sábado, 13 de junho de 2026

ANOS 80, GUERRA FRIA E UMA BASE AEREA PORTUGUESA - 1ª parte

 


A Guerra Fria foi um período histórico que mediou entre o final dos anos 40 do século passado e 1989, data da demolição do Muro de Berlim ou 1991, data do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas ou URSS (consoante diferentes opiniões). Independentemente da data do seu fim, aquele período caracterizou-se por elevada tensão política e militar entre dois blocos de Estados, os da Aliança Atlântica (com a sigla inglesa NATO), conduzida pelos Estados Unidos da América (EUA) e o Pacto de Varsóvia (PV), orientado pela então existente União Soviética. 

 


Naquele período, a que alguns chamam “a Primeira Guerra Fria “, a momentos de alguma distensão sucediam-se outros de elevada perigosidade, sendo exemplos destes últimos, o bloqueio terrestre de Berlim no final dos anos 40, a construção do respetivo Muro em 1961, a crise dos misseis de Cuba em 1962 e, em meados dos anos 80 do século XX, época relacionada com este artigo, a disputa dos chamados “euromísseis” (focados mais adiante). 

A NATO, nestes anos, era constituída inicialmente por 15 Estados, depois 16 com a entrada de Espanha, enquanto o PV alinhava 7 Estados (alguns dos quais fazem hoje parte da NATO) tendo, entretanto, desaparecido um deles, a República Democrática Alemã (RDA), ou Alemanha Oriental, e separando-se o antigo Estado da Checoslováquia em dois Estados independentes, a República Checa e a Eslováquia. Também a URSS perdeu várias repúblicas, incluindo os Estados bálticos de hoje, invadidos e anexados nos anos 30 do sec. XX. A separação geográfica entre ambos os blocos ocorria entre as Alemanhas Ocidental e Oriental, bem como na Noruega, Grécia e Turquia. 

A NATO encontrava-se significativamente ultrapassada pelo PV na generalidade das capacidades militares, em termos quantitativos. A Aliança Atlântica apostava, sobretudo, na sua superioridade qualitativa, embora muitos observadores levantassem receios sobre se esta seria suficiente em caso de guerra. Neste caso, as hostilidades deveriam ocorrer transversalmente a todos os ambientes, naval, terrestre e aéreo, desenvolvendo-se desde a Noruega, no norte, até ao Mediterrâneo, no sul. 

Eram especialmente focadas duas áreas, o Atlântico, por onde deveriam chegar os reforços americanos para a Europa, área sujeita à ameaça submarina soviética, e a região central europeia, concretizada na zona alemã ocidental conhecida por “Fulda Gap”, por onde eram esperadas vagas sucessivas de blindados soviéticos, antecedidas de vastos ataques aéreos e de mísseis. Por documentos entretanto desclassificados, sabe-se hoje que a escalada para o emprego de armas nucleares táticas era bastante provável, e era treinada em exercícios. 

Outro potencial ponto de fricção era Berlim Oeste, então uma cidade isolada na antiga RDA, com limitadas ligações terrestres e aéreas com o Ocidente (três corredores aéreos, p.ex.º), por acordo entre as partes. Apenas aviões britânicos, franceses e americanos, militares e civis, podiam voar da Alemanha para Berlim Oeste. 
Para se ter uma ideia da intensidade esperada para os possíveis combates de um conflito, basta dizer que, segundo fonte não-oficial americana, um estudo sobre as perdas da aviação israelita na guerra de 1973 e sua transposição para a realidade da Europa, apontava para que a NATO ficasse sem aviões em 14 dias. Esse estudo, entre outros factores, influenciou a atual solução stealth. 

Naqueles anos, com a chegada ao poder do presidente americano Ronald Reagan, os EUA adotaram uma política mais enérgica no relacionamento com a União Soviética e suas ações mundiais, como a expansão na Ásia pós-Vietname ou em África. Assim, à decisão soviética de levar para o terreno, no leste europeu, os misseis balísticos SS-20, foi contraposta a intenção americana de colocar na Europa ocidental (Alemanha, Bélgica e Reino Unido, pelo menos) misseis balísticos Pershing II e misseis de cruzeiro ground-launched Tomahawk. Estes “euromísseis” incorporavam cargas militares termonucleares, como era prática desde há décadas. 

Com efeito, desde os anos 50 que existiam na Europa em alerta de 15 minutos, dezenas de aviões municiados com bombas gravíticas nucleares (no Ocidente, B43, B57, etc. e, no Leste, 8U46/8U47/8U49) bem como misseis nucleares táticos (Lance, Mace, SCUD, etc.). Existiam ainda, em Inglaterra, quatro postos de comando voadores americanos EC-135 Silk Purse, que dispersavam para outros locais (incluindo uma ilha, identificada na internet) para controlar o alerta nuclear da NATO (este autor, por inadvertência, ia tendo problemas por se aproximar a pé do dito avião…). Juntava-se este dispositivo aos misseis balísticos e bombardeiros estratégicos das duas superpotências que, no caso americano, chegaram a incluir, durante os anos 60, o alerta nuclear em voo com B-52 (operação Chrome Dome). 
Pelos anos 80, um dos mais acesos pomos de discórdia consistia nas designadas Enhanced Radiation Weapons, que o vox populi e mediático renomeou como “bombas de neutrões”. Estas privilegiavam o efeito radioativo em detrimento dos efeitos térmicos e mecânicos, visando eliminar as guarnições de eventuais carros de combate invasores sem causar excessivos danos nas infraestruturas europeias ocidentais, uma opção técnico-militar que muitos diziam inumana. 

