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domingo, 6 de abril de 2025

FICÇÃO - "ÉPOCA DE CAÇA" (Parte II) [M2602 - 26/2025 ]

SU-33 - Imagem via Wikimedia Commons

Nota prévia: Este conto é obra de ficção e foi escrito em 2013. Qualquer semelhança com factos, pessoas ou situações é mera coincidência.

Ler  Parte I 

Algures sobre o Ártico (continuação)

Cavaleiros dos tempos modernos, os pilotos de caça controlavam equipamento de grande poder destrutivo. Tal facto fazia do seu treino um processo longo e penoso, de onde apenas os melhores emergiam para a vida operacional. No entanto continuavam a ser tão humanos como os civis que haviam jurado defender. E o ser humano é um animal sinistro.  
Subitamente um dos Su-33 saiu da formação, curvando para a direita, descrevendo um arco que o fez dar meia volta, passando a mil metros da asa do Gripen de Paulo. Ativara o seu radar em modo militar, varrendo ambos os caças da OTAN, procurando ângulos de ataque. Provavelmente estaria só a testar a paciência dos portugueses, a ver se cediam. 
E provavelmente Paulo não estaria num dos seus dias. Em vez de manter a cabeça fria, como seria o seu dever, empurrou instintivamente o manípulo de controlo da velocidade para diante, puxado por algum instinto ancestral. Acelerou furiosamente enquanto torcia o nariz da aeronave para a direita, descrevendo uma curva violenta que quase colocou o Gripen de cabeça para baixo. Passou a uma distância nada razoável da barriga do caça russo. 
Quando a dor no peito suavizou, e a visão se afastou do estreito túnel a que os nove Gs de carga de gravidade a haviam sujeitado, o jovem piloto procurou o seu adversário contra o céu que clareava rapidamente. Viu o Su-33 a curvar para cima, num arco suave, o piloto russo provavelmente a tentar perceber o que se passara. O radar continuava em modo militar e avisos sonoros ecoavam dentro do capacete de Paulo. Colocou também o seu radar em modo de combate, iluminando o Flanker com o poder de baixa frequência do potente sensor. 
O adversário reagiu curvando para a sua direita, apontando o nariz para o mar, numa descida veloz dos céus ainda salpicados de cintilantes estrelas. Para Paulo não havia dúvidas, o russo queria um combate. E um combate teria. 
As aeronaves ainda seguiam a velocidades relativamente baixas, pelo que o russo decidiu usar as capacidades de manobra impressionantes do seu caça nesse tipo de confrontos. 
Ato contínuo, o Su-33 deixou a asa esquerda pender para baixo e, já a voar de lado, curvou violentamente para trás, desaparecendo do lado esquerdo do Gripen que entretanto descera atrás de si. Incapaz de acreditar nas forças de gravidade a que aquele russo se sujeitara Paulo obrigou-se a agir, ou o bandido ficaria em posição de disparar. Curvou para a direita, inclinando o avião de modo a fazer um arco apertado, numa manobra bem mais suave do que a efetuada pelo seu adversário. Apanhou-o a curvar na sua direção. 
Algo primordial ainda se movia dentro dele, algo tão antigo como o Homem e que sabia ser uma parte integral do seu ser. Era como se fosse um cão de caça a quem o dono soltara a trela, besta arcana aos comandos de uma máquina avançada. Não fora treinado durante tantos anos para acabar os seus dias atrás de uma secretária. Iria mostrar o tipo de homem que realmente era.
Um caçador!
Ignorando as ordens cuspidas por Pires, Paulo lançou-se na direção do Su-33. O russo apercebeu-se da manobra e estabilizou a aeronave, sem, no entanto, deixar de voar de lado. Os dois caças cruzaram-se a quinhentos quilómetros por hora, o rugido dos motores de jacto no seu encalço. Paulo conseguiu prever o que ia suceder a seguir. Não queria entrar num confronto de agilidade com o russo. Embora ambos os aviões estivessem mais ou menos ao mesmo nível o risco era demasiado elevado. E ainda não conseguira perceber o quão bom era aquele adversário ao certo.
 
