Focke-Wulf Fw 190 “Dora” – Treino e realidade
(Episódio 5)
É natural que a eficiência ou fama em combate de um caça seja perpetuada pelos feitos de pilotos fora-de-série – os chamados “ases” ou experten na língua alemã. Richard Bong aos comandos do P-38 Lightning, Werner Molders e Erich Hartmann nos do Bf 109 ou Jonhnie Jonhson no Spitfire, são excelentes exemplos. Mas pode ser também tendencioso basear conclusões apenas nesses factos - nas mãos destes pilotos até um frigorífico com asas seria um caça mortífero! Apesar dos feitos extraordinários dos “ases”, são os incontáveis milhares de ilustres e anónimos pilotos, muitas vezes pouco treinados e mal equipados, que definem o curso de uma campanha ou a direcção de uma guerra. Para concluir esta série vamos analisar a experiência de dois jovens pilotos da Luftwaffe, dois desconhecidos, que entraram na guerra na fase mais crítica e desfavorável possível; com pouco treino e recursos e com o desespero da derrota cada vez mais presente. E é nas entrelinhas destes relatos pessoais que aprendemos ainda mais sobre o impacto, ou não, de aviões como o “Dora”. Estes testemunhos são a “cola” que transforma os frios dados técnicos, a situação estratégia e as tácticas numa biografia real e sem filtros.
Vamos começar por conhecer Gerhard Kroll, um jovem da Prússia Ocidental que se alistou na Luftwaffe em 1941 com apenas 17 anos. Seguiu a sua formação aeronáutica no Fliegeranwärterbataillon em Strubing e após receber o certificado A/B em Janeiro de 1943 foi destacado para a JFS 1 em Pau-Ost, na França, onde aprendeu voo em formação, acrobacia, navegação e outras disciplinas. Em Fevereiro de 1944 é finalmente colocado numa unidade de combate operacional, a JG 54 em Bayonne equipada com Bf 109G, em funções Reichsverteidigung (defesa do Reich). Pouco depois, a 8 de Março, o jovem piloto enfrentou o inimigo pela primeira vez, neste caso bombardeiros B-17 da USAAF, sendo atingido pelo intenso fogo defensivo das “fortalezas”. Forçado a saltar do avião, Kroll torceu o tornozelo na aterragem e “ganhou” uma semana de licença para recuperar. Exactamente um mês depois, é novamente atingido em combate mas consegue aterrar de emergência no seu Bf 109G em chamas. Com queimaduras de terceiro grau, fica hospitalizado até ao fim de Julho. Em Agosto é destacado para a 1./Jagdgruppe Ost em Sagan para receber formação no Fw 190A e é durante esse período que recebe a triste notícia da morte do pai, também ele militar, num ataque na base onde servia em Halberstadt. Usufruindo de licença de luto, Kroll recolhe os pertences do pai e atende ao funeral na Prússia. Sem tempo para chorar a perda, é rapidamente destacado em Setembro para o quarto gruppe da JG 26, em pleno processo de transição para o “Dora-9”.
Em Março de 1945 o aeródromo do IV./JG 26 em Varrelbusch na Saxónia é devastado por bombardeiros americanos do 3º BG, forçando a evacuação para Bissel, situado a poucos quilómetros ao Norte. As instalações eram rudimentares; cabanas de madeira e alguns bunkers escavados na terra, mas as florestas circundantes ofereciam boa camuflagem. No dia 26 quinze “Dora” saíram para uma patrulha ofensiva de caça (freie jagd) para Sudoeste, seguindo o rio Reno entre Rees e Kirchellen. Gerhard Kroll foi destacado como “asa” do Tenente Wilhelm Heilmann, staffelführer do 15. staffel. Kroll lembra-se bem desse dia;
“Estava muito nervoso nesse dia. Sabia que se saísse em missão, alguma coisa iria acontecer. Estivemos o dia todo em prontidão; pausa e alerta, pausa e alerta. Dá cabo dos nervos a qualquer um. Finalmente recebemos ordem para descolar e interceptar um grupo de caças inimigos. O Tenente Crump liderava sempre as nossas formações porque tinha a melhor visão. Conseguia identificar o tipo e modelo dos aviões inimigos quando o resto da malta só discernia pontos indistintos no céu. A descolagem decorreu sem incidentes e o meu líder, o Tenente Heilmann, encostou-se na esquerda da formação. Mas quando o resto do grupo virou á direita ele virou ainda mais á esquerda, num movimento duplo oposto. Quando dei por ela, estávamos completamente sozinhos. Não fazia ideia do que lhe ia na cabeça. Quando chegamos á fronteira com a Holanda, e ganhamos altitude, percebi que estávamos prestes a ser atacados! Olhei para baixo e vi 3, talvez 4 Hawker Tempest a subir ao nosso encontro. Estavam a aproximar-se rápido e a bater os nossos “Dora” na subida. De repente, o Heilmann vira á direita e mergulha – estávamos feitos. Os pilotos dos Tempest só tinham de apertar o gatilho…e foi o que fizeram. O meu “Dora” abanou para cima, para baixo, esquerda e direita com o impacto dos projécteis dos canhões e incendiou-se de imediato. Isto não foi um “combate” (dogfight) mas sim uma manobra estúpida que acabou por me tramar. Tentei abrir a canópia mas estava emperrada!”