Todos estes desenvolvimentos levaram ao aparecimento de movimentos sociais e políticos anti mísseis e pacifistas, observando-se na TV as inúmeras manifestações no Ocidente contra a decisão da instalação daquelas armas (no Leste, se existiam manifestações pacifistas, não se dava por isso). Ficou célebre a frase “Better red than dead” divulgada por alguns desses movimentos, os quais, associando o pacifismo à recusa da energia nuclear, estão na origem de forças políticas ainda hoje muito relevantes nalguns países europeus. Outras demonstrações de rejeição do nuclear, na Europa ocidental, foram as chamadas ZLAN (Zonas Livres de Armas Nucleares), existindo algumas claramente sinalizadas pelos municípios de diversas povoações portuguesas, uma delas vizinha da base aérea aqui retratada. No campo da informação (ou propaganda…) publicada pelos dois blocos, em Portugal, se a embaixada americana fazia distribuir o fascículo “Poderio Militar Soviético”, voltado para as capacidades, consideradas ameaçadoras, das forças da URSS para lá da chamada “Cortina de Ferro”, a homóloga soviética providenciava o livro “Exército Soviético”, reunindo fotografias a cores dessas mesmas forças, abordadas agora numa perspetiva elogiosa. 

Para se avaliar do estado de espírito reinante na época, foi mesmo publicada uma obra literária da autoria do general britânico Sir John Hackett com o título “Terceira Guerra Mundial” na qual se vaticinava agosto de 1985 como data do início das hostilidades. Feliz e obviamente, a obra não passou da ficção. Outro britânico preocupado com estes temas foi o cantor Sting, que lançou a canção ‘Russians’, a qual se convida a ouvir, para “dar ambiente” a esta leitura. 


Juntavam-se a este cenário de confronto leste-oeste as ressonâncias letais do conflito israelo palestiniano, várias guerras civis (África, América Central, Líbano), algumas invasões (Afeganistão e Líbano, novamente), escândalos políticos internacionais (Irangate), operações militares falhadas (Eagle Claw), operações militares conseguidas (El Dorado Canyon), boicotes a Jogos Olímpicos (Moscovo), ataques suicidas (aos Marines no Líbano, mais uma vez) e inesperadas guerras intra-bloco ocidental (Falkland/Malvinas). Na Europa, viviam-se conflitos inter-religiosos (Irlanda do Norte), atentados bombistas (Paris, Berlim), desvios de aviões (TWA, Air France, Lufthansa), sequestro de navios (Achille Lauro), rapto e assassinato de políticos (Itália) e até o abate de um jato comercial em voo (KAL007). No palco internacional, foram assim os frenéticos e turbulentos anos 80. 

Atualmente, graças à desclassificação de diversos documentos, ocidentais e ex-soviéticos, os interessados pela História, amadores e profissionais, podem aceder a relevantíssima informação sobre a Guerra Fria, por vezes arrepiante. É que uma ou outra vez, ao que parece, geraram-se situações quase explosivas (por exemplo, por ocasião do exercício Able Archer 83). Para além da macro-informação oficial ou académica, inúmeros blogs e sites contêm a micro-visão de muitos cold warriors daquela época, a qual completa utilmente a visão histórica global. 

A visão sobre a Guerra Fria aqui apresentada, no caso a de um militar desse tempo, é uma de muitas possíveis, uma por cada elemento que prestava serviço militar na época. Outras perspetivas poderão existir. 

Como nota final, é óbvio que se vivem hoje tempos bélicos que decorrem dos anos aqui retratados. Muito simplificadamente, enquanto alguns atores internacionais entendem que a Guerra Fria terminou, com vencedores e vencidos, outro ator recusa, violentamente, tal end state. Espera-se uma conclusão aceitável para o atual processo polemológico. 



Autor:  M. Tralha 
Edição: Pássaro de Ferro


Nota (foto capa) - Os exercícios NATO Open Gate e Locked Gate, realizados em anos alternados, traziam à base aérea durante duas semanas, aproximadamente, aviões americanos RF-4C (na foto, um vindo de Zweibrucken, Alemanha) e F-111 (vindos de Inglaterra), para operação em ambiente marítimo. Os RF-4 detetavam forças navais (usando um sistema electrónico designado por TEREC) e os F-111 “atacavam” as mesmas mais tarde. Assim, todos os dias pelas sete ou oito da manhã, a base e seus arredores eram acordados pelo ruído ensurdecedor dos Phantom, seguido meia hora ou uma hora depois pelo ruído mais ensurdecedor dos F-111. Para além destas aeronaves, a base começava a receber, duas ou três semanas antes do exercício, múltiplos voos de C-130 e C-141 trazendo pessoal e toda a espécie de material, incluindo os géneros alimentícios american style necessários. A Base só fornecia o chão e as camaratas…


Um Dornier Alpha Jet alemão (com nariz pontiagudo) equipado com um pod ventral contendo um canhão Mauser de 27 mm. Dado este pormenor, estaria provavelmente envolvido em tiro ar-solo (strafing) na carreira de tiro aéreo vizinha da Base. Uma das diferenças entre os Alpha Jet de origem alemã e os franceses era precisamente o armamento, com os franceses a utilizar um canhão DEFA de 30 mm, idêntico aos do FIAT G.91, a arma aérea de maior calibre até hoje usada pela FAP.


O Transall C-160 era o equivalente franco-alemão do C-130, sucessor do Noratlas e antecessor do actual A400M. No entanto, não foi tão vendido como o Hercules, sendo usado apenas pelos países fabricantes e mais dois ou três. A maior parte das visitas destes aviões eram de exemplares alemães, como se mostra. A pintura consistia na chamada “camuflagem NATO” (verde-escuro e cinzento) partilhada com quase todos os outros aviões da Luftwaffe e com aviões de outros países. No entanto, os aviões de transporte alemães possuíam extensas zonas de alta visibilidade.


Mais um avião holandês, mais um F-104. Como se depreende, aviões deste tipo visitavam a base com alguma regularidade, sendo prática habitual, após a descolagem, fazerem um ruidoso low pass a alta velocidade sobre os edifícios da área do aeródromo. Para o pessoal de manutenção aeronáutica da base, era uma ocasião de executar cross servicing em aviões estrangeiros, sendo por exemplo oportunidade para efectuar arranques de reactores usando air starters rebocados, dado que as aeronaves desta base não arrancavam com air starter.