Gripen - Imagem via Wikimedia Commons

O Gripen estava equipado com dois mísseis de busca térmica AIM-9L, armas mais antigas do que a própria aeronave e de capacidades limitadas. Mas isso era um facto que não o preocupava muito. Queria mesmo era encontrar um ângulo para usar o canhão de 27 milímetros montado sob o nariz. Isso sim seria algo digno de nota!
Puxou a manche de controlo para si e fez o nariz do Gripen subir, lançando o caça na direção das estrelas. Manteve-o assim por uns instantes e depois cortou alguma potência ao motor. O caça caiu para trás, como se fizesse um salto mortal. O nariz pendeu para baixo e agora Paulo caía a pique, de cabeça para baixo. 
Endireitou o avião e procurou o russo. Ele também já endireitara a sua aeronave e voava numa direção perpendicular à sua. Paulo deixou-o passar diante do seu nariz e depois curvou para esquerda. 
Voando agora na direção do Sol nascente Paulo avaliou a sua situação. O Su-33 estava um pouco mais abaixo da sua posição e perfeitamente à sua frente. 
Tinha-o na mira! 
E então lembrou-se de que tinha as armas ativadas. O homem a bordo daquele caça devia estar a suar em bica agora! O indicador de Paulo dançou descuidadamente diante do gatilho. 
Seria tão fácil… 
- Rocha! O que pensa que está a fazer? – A voz de Pires conseguiu finalmente alcançar a consciência de Paulo.
- Estava só a gozar, capitão. 
Subitamente consciente da realidade da situação Paulo deixou a adrenalina escoar-se e levou uma mão ao painel de instrumentos para desligar as armas. Depois afastou-se, deixando o caça russo seguir a sua trajetória. Procurou o outro Gripen, uma forma cinzenta contra o céu cada vez mais claro. Em poucos instantes a sua aeronave estava na sua devida posição atrás do avião do capitão. Entretanto os russos reuniram-se e voaram para longe. 
- Aqueles já não voltam tão depressa! – Paulo sabia que estava acabado, que ia enfrentar a justiça pelo que fizera, mas não conseguia afastar a exaltação do momento. 
- Qual foi a tua ideia? Estás interessado em começar uma guerra ou assim? 
- Não, meu capitão.
- És burro, então? Que raio te passou pela cabeça? 
- Só… Só quero mostrar do que sou capaz. 
- Depois disto quero ver é se vais alguma vez voltar a pilotar um caça da República Portuguesa! Mal cheguemos à base voltas para casa! 
Obviamente que Paulo se sentia desgostoso. Fizera asneira, e fora bem grave. Mas, por uma vez, sentira o verdadeiro combate. E descobrira que, para ele, uma vez não chegaria… 
Fim

Ligação à página do autor, para mais trabalhos, aqui.

Texto: ©Francisco Duarte
Edição: Pássaro de Ferro

sábado, 5 de abril de 2025

FICÇÃO - "ÉPOCA DE CAÇA" (Parte I) [M2601 - 25/2025 ]


Nota prévia: Este conto é obra de ficção e foi escrito em 2013. Qualquer semelhança com factos, pessoas ou situações é mera coincidência.


