sábado, 21 de junho de 2014

MEMÓRIAS DUM MECÂNICO DE ALOUETTE EM ÁFRICA - 5 (M1626 - 193PM/2014)

Os "buracos" em que muitas vezes os AL III se metiam      Foto: Autor desconhecido
Capítulo 1
Capitulo 2 
Capítulo 3 
Capítulo 4

Abril de 1974

 Estava no hangar e na conversa com outros elementos que estavam em Vila Cabral em comissão, quando surge o Braga a dizer que tínhamos uma evacuação de “Zero Horas” para fazermos. Com o heli preparado, e com um T-6 a proteger-nos, lá fomos para mais uma missão de Soberania. 
Depois de hora e pouco de voo, chegamos ao local da evacuação. Preparo-me para dar indicações ao piloto, quando noto que o espaço era muito apertado para conseguirmos entrar no "buraco". Eram árvores altas, uma delas estava seca e representava um perigo se batêssemos com as pás principais.  Transmito ao piloto que não dava para aterrarmos, ele responde que dá, eu aceitei, abri a porta, pus meio corpo para fora do heli e comecei a dar indicações para aterrar.
Aterramos e qual não é o meu espanto, quando percebo que o ferido era um inimigo. Vinha com o soro metido no braço. Meti-o no heli e começámos a descolar. Estava eu a dar indicações para sairmos em segurança, quando de repente ouvimos um estrondo e sentimos o heli a estremecer. Tínhamos batido com as (pás) principais. Foram frações de segundo. Olhámos um para o outro e rapidamente perguntámos "que foi esta merda?"...

O Braga ficou pálido, a voz sumiu-lhe e eu a mesma coisa. Tivemos sorte, conseguimos sair do "buraco" e com um barulho esquisito enquanto voávamos, comunicámos ao piloto do T-6 que estávamos com problemas. Responde ele que estava a ouvir o barulho das pás. Pensámos em aterrar algures, pois o heli estava com muitas vibrações e lá fomos até um aquartelamento no mato, para “Nova Viseu”. Enquanto íamos, verifiquei que a agulha do soro tinha saltado. Eu com a minha boa-vontade voltei a meter a agulha no inimigo. Nem quis saber se estava bem ou mal colocado, pois ainda estava com a revolta, raiva, pois a morte do capitão Castelo era recente e o sentimento de vingança estava vivo.

AL III e T-6 em formação sobre África       Foto: Autor desconhecido

Aterramos em Nova Viseu e somos rodeados pelos soldados que lá se encontravam. Saio do heli e faço-os recuar. Começo a ouvi-los a quererem saber o que se passava eu digo que trazemos um ferido, sem referir que era um inimigo.
Entretanto, chega o Alferes e nós comunicamos que trazíamos um inimigo ferido. Abro as portas do heli, e os soldados com pronúncia dos Açores começam a dizer “olha um turra, deixem-me matar esse fdp”. Entretanto, o alferes manda retirar o ferido para a enfermaria.
Vou ver o que tinha acontecido e verifico que na ponta das pás os saumons  (ver a parte laranja  na foto abaixo) estavam completamente rebentados. Viam-se os veios com contra-pesos. Estavam  com as pontas dobradas. Chamo o piloto e digo: "nem imaginas a sorte que tivemos, mais 2 cm para dentro e a pancada tinha sido nas pás e tínhamos ido desta para melhor".


O nosso protetor T-6 seguiu para Vila Cabral. Nós passámos lá a noite. Mataram um galo que lá tinham para o jantar e durante a refeição vieram muitas conversas, muitas histórias. Soube que numa das evacuações que fiz, o corpo completamente desfeito que vinha num saco de lona era a de um soldado que era o relojoeiro dessa unidade. Nessa noite soube o que tinha acontecido:

Durante uma operação de reconhecimento, o Alferes Ribeiro ia à frente e quando iam a chegar ao rio, o relojoeiro disse ao alferes que ele iria para a frente. Deu uns passos e logo se ouviu uma grande explosão. Tinha sido uma mina antipessoal, reforçada com uma mina anticarro. Tiveram que recolher os bocados do corpo que estavam espalhados pelas árvores (fizemos a evacuação quatro dias depois).

Depois do jantar, tivemos de ir para a pista, pois tinha sido pedido uma evacuação a uma empresa de táxi aéreo, que apareceu para levar o ferido (inimigo). Os soldados ficaram revoltados, pois se fosse com eles, tinham de aguentar que os helis ou aviões da FAP os viessem evacuar. A psicologia estava a funcionar. Os nossos militares tinham de aguentar e o inimigo não. Tínhamos de mostrar que não estávamos ali para os matar  (por isso o avião civil para evacuar o ferido).

Enquanto esperávamos pela manhã, ouvíamos as aventuras e momentos desse pessoal. Uma delas  ficou-me na memória, pois fartei-me de rir:
Eram os inimigos a gritarem para os soldados, a dizerem para irem embora, porque "a terra não era deles" e "o que estavam lá a fazer". Respondiam os nossos soldados com sotaque açoriano: "turras excomungados" que "largassem as armas", etc. Quando havia ataques à morteirada, os soldados só ouviam as explosões a quilómetros, pois o aquartelamento estava entre dois montes e o inimigo ao lançar morteiradas, atirava para outra colina e vice-versa.

Nessa noite, ficámos à espera de um ataque do inimigo, pois um heli destruído era sempre um troféu apetecido. Fui tentar dormir, não consegui, sempre com um olho aberto e outro fechado em estado de alerta à espera da manhã.
No dia seguinte, pela madrugada, depois de tentar tirar os restos dos saumons, para evitar muitas vibrações, o que era impossível. E eu a imaginar a porca e os contra-pesos a saltarem durante o voo e nós a batermos com o "focinho" no chão. O que vale é que foi só imaginação durante o voo. Chegados a Vila Cabral, passados dois dias, já o heli já estava operacional. Tinham sido enviadas de Nampula as três pás para substituir.

Nunca senti uma sensação como aquela. Foram uns segundos em que a minha vida esteve por um fio. Anos mais tarde vim a saber o que tinha acontecido: as árvores eram altas e a deslocação de ar, fez com que as copas das árvores fechassem e criassem um vácuo… e na descolagem o heli ia perder a sustentação.

(Último capítulo no próximo sábado)

Texto: Abdul Osman, Ex-MMA

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