Visitantes estrangeiros ocasionais, como é o caso deste Breguet Atlantic da Marinha holandesa, representavam as operações marítimas e anti-submarino, realizadas na esfera do, então existente, comando aliado SACLANT. O visitante é especialmente apropriado, já que dos cinco tipos e modelos de aviões anti-submarino operados pela FAP, três foram previamente holandeses (PV-2, P2V-5 e P-3C, sendo os restantes os Helldiver e os P-3P). Sublinhe-se que, na Guerra Fria, a Marinha holandesa enquadrou uma das duas aviações europeias da NATO com capacidade para empregar bombas de profundidade nucleares anti-submarino (mas não com os Atlantic), de propriedade americana, juntamente com a britânica RAF.

Um F-16 americano visitante, baseado em Torrejon, perto de Madrid. Estamos aqui na recta final da permanência de aviões de combate americanos em Espanha, que já ocorria desde os anos 50, sucedendo-se os caças F-86D, F-102, F-4D e F-16. A dada altura, existiram diversas manifestações contra as unidades aéreas americanas, exigindo a sua saída de Espanha. Tal veio a ocorrer, enquadrado na adesão espanhola à NATO, quarenta anos depois de Portugal (as unidades americanas estavam em Espanha ao abrigo de um acordo bilateral, que previa ainda o apoio a bombardeiros nucleares). O destino desta unidade foi Aviano, na Itália.


Não se imaginava, na época, que a FAP viria a operar o Alpha Jet. Aqui se vê um exemplar belga, em viagem de navegação, da versão produzida em França pela Dassault-Breguet (nariz arredondado). Como se sabe, os Alpha Jet portugueses foram da versão produzida na Alemanha pela Dornier (nariz pontiagudo) sendo certo que mais diferenças existiam.


Outro avião notável da Guerra Fria foi o bombardeiro médio Canberra, protagonista de várias missões incluindo, nos anos 60, o alerta nuclear táctico britânico, na Alemanha e em Chipre. Com efeito, tratava-se de um avião de apreciáveis dimensões, com piloto, navegador e porão de bombas. Invulgarmente, dava-se o caso de, nalgumas versões, o piloto dispor de cadeira ejectável (do famoso fabricante Martin-Baker) mas o navegador não a ter. Teria que abandonar o avião em voo abrindo uma escotilha e saltando em pára-quedas (esta diferença de meios existiu noutros aviões, como o bombardeiro Vulcan por exemplo). Alguns veteranos de África já conheciam este avião, dado que os Canberra rodesianos visitaram aeródromos portugueses nas ex-colónias. O Canberra que aqui se vê, numas cores algo invulgares para avião militar, é alemão e destinava-se a voos de teste, não a missões operacionais. A Alemanha possuiu apenas três, sendo, portanto, raridades.

Um dos mais frequentes visitantes da base, para Squadron Exchanges, eram os Harriers britânicos, quer baseados na Velha Albion, quer oriundos da então existente RAF Germany Harrier Force. Nesta foto pode observar-se um Harrier bi-lugar, para conversão operacional. Ocasionalmente realizavam-se demonstrações de voo vertical, muito interessantes, e ruidosas.


Outro belga, desta vez de asa rotativa, na Linha da Frente junto à torre de controlo. O insuperável Alouette III é aqui mostrado nas cores da Marinha belga, provavelmente baseado numa fragata em visita ao porto de Lisboa. A recepção de helicópteros embarcados não era muito frequente nesta base, mas ocorria por vezes.

O F-104 Starfighter, conhecido inicialmente por “o míssil com um homem dentro”, ganhou uma reputação algo triste nos anos 60 devido ao elevado número de acidentes ocorridos com diversos operadores. O mais notável destes foi a Luftwaffe alemã, a qual, também por razões que ultrapassavam a própria aeronave, perdeu centenas de aviões, dando origem a outra alcunha, o “fazedor de viúvas”. Mesmo assim, tornou-se um avião emblemático da Guerra Fria, desempenhando durante 30 anos missões de defesa aérea e de ataque, incluindo o alerta nuclear de sete países da NATO. Na imagem vêem-se F-104 belgas, numa das suas viagens de navegação cross country, as quais normalmente implicavam, para os belgas e outros, a chegada de uma ou duas parelhas à base numa 6ª feira à tarde e a partida na 2ª de manhã.

Os belgas foram dos primeiros operadores do F-16 a visitar Portugal com estes aviões, talvez o primeiro. À data desta foto, o Viper estava na panóplia belga há muito pouco tempo, na sequência do então chamado “negócio do século”, a compra por quatro países NATO europeus (Bélgica, Dinamarca, Holanda, Noruega) do F-16 (depois do primeiro “negócio do século”, a compra dos F-104 pelos mesmos países, mais Alemanha, Canada e Itália). Os aviões têm sob a asa um pod branco SUU-20, o qual comportava seis bombas de exercício e quatro foguetes, para treino, também usado em Portugal, mas mal amado pelos mecânicos de armamento FIAT.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

ANGOLA COMPRA 14 HELICÓPTEROS KOALA

 

AW119M Koala    Ilustração: Leonardo
O Presidente de Angola, João Lourenço, autorizou um acordo de financiamento no valor de 132,8 M EUR destinado à aquisição de 14 helicópteros AW119 à ítalo-britânica Leonardo. A decisão, formalizada pelo Decreto Presidencial 137/26, publicado a 17 de abril, estabelece uma parceria financeira com o banco Intesa SanPaolo, com o respaldo da agência italiana de crédito à exportação, SACE.

Este contrato prevê a entrega de 12 unidades da variante militar AW119M e duas da variante AW119Kx para o Ministério da Defesa Nacional de Angola. Além das aeronaves, o pacote inclui serviços essenciais de formação de pessoal, manuais técnicos, fornecimento de peças de reposição e assistência técnica contínua.