Algures sobre o Ártico

- Temos dois bandidos, direção 1-1-7. Confirme Açor Um.
- Açor Um confirma. Comando confirma vetor de interceção?
- Confirmado. Não tome medidas hostis, apenas os faça dar meia-volta. 
- Deve ser fácil, Comando. Açor Um terminado. 
O Tenente Paulo “Wanderer” Rocha observou o caça diante de si durante a curta troca de palavras. Ele era o Açor Dois naquela missão pelo que era o Capitão Diogo “Spark” Pires quem dava as ordens, ele próprio sendo instruído pelo controlo de missão em Helsínquia. 
Não que a cadeia de comando incomodasse Paulo de algum modo, ao contrário do que sucedia com o facto de estar ali a voar com aquele capitão, uma nódoa da Força Aérea Portuguesa na sua opinião. Ordens eram ordens e o planeamento de missão assim o determinava, mas não era obrigado a gostar da situação. Foi com descontentamento que ouviu a voz de Pires a dirigir-se-lhe no canal de comunicação. 
- Rocha, segue na minha cauda e não me largues. Nada de números de circo desta vez. 
- Nada de acrobacias, certo. 
- Falo a sério, tenente! 
- Certo, capitão. Açor Dois confirma. 
- Entendido. Mete a pós-combustão e vamos ver quem veio brincar hoje. 
Paulo viu a chama vermelha na cauda do avião diante de si, sinal da injeção direta de combustível na tubeira de escape do motor de jacto. Pires ativara a pós-combustão e ia entrar em velocidade supersónica. Sem perder tempo Paulo imitou o capitão. Os dois caças aceleraram sob o céu escuro e estrelado do Ártico. 
Não difícil adivinhar quem teriam pela frente. Russos, certamente, fazendo mais algum voo sobre o espaço aéreo da OTAN, esperando aborrecer alguém em Bruxelas. Desde que a Rússia havia vindo a fortificar o seu poderio militar e influência política ao longo dos últimos vinte anos que aquelas intercepções se tornavam cada vez mais comuns. Pelo menos, Paulo tinha a certeza de que iriam conseguir lidar com o que quer que encontrassem. 
As elegantes formas em delta que ambos os pilotos portugueses faziam deslizar nos ares eram Saab JAS-39E Gripen, caças ligeiros de fabrico sueco, dos melhores do mundo. A Força Aérea Portuguesa conseguia pôr as mãos em quatro daqueles pássaros de metal através dos acordos que Lisboa tinha com a empresa Embraer do Brasil, que colaborava com a Saab no seu fabrico. Desejoso de os testar o governo português colocara-os numa das missões da OTAN para patrulha do espaço aéreo islandês, vitais uma vez que a Islândia não possuía força aérea própria. 
Sabendo que tinha um caça poderoso nas suas mãos, bastante superior ao F-16AM que pilotara durante a maior parte da sua carreira, Paulo sentia-se confiante. Contudo algo o incomodava por dentro. Algo que o levara a alistar-se na Força Aérea e que o movera durante a desilusão que fora a maior parte da sua vida militar. Algo que veio ao de cima assim que ele e o capitão viram os dois caças russos, silhuetas negras contra o nascer do Sol. 
- Estou a ver os bandidos, Comando. – Sinalizou Pires – Creio que são dois Flanker-D. Vou-me aproximar para confirmar. 
- Afirmativo Açor Um. Prossiga com cautela. 
Pires falou então diretamente para Paulo. 
- Estão-nos a varrer com os radares. Fica alerta. 
- Já reparei. – Como podia ele ignorar os avisos sonoros que despontavam pelos auscultadores e as miríades de luzes de alerta que iluminavam o painel de comando? Felizmente que os russos só deviam estar ali para incomodar, senão já os teriam riscado do céu há muito. Claro que não eram apenas os russos quem fazia ameaças silenciosas ali uma vez que também os portugueses os varriam com os seus próprios radares. 
Os dois Gripen enfeitados com a cruz de Cristo descreveram um arco, primeiro para sul e depois para leste, de modo a intercetarem os caças russos. Eles não mudaram de rota, permitindo que os portugueses se aproximassem por trás e por cima. Olhando para lá da sua ampla carlinga transparente Paulo observou bem os bandidos. Estavam a cerca de mil metros de distância, duzentos metros abaixo dos Gripen. 
Eram grandes para caças, cada um deles com duas enormes empenagens verticais ornamentadas com estrelas vermelhas, ladeando dois poderosos motores a jacto. Tinham asas largas, de flecha acentuada, e suaves linhas aerodinâmicas. As aletas dos lados do nariz e as carlingas curtas não davam espaço para dúvidas. Eram dois Sukhoi Su-33 Flanker-D, caças navais russos de longo alcance. 
Os dois pares de caças mantiveram as suas posições, aceitando calmamente a presença uns dos outros. 
- Vou entrar em contacto com eles. Mantém a tua posição, Rocha. 
- Afirmativo. – Paulo inspirou fundo. A cada instante que passava a sua vontade tornava-se cada vez mais forte. Pensou se não seria daquela vez que cumpriria o seu sonho de finalmente vencer num verdadeiro duelo sobre os céus, homem contra homem em velozes máquinas de guerra. Por isso se tornara piloto de combate. Mais uma vez a sua oportunidade seria roubada pelas burocracias da realidade. Ele sabia que os russos queriam testar os aviadores ocidentais, ver o quão nervosos eram realmente. Mas ainda assim... 
- Daqui Açor Um comunicando com caças não-identificados, por favor respondam. – Não houve nenhuma resposta, falada ou visual, por parte dos bandidos, que simplesmente seguiam em frente. Provavelmente também não teriam grande simpatia pelo Pires. – Rocha. Vou colocar-me ao lado deles. Mantém a tua posição.
O Gripen deslizou suavemente sobre o impulso do seu poderoso motor a jacto, colocando-se a par com o caça que liderava a formação russa. Da sua posição privilegiada, Paulo conseguia observar o quão pequeno e frágil o caça sueco parecia junto da enorme máquina russa. Pires voltou a tentar.
- Daqui Açor Um comunicando com caças não-identificados, desçam os trens de aterragem se me conseguem ouvir. – O pedido era tão visualmente óbvio como útil, uma vez que descer o trem de aterragem normalmente desligava os sistemas de armas das aeronaves. Obedecer demonstraria que os russos não tinham intenções hostis. Pires repetiu o pedido. A falta de resposta dos bandidos estava a deixá-lo nervoso. Paulo apertou com mais força o comando da velocidade. Numa ocasião semelhante, uma semana antes, havia descido sobre os caças russos para os espevitar, o que lhe valera uma reprimenda. Mas não podia voltar a fazer asneiras. Não hoje… 

(Continua)


Texto: ©Francisco Duarte
Edição: Pássaro de Ferro

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