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sábado, 7 de setembro de 2019

Notas sobre o Alouette III no…Irish Air Corps [M2060 - 47/2019]


Retomando um tema a que tinha prometido voltar há já bastante tempo, trago hoje aos leitores do Pássaro de Ferro algumas notas sobre a história do Alouette III no Irish Air Corp.

As décadas de 50 e 60 do século passado serão, talvez, o período da história em que poderemos considerar como o do advento do helicóptero, nomeadamente também pela sua utilização mais massificada, em teatros de guerra, mas também em missões civis.
Na República da Irlanda, a ocorrência de um Inverno mais rigoroso, entre 1962 e 1963, levou as autoridades a considerar a necessidade da utilização de helicópteros no Irish Air Corps (IAC), de forma continuada, como meio de auxílio permanente, no apoio a situações de emergência, catástrofes naturais, e no auxílio a populações isoladas nas ilhas.
Assim, recebeu a partir de 1963 o IAC, dois de um total de oito Alouette III, para missões de busca e salvamento, sendo as suas missões estendidas a diversas outras valências, como o transporte de tropas, reconhecimento, evacuações médicas de emergência, apoio à população residente nas ilhas, missões de cooperação com a polícia, e patrulhamento fronteiriço. 
Os aparelhos foram recebidos entre 1963 e 1974, e integrados no 301 Search and Rescue Squadron, criado em 1962, baseado em Baldonnel, sendo que com a sua introdução ao serviço, no espaço de um ano foi estabelecido um serviço diurno de Busca e Salvamento, e no ano seguinte um serviço de evacuações médicas entre hospitais. 

Durante 44 anos de operação, até 21 de Setembro de 2007, foram distinguidas as tripulações dos Alouette III com diversas medalhas de serviço, nomeadamente todos aqueles que arriscaram a sua vida em prol de outros, dando corpo àquilo que é mais que um motto, é uma forma de estar, muito conhecida também entre nós, afinal, o lema é o mesmo: "Para que outros vivam". Números finais da utilização dos Alouette III no IAC falam de 77.000 horas de voo, 1.717 missões de busca e salvamento, 2.882 missões de aeromédicas, e 542 vidas salvas.


Aqui fotografado em Baldonnel em 1980, o Alouette III nr.195 foi o primeiro 
aparelho da frota e também um dos que ficaram até ao final, o seu último voo 
foi a 21 de Setembro de 2007.

Actualmente a operar os Eurocopter EC135, e os Agusta Westland AW139, o IAC não tem mais a seu cargo a missão da busca e salvamento, já que no início deste século, esta missão passou para a Irish Coast Guard, com os seus Sikorsky S-91N, sendo que actualmente este serviço é prestado por um outsourcer, a CHC.


A frota quase completa, seis de oito aparelhos, a 21 de Setembro de 2007, 
quando foram retirados de serviço.




Nota do autor - aproveito para incluir aqui o texto original (em itálico), que escrevi nos idos de 2002, numa altura que o Alouette III ainda estava no activo. Tentei mantê-lo o mais original possível.

Irlanda
Um número alarmante de tragédias ocorridas a partir dos finais dos anos 50, inicio dos anos 60, levaram à decisão da constituição de um Serviço de Helicópteros de Salvamento, para dar resposta às necessidades de salvamento no mar, em que o helicóptero representava um meio mais eficaz do que o existente serviço de salva-vidas, e também em terra, em situações de semelhante necessidade.
Os requisitos operacionais iniciais pediam um helicóptero com uma tripulação de três, mais dois passageiros, equipado com guincho, com boa velocidade, e com alcance suficiente para operar a partir de Baldonnel, para cobertura das costas oeste e sudoeste. As hipóteses encontradas resumiram-se em pouco tempo a dois aparelhos, equipados com turbina, o Westland Whirlwind e o Sud Aviation Alouette III. Foi recomendada a aquisição do Alouette pelo Irish Air Corps, sendo o contrato para aquisição de três aparelhos assinado a 25 de Maio de 1963.
O treino das tripulações e pessoal de terra foi efectuado com aparelhos Alouette II, sendo a conversão ao Alouette III efectuada nas instalações do fabricante, em Marignane, França.
Os dois primeiros aparelhos chegaram a voar directamente de França, numa distância percorrida em dois dias, entre 24 e 26 de Novembro de 1963. Os restantes 6 dos 8 helicópteros iniciais do Helicopter Flight (HF) chegaram entre 1964 e 1974. Desde 1963 que a busca e salvamento (SAR) foi a missão primária do HF, no entanto, a versatilidade demonstrada pelo Alouette III veio cedo ao de cima, muitas outras missões foram surgindo, em especial, a segunda mais importante, a missão de evacuação médica, localmente conhecida por ambulância aérea.
Os helicópteros operam a partir da base de Baldonnel, para todo o país, e usam como apoio outras unidades do exército e aeródromos para reabastecimento. 