O AW119 Koala é um helicóptero ligeiro, monomotor, que está já em operação na Força Aérea Portuguesa e na Marinha dos EUA, além de muitas outras forças paramilitares e civis. A sua configuração permite o transporte de tropas, busca e salvamento, evacuação médica, comando e controlo, e escolta armada. A cabine dispõe de aviónica digital de última geração que permite operações por instrumentos, incluindo sistemas de visão sintética e sistemas de alerta de terreno, o que aumenta a consciência situacional e reduz a carga de trabalho dos pilotos.

Esta aquisição consolida a presença da Leonardo nas forças de segurança angolanas. A Polícia Nacional de Angola já opera o modelo AW119Kx, tendo recebido as primeiras unidades entre o final de 2025 e o início de 2026. Este processo integra um plano mais vasto de modernização da frota do Ministério do Interior, que prevê a operação de 19 novos helicópteros das gamas AW119Kx e AW139. 



domingo, 24 de maio de 2026

NATO TIGER MEET 2026

O famoso fotógrafo japonês, Katsuhiko "Katsu" Tokunaga, participou na habitual sessão fotográfica com algumas das aeronaves participantes na edição deste ano do incontornável NATO Tiger Meet, que teve lugar na Grécia, centrado na Base Aérea de Araxos, e com a Esquadra 335 como anfitriã.

Aqui fica uma amostra representativa.








Fotografias: NATO/Katsuhiko "Katsu" Tokunaga via Magyar Honvédség

Edição: Pássaro de Ferro



terça-feira, 19 de maio de 2026

F-16 ROMENOS ABATEM DRONE SOBRE A ESTÓNIA - atualizado 13h40 19/05/2026



Um caça F-16M Força Aérea Romena, atualmente atribuído à missão Baltic Air Policing da NATO, abateu um drone presumivelmente ucraniano no espaço aéreo da Estónia. O incidente, foi já confirmado oficialmente pelo Ministro da Defesa estónio, Hanno Pevkur.


Segundo a agência Reuters, a instabilidade operacional estendeu-se à vizinha Letónia, onde o exército emitiu um alerta de intrusão aérea e ordenou que os residentes próximos da fronteira russa permanecessem no interior de edifícios, e acionando de imediato os caças da NATO em missão de alerta. 


Estes desvios de rota por parte de aeronaves não tripuladas vêm afetando o flanco leste da Aliança, com incursões registadas na Finlândia, Letónia, Lituânia e Estónia desde o passado mês de março, gerando inclusivamente uma crise política que levou à demissão em bloco do governo letão na semana passada.

Face ao agravamento da situação, o Presidente Volodymyr Zelenskiy tinha anunciado o envio de especialistas militares ucranianos para a Letónia com o objetivo de apoiar a defesa do espaço aéreo local.

 A fricção na região é ilustrada também pelo recente incidente de 15 de maio na Finlândia, onde as forças de defesa locais acionaram caças de alerta e suspenderam o tráfego no Aeroporto de Helsínquia durante três horas devido a suspeitas de atividade de drones, embora nenhum aparelho tenha sido efetivamente intercetado nessa ocasião.

Lembramos que a Força Aérea Portuguesa tem atualmente destacados quatro caças F-16M das Esquadras 201 e 301, em Amari, na Estónia, complementando no Policiamento Aéreo do Báltico os F-16 romenos e Rafale franceses em Siauliai, na Lituânia., Não há contudo, qualquer indício de que tenham estado envolvidos nesta operação em particular.

Até ao momento, o comando da NATO não emitiu qualquer comentário oficial sobre a interceção.

Atualização 13h40, 19 de maio 2026

A Força Aérea Romena publicou entretanto na rede social Facebook, uma descrição da operação d einterceção, que a seguir tarnscrevemos:

"(...) Hoje por volta das 11:00 horas, duas aeronaves F-16 do Destacamento Carpathian Vipers foram levadas para o ar pelo Centro Combinado de Operações Aéreas (CAOC) Uedem, para um alerta da Polícia Aérea no espaço aéreo da sua área de responsabilidade.
Os pilotos identificaram o alvo e passaram por todos os procedimentos de identificação, aprovação de empenhamento e atenuação de riscos, após o que lançaram um míssil ar-ar, abatendo um drone.
O destacamento Carpathian Vipers, composto por cerca de 100 soldados com seis caças F-16 Fighting Falcon, está destacado para a Lituânia na Base Aérea de Šiauliai, e fornecerá o Serviço de Polícia Aérea Melhorado de abril a julho de 2026.
A Força Aérea Romena está na sua quarta missão na Lituânia, onde garante a proteção da integridade do espaço aéreo dos Estados Bálticos e da NATO."







quinta-feira, 30 de abril de 2026

LINHA DE MONTAGEM DE SUPER TUCANO EM BEJA MAIS PERTO

Ministro da Defesa Nuno Melo na cerimónia de entrega dos primeiros A-29N Super Tucano  Imagem de arquivo
 

O Ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo, confirmou que o Governo português está a dar “passos largos” para a instalação de uma unidade industrial da Embraer em Beja. O projeto visa a produção completa da aeronave de ataque ligeiro e treino avançado A-29N Super Tucano, consolidando a parceria estratégica com a fabricante brasileira. Em declarações prestadas durante a feira Ovibeja, o governante reiterou a “possibilidade cada vez mais plausível” de a região acolher uma linha de montagem onde as aeronaves seriam produzidas “de A a Z, numa parceria com a Embraer, que de resto já é antiga no que tem que ver com a produção de aeronaves KC-390”.

Quanto ao cronograma e logística, a expectativa do Executivo é a da “concretização do projeto já para o final do ano”, partindo-se de seguida para a realização de obras no edifício já identificado no perímetro da Base Aérea N.º 11. Nuno Melo escusou-se a detalhar especificidades técnicas sobre a localização exata, limitando-se a referir que a unidade ficará junto a instalações outrora pensadas para a produção aeronáutica que nunca se concretizou. O ministro revelou ainda que o investimento será “business oriented”, tratando-se de um projeto sustentável por si mesmo, com necessidade mínima de adaptação infraestrutural e sem dependência de apoios europeus particulares.

