, mas várias vezes o cabo de reboque foi cortado pelas balas. Para o tiro ar-ar o F-86 era incomparavelmente melhor.
Quanto a foguetes e bombas, pouco haverá a dizer. Eram disparados ou largadas de mais longe e não podíamos ver o impacto devido à distância de largada e altitude mínima para recuperação.
Uf! Que cheiro a pólvora!
Os meus scores eram razoáveis, mas atendendo à experiência que possuía, não eram nada de mais. Em contrapartida, durante vários anos no F-84 e no F-86 fui o craque-mor no bombardeamento a picar. Os cuidados a ter eram vários mas, acima de tudo, era necessário não nos deixarmos fascinar pelo alvo. Era esse o principal perigo, tendo havido acidentes por essa causa.
Texto: Cap (Ref) Fernando Moutinho