Uma das fotos emblemáticas do Alouette III na missão de Ambulância Aérea, 
missão em que ao longo dos anos foi sendo melhorada, tendo sido introduzidos 
equipamentos de suporte de vida, tão importantes neste tipo de missão.

Nos últimos anos de operação o HF tinha como missões: cooperação com o Exército, busca e salvamento, transporte médico de emergência, cooperação com a polícia (Garda), transporte de VIP’s, evacuações/apoio inter-ilhas, evacuações/ apoio nas montanhas, fotografia aérea, vigilância/estudo da vida selvagem, demonstrações de voo,  formação de pilotos, controle de poluição, a lista é interminável...
O Alouette III teve sempre uma relação muito próxima com as forças de segurança, sendo utilizados em variadas missões do Exército e da Guarda sempre que necessário. O leque de missões ao serviço incluíam o helitransporte de equipas de desactivação de explosivos, busca de armas, busca de prisioneiros evadidos, transporte e colocação de tropas, apoio a operações do corpo de Rangers do Exército, perseguição a veículos suspeitos, etc. Os problemas de segurança na Irlanda do Norte, por exemplo, resultaram no destacamento permanente de alguns Alouette III’s para a fronteira em 1973 e 1979.
 “Para que outros vivam”, um mote que também para nós é muito querido, é naturalmente o mote da maior parte das esquadras de SAR por todo o mundo, é também obviamente o destes rapazes irlandeses. Durante 30 anos (1963-1993), os Alouette III executaram mais de 1400 missões SAR, salvando mais de 400 vidas. A primeira foi ainda a 23 de Dezembro de 1963, tinha o Alouette III chegado há menos de um mês!
Até 1987 apenas o Alouette III executava missões de SAR em toda a Irlanda, a partir daí, com a introdução do Dauphin, a área de cobertura foi reduzida, e até repartida entre ambos.
A Irlanda tem equipes especializadas de busca e salvamento nas montanhas, o Irish Mountain Rescue Association (IMRA), que desde a operação de helicópteros pelo IAC habitualmente tem contado com este meio. Outra associação que também trabalha numa relação muito estreita com o HF, é a Search and Rescue Dogs Association (SARDA), uma associação que treina e executa missões de busca e salvamento com cães, que tem a particularidade de treinar os cães desde muito novos a habituarem-se a estarem à vontade com os helicópteros, por isso é normal vê-los na base de Baldonnel, na placa, treinando dentro e fora dos helicópteros, com o motor a trabalhar e as pás a rodarem.
A evacuação de doentes totalizava de 1963 a 1993, 2300 missões, sendo a missão “ambulância aérea” no HF de dois tipos: “Espinal” (transporte/evacuação com equipe médica especializada de doentes/feridos com lesões na coluna vertebral) e GP (general purpose – todos os outros tipos). Neste último caso, GP, vai desde o transporte para hospital de vítimas de acidentes de viação, queimados, bebés prematuros em incubadoras, transporte de órgãos para transplante, passando também habituais partos a bordo!

 No lago Glendalough, durante um treino.

Missões das mais difíceis e perigosas até às mais ridículas e hilariantes, a vida operacional dos Alouette III do IAC espelha bem a vasta panóplia de “sarilhos” em que os Alouette se vêem metidos, aqui como um pouco por todo o mundo. No Helicopter Flight diz-se que o Alouette III está tão à vontade em missões de SAR à frota de pesca próxima, como está em missões SAR nas montanhas.
Em diversas ocasiões foi a linha condutora entre as populações isoladas nas ilhas ou nas montanhas, transportando bens essenciais como a comida e medicamentos. Num nevão em particular, os Alouette e Puma do HF executaram num período de 10 dias, 148 missões, em que salvaram 98 pessoas (se não contarmos um largo número de carneiros e vacas!).

Ao longo dos anos iniciais foram também requisitados para o transporte de altas individualidades, membros do governo e das forças armadas, membros do clero, normalmente altura em que as tripulações, ao contrário do que é habitual, gastam fortunas em cortes de cabelo e graxa para os sapatos...