A-29N Super Tucano

A iniciativa reforça o cluster aeronáutico português, que já inclui o centro de engenharia da Embraer em Lisboa e a participação na OGMA no cargueiro KC-390, que possui peças de fabrico português. O governante sublinhou o caráter inédito desta operação ao afirmar que Beja “poderá e deverá ser o destino desta empresa que produzirá de A a Z aviões militares em Portugal”, algo de que não se recorda de ter acontecido anteriormente no país.

No plano operacional, o Super Tucano é apontado como uma solução versátil e atual, especialmente relevante face às novas exigências do teatro de guerra moderno. De acordo com o Ministro da Defesa, a aeronave é “cada vez mais desejada em ambientes disputados, inclusivamente com tecnologias incorporadas de combate a drones”, assegurando que a futura unidade industrial terá “encomendas garantidas no momento em que a fábrica seja instalada”.




quinta-feira, 9 de abril de 2026

TECNAM P-MENTOR: O Chipmunk já tem substituto

Tecnam P-Mentor      Ilustração: Tecnam

A Força Aérea Portuguesa (FAP) irá modernizar a sua capacidade de instrução básica através da aquisição de uma nova frota de aeronaves Tecnam P-Mentor. O programa, adjudicado pelo Ministério da Defesa Nacional ao consórcio liderado pelo grupo espanhol World Aviation S.L., prevê a entrega de sete células destinadas a substituir as atuais Aeronaves de Instrução Elementar de Voo, da Academia da Força Aérea Portuguesa, DHC.1 Chipmunk Mk.20. O contrato abrange não apenas o fornecimento das células, mas também a implementação de sistemas de treino sintético e a formação técnica de instrutores de voo da força aérea.

Ao concurso publicado pelo ministério da Defesa em agosto do ano transato recebeu três propostas, das quais saiu vencedora a World Aviation SL. O contrato, no valor de 7,275M EUR foi assinado no dia 23 de março de 2026. O prazo de entrega das aeronaves e dos dois simuladores de voo é de 10 meses, a partir da aprovação do contrato pelo Tribunal de Contas.

Foto: Tecnam

Para assegurar a sustentabilidade logística e a prontidão operacional das aeronaves, o acordo inclui um pacote integrado de apoio logístico com a duração de cinco anos. Este plano garante a cobertura total da manutenção, tanto programada como não programada, assegurando a continuidade do ciclo de formação dos cadetes da Academia da Força Aérea. A World Aviation, que já opera aeronaves Tecnam na sua frota de Organização de Treino Aprovada (ATO) com um registo acumulado de 20.000 horas de voo, assume a responsabilidade técnica pela implementação do programa em território nacional.

Fernando Casado, responsável de formação do World Aviation Group, sublinhou a relevância institucional desta parceria ao afirmar que o grupo se sente profundamente honrado por apoiar a Força Aérea Portuguesa na preparação da próxima geração de pilotos militares. Segundo o responsável, este programa reflete o compromisso da organização com a segurança e a excelência operacional. Por sua vez, Walter Da Costa, Chief Sales Officer da Tecnam, destacou o valor estratégico da escolha, referindo que o P-Mentor foi concebido para revolucionar o treino de voo, oferecendo a plataforma mais moderna, segura e económica do mercado, sendo a sua seleção para formar aviadores militares na Europa uma prova das capacidades da aeronave.


Fotos: Tecnam

O Tecnam P-Mentor é uma aeronave monomotor de asa baixa, bilugar, certificada pela a norma EASA CS-23. O modelo destaca-se por oferecer uma transição tecnológica simplificada para plataformas de maior complexidade, estando equipado com uma suíte de aviónicos Garmin G3X totalmente digital. Possui hélice de passo variável, trem de aterragem fixo e a opção de simulação de trem retrátil para fins de treino, permitindo uma elevada versatilidade na instrução básica e intermédia. Com um consumo de combustível reduzido e baixas emissões sonoras, o P-Mentor apresenta-se uma solução moderna, de elevada eficiência de custos.



terça-feira, 7 de abril de 2026

Marinha Portuguesa: Futuro NRP D. João II já flutua

Foto: Marinha Portuguesa

A Marinha Portuguesa deu hoje um passo decisivo no seu processo de modernização com a cerimónia de flutuação do futuro NRP D. João II, que teve lugar nos estaleiros da DAMEN, em Galați, na Roménia. O evento, realizado hoje, a 7 de abril de 2026, contou com a presença do Superintendente do Material, Vice-almirante Fernando Jorge Pires, acompanhado pelos embaixadores de Portugal e dos Países Baixos, simbolizando a relevância estratégica e diplomática deste projeto financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência.

Foto: Marinha Portuguesa


Desenvolvido através de uma parceria entre a Armada e o grupo DAMEN, o futuro NRP D. João II introduz um conceito inovador de Plataforma Naval Multifuncional. Ao contrário das unidades de superfície tradicionais, este navio aposta numa arquitetura modular e numa elevada flexibilidade operacional, permitindo a transição entre missões militares, científicas e de monitorização ambiental com rapidez e eficiência.

Foto: Marinha Portuguesa

No plano tecnológico, a unidade destaca-se pela sua capacidade nativa de operar sistemas não tripulados aéreos, de superfície e subaquáticos. Esta integração de drones e veículos autónomos permite ao navio atuar como um centro de comando para a recolha e processamento de dados oceânicos, assegurando uma interoperabilidade sem precedentes com o setor científico e académico. Com uma autonomia projetada para 45 dias de permanência no mar, o navio está capacitado para missões prolongadas de investigação e prospeção do fundo marinho.

Vídeo


A cerimónia de flutuação assinala o fim de uma etapa crítica da construção e o início da fase final de aprontamento. A entrada oficial do NRP D. João II no efetivo dos navios da Marinha está prevista para o primeiro semestre de 2027, momento em que Portugal reforçará significativamente a sua capacidade de vigilância, segurança marítima e afirmação da soberania no domínio das ciências do mar.

