sábado, 12 de abril de 2014

CHUCK YEAGER: DIÁRIO DE UM ABATE NA II GUERRA MUNDIAL -2 (M1526 - 120PM/2014)

Encenação de Messerschmidt Me-109 abatido - Imperial War Museum Duxford

6 de março de 1944 - Atrás das linhas do inimigo

Pela manhã ouço batidas rítmicas. Rastejo para o exterior para poder ver - é um lenhador a cortar madeira. Tinham-nos dito, caso fossemos abatidos atrás das linhas do inimigo, para nos aproximarmos de pessoas modestas - eram mais prováveis de nos ajudar. Este parece assentar como uma luva. Jogamos a charadas - ele não fala inglês, eu não falo francês. Diz-me para esperar onde estou - ele regressaria.

Movo-me 50 metros, reposiciono-me, protegendo-me do local onde nos encontrámos, mas simultaneamente com uma boa visão do sítio. Ele regressa com dois homens, sussurrando "americano, onde estás?". Eu respondo a sussurrar também. Estão desarmados e não são ameaçadores, pelo que me apresento. Levam-me a uma senhora russa que fala inglês. Ela gere um hotel spa. A sua filha de 14 anos está lá também.

As suas primeiras palavras foram "já se acabaram os homens todos na América e têm que mandar rapazes?"
Eu: Tenho 21 anos - é mais ou menos a idade certa.
Ela resmunga e tenta de novo:
-É casado?
Eu: Não
- Mas está a usar uma aliança! - diz apontando para a minha mão direita.
Olho e explico: "É a minha aliança de liceu"
-Mas é o dedo da aliança de casamento.
Ao que respondi: "na América usamos a aliança na mão esquerda".

Acho que passei - não sou tomado por um alemão a tentar infiltrar-se nos Maquis (NR: Grupos da resistência francesa que se escondiam nas regiões montanhosas). Dão-me roupas civis e escondem-me no celeiro. 
Chegam alguns alemães e começam a procurar. Consigo ouvi-los no exterior. Entram e começam a picar na palha. Estou tão longe deles quanto me é possível. Desejando apenas que não dêem por mim. Fico grato pela falta de comida e por estar magro - podem gozar o que quiserem comigo por causa disso - talvez eu caiba entre dois dentes da forquilha e serei eu o último a rir. O tempo abranda - parece que dura eternidades.

Depois dos alemães saírem, posso respirar outra vez. Os franceses dizem-me para descansar - nessa noite vão levar-me para outro abrigo. Ótimo. Este era perigoso. Mas já cá estiveram e provavelmente não vão voltar.

6 de março de 1944 - Noite

Movemo-nos de bicicleta: vamos até Castaljaloux onde me colocam nas traseiras de uma casa pelo resto da noite  e o dia seguinte. É mesmo no centro da cidade. Os vizinhos ficam próximos. 
Os alemães ainda andam à minha procura, mas já estiveram nesta casa. Esperemos que não voltem. Não sei por quanto tempo vou ficar aqui. 

7 de março de 1944

Escondo-me durante o dia na cave da casa em Castaljaloux. É preciso ir até às traseiras da casa para poder entrar aqui. Não me sinto tranquilo, mesmo no meio da cidade. Há rumores de que vizinhos denunciam outros vizinhos nesta cidade. Imagino o que fariam se soubessem que há um piloto Aliado escondido na vizinhança.

À noite, dois homens levam-me para uma quinta na estrada para Houilles, onde passo uma semana com um jovem casal e o seu pequeno filho de seis anos, Jean. Fica consideravelmente longe. A casa está atrás de algumas árvores altas e arredada ada estrada principal. 
Durmo de novo no celeiro. Sinto-me menos inquieto - estou nos bosques, onde há muitos sítios para me fugir e esconder-me.

8 de março de 1944

Joguei futebol com o pequeno Jean. Depois ele levou-me até um pequeno lago para pescar. Estou alerta. Os alemães continuam de ronda à minha procura. Soube que os alemães que me abateram aterraram num campo de aviação a poucas milhas de distância. O paraquedas do alemão não abriu. Está tudo demasiado próximo para me sentir confortável. Mas estamos nos bosques e todos os dias os exploro, para descobrir ao certo o máximo de caminhos de fuga possíveis.

Se eu for apanhado, não só eu, mas também esta família, será torturada e morta. Eles estão verdadeiramente a arriscar o pescoço por mim e eu estou agradecido.
Imagino o que se segue.

9 de março de 1944

Jean e eu vamos até ao lago grande para pescar. Ele, tão alerta como eu e bastante mais sábio do que a sua idade, mostra-me o caminho escondido. Convivendo com o Jean, aprendo um pouco de francês. Mas ainda falta muito.
Trazemos alguns peixes para o déjeuner (almoço). A jovem mãe faz-me uma camisa do tecido do paraquedas. Dão-me também um boné. Na verdade fico com um aspeto bastante francês na minha nova vestimenta. É um inverno bastante frio, aparentemente pouco usual aqui - mas consigo aguentar. A Virginia Ocidental pode ser gelada também. Ainda assim fico satisfeito com o casaco que me dão.

O casal tem empenhado o pescoço para me manter seguro . Parece que já ajudaram muitos: judeus, católicos, outros em fuga dos alemães e da França de Vichy.

O filho mais velho deles está a trabalhar com a Resistência Francesa algures nesta área. Não sabem dele há algum tempo e estão preocupados.

10 de março de 1944

Jean volta a correr. Estava escondido perto da estrada. Passaram alguns alemães provavelmente para o sítio onde o piloto e o avião alemão tinham caído.
Circulam rumores de que alguns franceses simpatizantes dos alemães entregaram vizinhos que ajudavam alguns jovens a fugir a serem levados para campos de trabalho.

O casal diz ao Jean para me levar para o esconderijo especial no bosque e esperar até o pai nos ir buscar.

Como desejo voltar ao P-51 e metralhar o inimigo, para livrar esta gente e a mim.

Jean e eu apressamo-nos silenciosamente a embrenhar-nos no bosque.

11 de março de 1944

O pai regressou ainda ontem antes de anoitecer, para nos buscar. Estávamos relativamente seguros nos bosques - os alemães têm algum medo de ser emboscados. Estou a ficar alo ansioso. Vou passar aqui o resto da guerra? A guerra ainda continua? O que estava a acontecer?
As minhas feridas estão a cicratizar. Um pedaço de estilhaço na virilha e nas mãos. Tinha aplicado sulfamidas nessas áreas do primeiro kit de sobrevivência. O Dr. Henri tinha conseguido algo um pouco melhor. as minhas mãos estão muito melhor agora.
Como é que eu saio daqui e volto ao combate?

(Continua)


Texto: Victoria Yeager
Tradução: Pássaro de Ferro








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