A especificidade e flexibilidade dos helicópteros leva a que a formação de pilotos, em terra e no ar, seja exigente e intensiva e também, reflexo das variadas missões que são capazes de executar. Os primeiros pilotos foram formados pelos pilotos de teste e desenvolvimento do fabricante, com o decorrer do tempo, foi-se estabelecendo um conjunto de relações com outras forças aéreas utilizadoras do Alouette III, dessa forma trocando informação e experiências que permitiram ao IAC desenvolver o curriculum e método de treino autónomo, em especial para as missões SAR.
A partir de 1980 o treino de pilotagem passou a contar com outra aeronave, o SA342L Gazelle, que valorizou em muito a qualidade dos pilotos que do Gazelle transitam para o Dauphin, que desempenha a missão SAR 24 sobre 24 horas.
Actualmente a formação básica inclui um tirocínio onde é ministrado um conjunto de missões, desde a adaptação ao Alouette III, a toda a tipologia de missões básicas executadas pelo HF, sendo depois os pilotos encaminhados para o Dauphin. Como é natural, os helicópteros tem um esforço acrescido, não só pelo normal desenrolar das diversas missões operacionais em que vêem envolvidos, como tem ainda de aturar todas as formas de abuso que se possam imaginar dos pilotos em instrução, prova disso, uma interminável colecção de rotores de cauda danificados durante as fases de auto-rotação de cada curso de qualificação.

Em meados dos anos 80, um Alouette III integrando um exercício com o exército.

Com uma média de 8000 horas de voo por ano (1993), a  manutenção dos Alouette irlandeses tem sido feita desde o início pelos técnicos do próprio IAC, excepto as Grand Visite (em França). Inicialmente formados pela Aérospatiale, todos os técnicos a partir de então foram formados internamente. Sendo, na opinião de todos, o Alouette a melhor escolha que alguma vez poderiam ter feito, pela sua fiabilidade, certo é, que como em qualquer outro equipamento, as peças móveis dão algumas dores de cabeça, pois quando resolvem dar problemas nem sempre é nos locais mais convenientes, nem nas alturas do ano mais agradáveis. Como se não bastassem as avarias ocasionadas pelos pilotos alunos, os condutores de ambulâncias, ansiosos por levar até ao helicóptero os doentes que transportam, deram cabo de umas quantas pás...

Os Alouette III do Irish Air Corps, em trinta anos mantiveram um recorde impecável no que diz respeito à segurança de voo, com apenas dois acidentes, em ambos os casos as aeronaves foram reparadas e continuam no activo até aos dias de hoje. Justificando esta proficiência está o elevado nível de profissionalismo dos seus pilotos e técnicos, baseados também numa formidável relação entre eles.

Pouco ou nada se sabe da operação de Alouette III por empresas civis na Irlanda. Ao que foi possível apurar, a empresa Irish Helicopters Ltd. operou entre 1970 e 1974 dois aparelhos.


  Emissão especial do cartão telefónico “Callcard”, alusivo 
aos 30 anos da operação do Alouette III pelo IAC.

  Patch dos 44 anos de operação do Alouette III pelo Irish Air Corps.

Por do sol sobre o Alouette III...



Rui “A-7” Ferreira
Entusiasta de Aviação

Nota – O autor não escreve segundo o actual acordo ortográfico.


Agradecimentos: Phillip Camp.



Baldonnel 1980




RAF Cottesmore IAT 2001





sábado, 31 de agosto de 2019

Apontamento Dublinense ... [M2056 - 43/2019]


Na oportunidade de visitar uma das cidades na minha “bucket list”, e não sendo o motivo aeronáutico aquele da visita, desloquei-me a Dublin para uma visita de alguns dias, durante o pretérito mês de Maio.
De entre os muitos locais que visitei na cidade, um deles foi o National Museum of Ireland - Decorative Arts & History, que está instalado no Collins Barracks, e de muitas das secções que visitei, despertou a minha atenção, por razões óbvias, a secção denominada de Soldiers and Chiefs.
Nela é possível percorrer a história militar do país, e lá nos é dada a conhecer a participação do país nos diferentes conflitos, internos e externos, e onde é sobretudo enaltecida a valentia, a coragem e o espírito de dedicação à missão do militar irlandês ao longo dos séculos. Naturalmente, chamaram-me mais à atenção todos os aspectos relacionados com a aviação militar, dos quais vos deixo aqui umas poucas notas, com destaque inicial para duas aeronaves que integram a exposição, cedidas pelo Air Corps Museum, que tem sede em Baldonnel.