Foto: Marinha Portuguesa

Foto: Marinha Portuguesa



domingo, 22 de março de 2026

O melhor caça da Luftwaffe em 1944? - [Episódio 6]

 Focke-Wulf Fw 190 “Dora” – Treino e realidade 

(Episódio 6)

A segunda, e final, história desta série, pertence a Heinz Radlauer.  Nascido em 1923, aprendeu a voar em planadores na área de Posen, uma actividade muito popular na Alemanha na altura.  Atraído pela magia do voo, não demorou muito até ser aceite como um promissor cadete na Luftwaffe em Agosto de 1941.  Depois de completar a formação básica no Fliegerausbildungsregiment (Regimento de Treino Aeronáutico) foi destacado para a Jagdfliegerschule 7 (Escola (ou Academia) de Caça 7) em Nancy-Essay, na França, onde voou uma mistura de caças obsoletos, como o Arado Ar 68 e Heinkel He 51, ou capturados, como o Dewoitine D.520 francês.  Em Setembro de 1943 Radlauer, finalmente, recebeu as cobiçadas “asas” e o distintivo de piloto.  Em Junho do ano seguinte deveria receber quatro semanas de instrução avançada no Ergänzungsjagdgruppe Ost (Grupo de Treino Operacional Leste) aos comandos de aviões de primeira linha (Bf 109 e Fw 190) mas a situação dramática da Jagdwaffe encurtou esse curso para apenas 14 dias.  Longe pareciam os tempos dos amenos voos de instrução e acrobacia, agora a ênfase era outra; combate e sobrevivência.  Treino de tiro e manobras de intercepção dominavam o curto currículo, ensinado não por bonançosos instrutores mas por pilotos de caça endurecidos por anos de combate ininterrupto – e com pouca paciência para aturar miúdos ou tolerar erros.  Depois de completar este curso final, Radlauer, que ganhou a derrogatória alcunha de ‘Piefke’ (um termo austríaco para alguém de descendência prussiana), foi colocado na famosa Jagdgeschwader 51, a operar na área de Minsk, na zona centro da Frente Leste.  Promovido a Sargento, era chegada a altura de Radlauer passar da teoria á prática.

Este “Dora-9” da JG 6 acelera numa “pista” relvada, completamente ensopada, carregado com uma bomba SC 250 de 250kg no suporte ventral.  Nas últimas semanas da guerra, com o aproximar das tropas Aliadas, até as unidades de caça eram recrutadas para funções de ataque ao solo e apoio ao exército.   

Aos comandos do rápido e letal Messerschmitt Bf 109G, o jovem piloto rapidamente demonstrou apetência na guerra aérea.  A 7 de Outubro abateu a primeira vitima, um Lavochkin La-5 e, seis dias depois, despachou um Yakovlev Yak-9.  Logo no dia seguinte juntou um Ilyushin Il-2, o célebre “shturmovik”, um avião notoriamente difícil de destruir.  Radlauer parecia bem lançado para se tornar um “ás” mas a situação na frente nas semanas seguintes obrigou a uma incessante série de evacuações pouco ordenadas das bases da JG 51, o que diminuiu as oportunidades de enfrentar o inimigo.  Nos caóticos meses finais do “Reich de Mil Anos” de Hitler, Radlauer transitou para o Fw 190A.  A instrução, ou “conversão”, foi um exemplo de brevidade e exemplifica a situação desesperada da Luftwaffe; enquanto Radlauer se ajustava no cockpit, um funcionário da Focke-Wulf explicava rapidamente a localização dos instrumentos no painel!  E quando a JG 51 recebeu um pequeno número de “Dora-9” em Abril de 1945, Radlauer foi um dos escolhidos para os pilotar, um sinal de confiança nos talentos do jovem ‘Piefke’.  

Desde planadores até ao poderoso Focke-Wulf Fw 190D-9 - Heinz Radlauer posa para a foto durante a rendição em Flensburg.  O seu percurso foi semelhante ao de tantos outros ao serviço da Luftwaffe nos últimos 12-18 meses da guerra; sem promoções meteóricas ou recordes de abates.  No entanto, Radlauer destruiu 15 aviões inimigos, apesar de nenhuma dessas vitórias ter sido alcançada nos escassos doze voos que efectuou aos comandos do “Dora”.

É apropriado concluirmos com a última missão de combate da JG 51.  Recuamos até 1 de Maio de 1945, o dia em que foi anunciada a morte de Adolf Hitler.  Os pilotos concordaram entregarem-se aos Aliados após cumprirem as missões do dia; incluindo uma escolta a caça-bombardeiros perto do lago Schwerin, no Norte da Alemanha, e proteger a retirada dos milhares de refugiados alemães que fugiam da fúria dos soviéticos.  O Tenente Heinz Marquardt iria liderar a formação, um dos melhores pilotos da Luftwaffe e uma lenda na JG 51.  Com um impressionante registo de 121 vitórias em combate (todas na Frente Leste) e detentor da cobiçada Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro, era difícil encontrar maior talento nas fileiras depauperadas da Jagdwaffe, principalmente nestas derradeiras semanas.  Era conhecido como ‘Negus’, devido ao forte bronzeado que ganhou numa temporada como instrutor no Sul de França entre Fevereiro e Agosto de 1942.  E podia-se dizer que a combinação Marquardt e Fw 190D-9 era, no mínimo, poderosa; poucos dias antes, a 24 de Abril, foi-lhe incumbida a simples tarefa de levantar um “Dora” novo na cidade de Prenzlau.  Pelo caminho arrebatou quatro Yakovlev Yak-3!

O piloto responsável de proteger as costas de Marquardt, foi Radlauer, o jovem ‘Piefke’ da Prússia.  Assim, depois de escoltarem os aviões de ataque, os Focke Wulf “Dora-9” patrulharam a área a Norte do lago a baixa altitude.  E é neste momento que são avistados por um grupo de seis Spitfire do Esquadrão 41 da RAF.  A situação já seria séria se fossem os comuns, e letais, Mk.IX, equipados com motores Merlin, mas este esquadrão foi uma das primeiras unidades a receber o poderoso Mk.XIV, motorizado pelo enorme Griffon de 36 litros.  Dois dos Spitfire, pilotados por Peter Cowell e Walter Jallands, mergulharam directos aos “Dora” de Marquardt e Radlauer.  

