sábado, 23 de março de 2024

Hughes OH-6 Cayuse (Loach), o melhor helicóptero ligeiro de combate? [M2480 – 25/2024] - Parte III

Bính Thuy, Vietname, 1970 (Episódio 3)

Os pilotos mais prudentes de “Loach” não perdiam tempo em ensinar os seus observadores a pilotar o helicóptero para a eventualidade do piloto ser atingido ou incapacitado.  Em Dezembro de 1970 o piloto Rick Waite e o seu observador, Bill Hanegmon, procuravam sinais de actividade inimiga numa área perto do Mekong Delta conhecido como “Wagon Wheel”.  Rick explica como as lições de voo que deu ao colega Bill acabaram por salvar a vida de ambos;

“Aproximamo-nos a cerca de 10 quilómetros da bacia do rio quando vimos vários sinais frescos de actividade inimiga.  Havia pegadas recentes na areia junto á água e pequenos barcos na margem escondidos sobre a folhagem.  De repente o Bill gritou; “Corta á esquerda!, Corta á esquerda!  Vai ali um homem a fugir!”.  Virei imediatamente e o Bill começou a descarregar com a M60.  Subitamente ouvi uma explosão ensurdecedora junto á minha porta e tudo ficou completamente negro.  Conseguia ouvir o Bill a gritar; “Eu controlo o helicóptero, eu controlo o helicóptero!”.  Fiquei temporariamente desnorteado, não conseguia ver ou entender nada.  Depois, finalmente, percebi que tinha o capacete virado a 90 graus.  No momento da explosão virei tão rápido que a minha cabeça girou dentro do capacete.  Enquanto endireitava o capacete (e recuperava a visão) ouvia o Bill a comunicar com o heli de controlo a avisar que tínhamos sido atingidos e que ele estava a pilotar o aparelho.  Havia sangue a voar por todo o lado no cockpit e parecia que vinha da minha cabeça.  Comecei a apalpar a cara á procura de algum ferimento ou buraco mas sem sorte.  O Bill continua a comunicar e ouvi as instruções pelo rádio para ele tentar aterrar numa clareira a 3 quilómetros de distância.  Inclinei-me no assento e o sangue continuava a escorrer da cara mas já tinha desistido de procurar a fonte, pensei que era melhor estar quieto e esperar que o Bill aterrasse.”      


O “Loach” de Rick Waite (s/n 66-17792) ficou neste estado após o incidente de Dezembro de 1970.  Vemo-lo aqui na base após ter sido recolhido por outro helicóptero mas, apesar dos enormes estragos, foi reparado e serviu na Guarda Aérea Nacional nos EUA.

“O Bill manteve-se a baixa altitude e alinhou o “Loach” numa pequena estrada entre dois arrozais mas quando estávamos mesmo prestes a aterrar, a pouco mais de 10 metros de altitude, o motor parou!  Estávamos demasiado baixos para uma auto-rotação normal e demasiado altos e lentos para uma auto-rotação baixa.  Na realidade pouco interessava, porque nunca cheguei a ensinar ao Bill nenhuma manobra de auto-rotação!  Mas, tendo em conta tudo o que tinha acontecido até agora, o Bill estava a desenrascar-se muito bem.  Assim que o motor parou, não havia nada a fazer, íamos aterrar de uma forma ou de outra e o Bill conseguiu manter a traseira direita, que não é fácil quando não se tem potência.  Aterramos na estrada, sim senhor, mas como o rotor não tinha potência para amparar a descida os patins partiram-se e o “Loach” derrapou da estrada para dentro do arrozal.  As pás do rotor embateram na água, flexionaram e deceparam o rotor de cauda.  A água começou a encher o cockpit e nadamos para fora dali enquanto um dos nossos “slicks” (UH-1 Huey) aterrava para nos dar assistência.  Quando tentei pôr-me de pé senti uma dor lancinante e sentei-me no chão de imediato.  Deitaram-me numa maca, levaram-me para o “Huey” e começaram a ver o que se passava comigo.  Todos estavam á procura de algum ferimento grave na minha cabeça por causa do sangue na cara e no capacete.  Depois reparei num pequeno e perfeito buraco na minha bota.  Acertaram-me no pé, por isso doeu tanto quando me levantei!  Levaram-se para o hospital onde me consertaram.  Em três semanas já estava de volta ao activo.”  

Bill Hanegmon, observador e “piloto substituto em caso de emergência”, segura no colete balístico (jocosamente conhecido como “chicken plate”) que o salvou de ferimentos graves no abdómen.

“O nosso “Loach” foi atingido em 13 locais.  Um deles no radiador de óleo, que levou ao sobreaquecimento do motor que acabou por parar.  Calculamos que fomos atingidos por um explosivo colocado nos ramos das árvores, um tipo de armadilha anti-helicóptero que os vietcongues eram mestres.  Aquele sangue todo no cockpit vinha do meu nariz; ao virar a cabeça tão rápido, a borda do capacete acertou-me na penca e provocou aquele cenário assustador, mas não era nada de grave.  E, num “Loach” sem portas, o vento do rotor espalhou o sangue por todo o lado como uma batedeira!  Mas se há coisa na minha vida que dou por bem empregue foi o tempo a ensinar o Bill a pilotar.  Fazer aquela recuperação a baixa altitude e aterrar naquelas condições – foi simplesmente inacreditável.  Soube mais tarde que o Bill repetiu a proeza quando outro piloto foi atingido!  Nunca recebeu uma condecoração por nenhum dos incidentes.  Ele era um daqueles rapazes que se desenrascava em tudo mas sempre tranquilo e calmo e continuou assim depois da guerra, como detective em Hibbing no Minnesota.”  


Este “Loach” veterano de guerra do Vietname não se reformou com o fim do conflito.  Nada disso, após servir na Guarda Aérea Nacional encontrou trabalho na polícia de Gainesville, onde continuou a perseguir vilões durante 14 anos!  Em Janeiro de 2000 reencontrou-se com o seu amigo Rick Waite.

Mas a história não ficou por aqui.  Passados uns 30 anos, mais precisamente em Janeiro de 2000, Rick Waite recebe um convite da Polícia de Gainesville, na Florida, para os visitar.  Dois policias, Dale Witt e John Rouse, receberam o veterano do Vietname e levaram-no para um hangar pouco iluminado.  

“Naquele hangar tão escuro, parecia que estava a ver um fantasma.  Quando me aproximei comecei a sentir uma descarga de adrenalina.  O meu “Loach”!!  Os remendos na fuselagem e na porta do motor mostravam as feridas que ambos sofremos há 30 anos.  Mas estava espectacular.  Toquei-lhe e fiquei a olhar para ele fixamente, feliz por também ter sobrevivido estes anos todos.  Uma coisa é certa, envelheceu muito melhor do que eu!   A seguir os meus anfitriões abriram as portas do hangar e empurraram o “Loach” para a luz do sol.  Depois aconteceu!  Um deles entregou-me um capacete e perguntou;

“Estás pronto?”

Fiquei estupefacto.  Iam mesmo levar-me para um passeio!

“Nós não te vamos levar para um passeio.  TU vais nos levar para um passeio”.

Não podia acreditar.  Mas assim foi, a 5 quilómetros do aeroporto e a 150 metros de altitude o John disse;

“Força, agora é todo teu”.

Nas duas horas seguintes o “Loach” ficou nas minhas mãos e eu voltei aos meus 20 anos de idade como piloto de reconhecimento…”


Texto e seleção de imagens: Icterio

Edição: Pássaro de Ferro


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