Miles M.14A Magister I nº34 
(c/n 1928, exRAF N5392)

Este aparelho, semelhante aos que equiparam a nossa Arma de Aeronáutica, serviu no Irish Air Corps (IAC) entre 1939 e 1952 na missão de instrução de pilotagem. Este aparelho em particular, depois de retirado de serviço, ainda viu a sua vida operacional prolongada já que foi utilizado para instrucção no solo até 1968. Está aqui em exposição aqui desde 1996.



  DeHavilland DH.115 Vampire T.55 nº 198 
(ex RAF XE977)

Herança do inicio da era dos jactos no IAC, foram operados entre 1956 e 1976 um total de seis aparelhos (três recebidos em 1956 e mais três a partir de 1960). Operados pelo Fighter Squadron, baseado em Baldonnel em missões de caça, foram substituídos pelo Fouga Magister, recebidos a partir de 1975. Os aparelhos recebidos eram ex-RAF do modelo T.11.


Motor de uma B-17 Fortaleza Voadora que se despenhou nas montanhas perto de Sligo.

Integra também a exposição, uma relíquia da 2ªGG, um motor de uma Fortaleza Voadora, que se despenhou nas montanhas perto de Sligo, a 9 de Dezembro de 1943. O aparelho em questão, fazia um voo de entrega para o Reino Unido, e ter-se há perdido devido ao nevoeiro, despenhando-se. Numa esforçada missão de salvamento, foi possível resgatar sete dos seus dez tripulantes, transportados desde as montanhas e recebendo todos eles tratamento médico antes de serem transferidos para a Irlanda do Norte.

Muito antes de chegar aos aviões em tamanho real, desta secção dedicada aos Soldados e Chefes, encontramos uma referência a um dos heróis da Grande Guerra, Gottfried von Banfield.


Do conjunto destaca-se, para além de uma foto autografada, uma maquete do Löhner de Gottfried von Banfield, bem como um velocímetro original do avião, e ainda, a Cruz Militar de Maria Teresa, a mais alta condecoração austríaca à época, e também a última concedida.
Conhecido nos meandros dos historiadores dos Wild Geese como “The Eagle of Trieste”, foi o piloto austríaco mais condecorado na 1ªGG, abatendo um total de 20 aparelhos inimigos, embora apenas 9 confirmados.
O que leva a estar mencionado este herói aqui quando não era de nacionalidade irlandesa e referindo o heroísmo de actos e feitos que tiveram lugar tão longe daqui? Bom, não sendo desde o berço, ao que parece era-o de sangue, já que descendia dos irlandeses católicos que procuraram refúgio na Áustria nos idos de 1800’s e isso faz dele um bravo irlandês como outro qualquer!


Na imagem, no canto inferior direito, restos de uma bomba que 
ia provocando uma grande calamidade!

É impensável ir a Dublin e não ir à fonte de onde brota a melhor cerveja do mundo (!), e foi precisamente na visita à Guinness Storehouse que encontrei um outro artefacto aeronáutico, sob a forma dos planos de cauda de uma bomba alemã de 550lb, com que na madrugada de 15 de Julho de 1941 um bombardeiro alemão bombardeou um dos navios da frota da Guinness, o S.S. Carrowdore, a 15 milhas de Dublin.
Por sorte, o ataque foi efectuado a baixa altitude e a bomba vinha numa trajectória quase horizontal pelo que atingiu a proa fazendo ricochete, caindo no mar onde acabou por explodir. A cauda da bomba ficou presa na estrutura do navio (o corpo da bomba é uma recriação).

Termino com um cartaz de motivo aeronáutico, já conhecido de todos por certo, mas ao qual acho uma certa graça.

 Agora vou ali beber um pint e já volto…


Rui “A-7” Ferreira
Entusiasta de Aviação

Nota – O autor não escreve segundo o actual acordo ortográfico.

P.S. - Isto fez-me recordar um dos projectos que tenho por aqui engavetados, nomeadamente da utilização do Alouette III na Irlanda, pelo que nos próximos dias irei trazer à mole Pássaro-Ferrosiana, um escrito antigo, ilustrado com algumas imagens e revisto, sobre os Alouette III do Irish Air Corps.

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