O fim infeliz de um “Dora-9”.  Uma manobra mal calculada levou o Focke-Wulf até uma vala num aeródromo perto de Rostock a 30 de Abril de 1945.  Sofreu danos ligeiros - aparentemente apenas a hélice de madeira estilhaçada - mas a ausência de peças sobressalentes obrigou á destruição do aparelho para prevenir que caísse em mãos russas.  A desolação na cara de Marquardt, á direita, reflecte bem o seu estado de espírito – e o de toda a Luftwaffe.  Menos de 24 horas depois, Marquardt estaria na cama de um hospital.  O fim da guerra estava próximo.   

Os pilotos Alemães, nesta altura isolados do resto da formação, rompem em direcções opostas; Marquardt corta drasticamente para a direita e Radlauer para a esquerda.  Mas não foi suficiente.  A apenas 50 metros de distância Cowell abre fogo e regista alguns impactos no “Dora” de Marquardt.  O Focke Wulf levanta o nariz quase na vertical, envolto em fumo negro, e depois inverte em direcção às águas do lago Schwerin.  Momentos depois despenha-se contra a margem sudoeste do lago.  Apesar da violência do combate e da reduzida altitude, Marquardt consegue saltar e acabou pendurado com o seu pára-quedas envolto na chaminé de um convento nas redondezas de um hospital.  Radlauer, isolado e rodeado por vários Spitfire, decide retirar-se de cena.  Com o acelerador do seu “Dora-9” plenamente aberto e com o sistema MW50 em débito máximo, deixa os seus perseguidores para trás e ruma directo para a base em Flensburg.  Mais tarde, nesse mesmo dia, todos os sobreviventes da JG 51 renderam-se perante as colunas avançadas Inglesas.  Era, definitivamente, o fim da linha para a Luftwaffe.

Comentando este último combate, o diário do IV./JG 51 regista;

“Contra o destino todos somos indefesos.  Isto ficou demonstrado a 1 de Maio quando o nosso Tenente Marquardt – reconhecido como um dos melhores pilotos do Gruppe – foi abatido por Spitfires sobre o lago Schwerin na derradeira missão da guerra.”

Não deixa de ser irónico; a Focke-Wulf esforçou-se ao máximo para desenvolver, em condições muito exigentes, um caça competitivo face ao melhor que os Aliados ofereciam - e entregou-os em números consideráveis – mas numa altura em que a quantidade e qualidade dos pilotos se revelou drasticamente insuficiente.  E, conforme acabamos de ler, mesmo nas mãos de pilotos de grande categoria, são as circunstâncias externas de cada combate que determinam, quase sempre, quem vive e quem morre.

Mas sobre o Focke Wulf Fw 190D-9 “Dora”, concluímos com as palavras do Kommodore da JG 51, o Major Heinz Lange;

“Nunca esquecerei, era uma máquina fantástica!"

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Episódio 5

Texto e seleção de imagens: Icterio
Edição: Pássaro de Ferro


segunda-feira, 2 de março de 2026

O melhor caça da Luftwaffe em 1944? - [Episódio 5]

Focke-Wulf Fw 190 “Dora” – Treino e realidade 

(Episódio 5)

É natural que a eficiência ou fama em combate de um caça seja perpetuada pelos feitos de pilotos fora-de-série – os chamados “ases” ou experten na língua alemã.  Richard Bong aos comandos do P-38 Lightning, Werner Molders e Erich Hartmann nos do Bf 109 ou Jonhnie Jonhson no Spitfire, são excelentes exemplos.  Mas pode ser também tendencioso basear conclusões apenas nesses factos - nas mãos destes pilotos até um frigorífico com asas seria um caça mortífero!  Apesar dos feitos extraordinários dos “ases”, são os incontáveis milhares de ilustres e anónimos pilotos, muitas vezes pouco treinados e mal equipados, que definem o curso de uma campanha ou a direcção de uma guerra.  Para concluir esta série vamos analisar a experiência de dois jovens pilotos da Luftwaffe, dois desconhecidos, que entraram na guerra na fase mais crítica e desfavorável possível; com pouco treino e recursos e com o desespero da derrota cada vez mais presente.  E é nas entrelinhas destes relatos pessoais que aprendemos ainda mais sobre o impacto, ou não, de aviões como o “Dora”.  Estes testemunhos são a “cola” que transforma os frios dados técnicos, a situação estratégia e as tácticas numa biografia real e sem filtros. 

Este “Dora-9” da JG 26 revela alguns pontos de interesse.  Além do pouco usual tanque externo central de 170 litros é de salientar o lançador em madeira, debaixo da asa, para foguetes ar-ar R4M de 55mm, uma arma habitualmente associada ao Me 262.  No “Dora”, o uso provável destas armas seria em ataques ao solo, um tipo de missão que se tornaria cada vez mais urgente e frequente nos meses finais da guerra. 