Depois da instrução em França e na Alemanha Gerhard Kroll serviu na JG 54, onde voou com o Messerschmitt Bf 109G, e reinvidicou um B-17 (não confirmado) mas, no processo, foi ele próprio abatido pelo fogo defensivo dos bombardeiros. Posteriormente, foi transferido para a JG 26 onde aprendeu a voar o Focke-Wulf Fw 190A, de motor radial, e uns meses depois, o “Dora-9”.
“Alguma coisa explodiu na zona frontal, talvez no motor, e levei com o painel de instrumentos na cara. Por instantes pensei que era o fim, mas sentia muitas dores - sinal que ainda estava vivo. Consegui forçar a cobertura uns poucos centímetros e a força da deslocação de ar arrancou-a completamente e sugou-me para fora (já tinha entretanto desapertado o arnês). E lá estava eu, em plena queda livre a 4000 metros, a pensar se o pára-quedas não estaria queimado pelas chamas. Não arrisquei puxar a corda. Se estivesse a arder, bastava um “puff” e caia como uma pedra. Deixei-me cair até ver as árvores bem perto e só então puxei a corda. Senti o pára-quedas a abrir, um puxão valente, um balanço apenas e bati com o rabo no chão. O pára-quedas necessita de 75 metros para abrir, por isso calculo que devo ter puxado a corda aos 150 metros. Foi a terceira vez que sofri queimaduras em combate. Gritei todos os palavrões! Não sabia o local exacto da minha “aterragem”, algures a Norte de Bocholt. Enquanto colocava umas ligaduras do meu kit de primeiros-socorros nas queimaduras na cara – o meu espelho partiu-se na queda – surgiram alguns soldados alemães. Conduziram-me num Kubelwagen até uma espécie de convento. Já tinha escurecido e eu estava meio inconsciente. Só me lembro de uma freira disparatar sobre o cheiro do meu pára-quedas, encharcado de combustível. Tive de o deixar lá fora. Não recebi nenhum tratamento mas pouco depois chegou uma ambulância que me levou para um hospital em Haaksbergen, na fronteira com a Holanda.”
Os ferimentos de Kroll significaram o fim da guerra para o jovem piloto. Apesar da excelente performance do Fw 190 “Dora”, ou de qualquer outro caça, é a qualidade, a experiência e a agressividade dos pilotos que, invariavelmente, decidem os combates individuais.
Durante a primavera de 1945 o território nas mãos dos Alemães era pressionado e esmagado incessantemente em 3 frentes. Tornou-se comum para as caças da Luftwaffe enfrentar aviões Ingleses ou Americanos, e Soviéticos, na mesma missão. Os termos “Frente Ocidental” e “Frente Leste” tornavam-se redundantes. Corria a piada entre as tropas Alemãs; “podemos viajar de eléctrico de uma frente para a outra”…
Em finais de Abril de 1945 até os pilotos mais veteranos da Luftwaffe sentiam a pressão dos alertas incessantes e intensidade crescente das operações. O Tenente Dortenmann recorda;
“Voar tornou-se uma experiência cada vez mais miserável, até a descolagem era um terror, devido à constante presença de patrulhas de caças Aliados. A única consolação, e a única coisa que nos ajudava a seguir em frente, eram os cigarros e o álcool.”


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António Luís


