sábado, 1 de dezembro de 2012

DESORIENTAÇÃO ESPACIAL NUM F-84G THUNDERJET (M780 - PM131/2012)


Rememorar a minha passagem pelos F-84G, vai ser, talvez, um pouco fastidioso mas foi um avião demasiado importante na minha formação e consolidação como piloto, daí estes maiores detalhes.
Por dever tenho de ser um pouco mais aprofundado.
O meu primeiro voo, no F-84, com o número 5128, realizou-se a 4 de Maio de 1954 com a duração de 1:05 h. 
Seguiram-se mais 5 voos para completar a série de 6 que constituíam a Adaptação.
A partir daí começa o treino mais a sério.
Devo esclarecer que, voei o F-84 em dois períodos:
1º: Na Ota, de 4 Maio de 1954 com o último voo a 26 Agosto de 1958;
2º: Em Angola de 26 de Outubro de 1966 quando me despedi para sempre fazendo, o último voo, em 28 de Janeiro de 1969, no F-84G 5130.
No total realizei 1.408:50 horas.
O F-84G era um avião muito fiável que conquistava a confiança dos seus pilotos.
Vivi situações de euforia e situações de aperto. Estas últimas não foram muitas mas, algumas delas, merecem referência.
Começamos hoje por uma das menos boas:

Desorientação espacial

Foi numa fase ainda incipiente no período de modernização da Força Aérea. Era ainda permitido efetuarem-se voos sem visibilidade ou voo noturno, voando só um único avião.
Era um voo noturno, que consistia em descolar (Ota), subir até 20.000 pés, ir até ao Porto, rodar para Vilar Formoso, daí para Coruche, fazer a descida neste radiofarol e de seguida prosseguir para completar o procedimento com GCA (Ground Control Aproach – Radar) na Base.
Todo o voo foi efetuado acima das nuvens daí, nada se ver do solo. Quando está o céu limpo, conseguem ver-se as luzes das povoações, mas não era o caso.
Após passar Vilar Formoso, aponto a Coruche. Passado algum tempo começo a tentar sintonizar a rádio bússola (era manual) para o radiofarol CR e recebo indicações firmes que me indicavam a rádio ajuda à esquerda da rota. Estranhei um pouco tal desvio, mas corrigi e segui a indicação. Passado algum tempo recebo indicação que estou à vertical do radiofarol. Inicio a descida e ao chegar aos 12.000 pés saio das nuvens e quando estava à espera de ver o clarão de Lisboa, estava tudo escuro. Como breu. Estava perdido. 
A descida tinha sido no local errado. Por momentos perdi a cabeça, resultado da pouca experiência. Subia, descia, voltava, sem referências terrestres, via os instrumentos do avião às voltas e eu num belo sarilho. 
Esta situação chama-se desorientação espacial – estamos a ver os instrumentos a dizerem uma coisa mas o nosso corpo a sentir outra. É necessário um grande esforço para acreditar e obedecer aos instrumentos. Então, lembrando-me do que tinha aprendido, cerrei os dentes e com grande esforço consegui colocar o avião a voar a direito. Onde estava? Mais ou menos, atendendo ao momento da “parvoíce e inexperiência”, algures a oeste de Portalegre. Resolvo apontar para Oeste e prosseguir até apanhar algo conhecido – há povoações na costa. Cerca de 15 minutos depois começo a vislumbrar uma luminosidade a aumentar à minha frente. Era Lisboa. Ainda estava longe mas no bom caminho. Aterrei bem.
O que se passou comigo?
O que se passou foi que, ao tentar sintonizar o radiofarol de Coruche este, ainda estava demasiado longe, mas apanhei umas “harmónicas” de outro radiofarol que me induziram em erro. Nessa época os equipamentos não eram tão precisos com os de hoje.
Passado algum tempo, tal como faziam as outras forças aéreas, por razões de segurança, voos, só em parelha.
Para complementar - este fenómeno nunca desaparece mesmo com muita experiência. Somente conseguimos sobrepor-nos ao que sentimos.
Certa vez , quatro aviões saídos da Ota dirigiam-se para França.
Após descolarmos, entramos em nuvens e só saímos delas já sobre território francês. Enquanto voámos dentro de nuvens, fui sempre com desorientação espacial – sempre com a sensação que estava empinado e inclinado para a direita. Por muito que olhasse para os instrumentos e lesse tudo direito, a sensação continuava. Para descontrair, “brincava” comigo mesmo mas, nada. Quando saímos das nuvens foi um alívio. Estava cansado porque tinha voado todo contraído durante mais de 30 minutos. 
O resto sem história.


Texto: Cap. (Ref.) Fernando Moutinho  

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