Vamos começar por conhecer Gerhard Kroll, um jovem da Prússia Ocidental que se alistou na Luftwaffe em 1941 com apenas 17 anos.  Seguiu a sua formação aeronáutica no Fliegeranwärterbataillon em Strubing e após receber o certificado A/B em Janeiro de 1943 foi destacado para a JFS 1 em Pau-Ost, na França, onde aprendeu voo em formação, acrobacia, navegação e outras disciplinas.  Em Fevereiro de 1944 é finalmente colocado numa unidade de combate operacional, a JG 54 em Bayonne equipada com Bf 109G, em funções Reichsverteidigung (defesa do Reich).  Pouco depois, a 8 de Março, o jovem piloto enfrentou o inimigo pela primeira vez, neste caso bombardeiros B-17 da USAAF, sendo atingido pelo intenso fogo defensivo das “fortalezas”.  Forçado a saltar do avião, Kroll torceu o tornozelo na aterragem e “ganhou” uma semana de licença para recuperar.  Exactamente um mês depois, é novamente atingido em combate mas consegue aterrar de emergência no seu Bf 109G em chamas.  Com queimaduras de terceiro grau, fica hospitalizado até ao fim de Julho.  Em Agosto é destacado para a 1./Jagdgruppe Ost em Sagan para receber formação no Fw 190A e é durante esse período que recebe a triste notícia da morte do pai, também ele militar, num ataque na base onde servia em Halberstadt.  Usufruindo de licença de luto, Kroll recolhe os pertences do pai e atende ao funeral na Prússia.  Sem tempo para chorar a perda, é rapidamente destacado em Setembro para o quarto gruppe da JG 26, em pleno processo de transição para o “Dora-9”.     

Em Março de 1945 o aeródromo do IV./JG 26 em Varrelbusch na Saxónia é devastado por bombardeiros americanos do 3º BG, forçando a evacuação para Bissel, situado a poucos quilómetros ao Norte.  As instalações eram rudimentares; cabanas de madeira e alguns bunkers escavados na terra, mas as florestas circundantes ofereciam boa camuflagem.  No dia 26 quinze “Dora” saíram para uma patrulha ofensiva de caça (freie jagd) para Sudoeste, seguindo o rio Reno entre Rees e Kirchellen.  Gerhard Kroll foi destacado como “asa” do Tenente Wilhelm Heilmann, staffelführer do 15. staffel.  Kroll lembra-se bem desse dia;

“Estava muito nervoso nesse dia.  Sabia que se saísse em missão, alguma coisa iria acontecer.  Estivemos o dia todo em prontidão; pausa e alerta, pausa e alerta.  Dá cabo dos nervos a qualquer um.  Finalmente recebemos ordem para descolar e interceptar um grupo de caças inimigos.  O Tenente Crump liderava sempre as nossas formações porque tinha a melhor visão.  Conseguia identificar o tipo e modelo dos aviões inimigos quando o resto da malta só discernia pontos indistintos no céu.  A descolagem decorreu sem incidentes e o meu líder, o Tenente Heilmann, encostou-se na esquerda da formação.  Mas quando o resto do grupo virou á direita ele virou ainda mais á esquerda, num movimento duplo oposto.  Quando dei por ela, estávamos completamente sozinhos.  Não fazia ideia do que lhe ia na cabeça.  Quando chegamos á fronteira com a Holanda, e ganhamos altitude, percebi que estávamos prestes a ser atacados!  Olhei para baixo e vi 3, talvez 4 Hawker Tempest a subir ao nosso encontro.  Estavam a aproximar-se rápido e a bater os nossos “Dora” na subida.  De repente, o Heilmann vira á direita e mergulha – estávamos feitos.  Os pilotos dos Tempest só tinham de apertar o gatilho…e foi o que fizeram.  O meu “Dora” abanou para cima, para baixo, esquerda e direita com o impacto dos projécteis dos canhões e incendiou-se de imediato.  Isto não foi um “combate” (dogfight) mas sim uma manobra estúpida que acabou por me tramar.  Tentei abrir a canópia mas estava emperrada!” 

Depois da instrução em França e na Alemanha Gerhard Kroll serviu na JG 54, onde voou com o Messerschmitt Bf 109G, e reinvidicou um B-17 (não confirmado) mas, no processo, foi ele próprio abatido pelo fogo defensivo dos bombardeiros.  Posteriormente, foi transferido para a JG 26 onde aprendeu a voar o Focke-Wulf Fw 190A, de motor radial, e uns meses depois, o “Dora-9”.   

“Alguma coisa explodiu na zona frontal, talvez no motor, e levei com o painel de instrumentos na cara.  Por instantes pensei que era o fim, mas sentia muitas dores - sinal que ainda estava vivo.  Consegui forçar a cobertura uns poucos centímetros e a força da deslocação de ar arrancou-a completamente e sugou-me para fora (já tinha entretanto desapertado o arnês).  E lá estava eu, em plena queda livre a 4000 metros, a pensar se o pára-quedas não estaria queimado pelas chamas.  Não arrisquei puxar a corda.  Se estivesse a arder, bastava um “puff” e caia como uma pedra.  Deixei-me cair até ver as árvores bem perto e só então puxei a corda.  Senti o pára-quedas a abrir, um puxão valente, um balanço apenas e bati com o rabo no chão.  O pára-quedas necessita de 75 metros para abrir, por isso calculo que devo ter puxado a corda aos 150 metros.  Foi a terceira vez que sofri queimaduras em combate.  Gritei todos os palavrões!  Não sabia o local exacto da minha “aterragem”, algures a Norte de Bocholt.  Enquanto colocava umas ligaduras do meu kit de primeiros-socorros nas queimaduras na cara – o meu espelho partiu-se na queda – surgiram alguns soldados alemães.  Conduziram-me num Kubelwagen até uma espécie de convento.  Já tinha escurecido e eu estava meio inconsciente.  Só me lembro de uma freira disparatar sobre o cheiro do meu pára-quedas, encharcado de combustível.  Tive de o deixar lá fora.  Não recebi nenhum tratamento mas pouco depois chegou uma ambulância que me levou para um hospital em Haaksbergen, na fronteira com a Holanda.”  

Os ferimentos de Kroll significaram o fim da guerra para o jovem piloto.  Apesar da excelente performance do Fw 190 “Dora”, ou de qualquer outro caça, é a qualidade, a experiência e a agressividade dos pilotos que, invariavelmente, decidem os combates individuais.  

Durante a primavera de 1945 o território nas mãos dos Alemães era pressionado e esmagado incessantemente em 3 frentes.  Tornou-se comum para as caças da Luftwaffe enfrentar aviões Ingleses ou Americanos, e Soviéticos, na mesma missão.  Os termos “Frente Ocidental” e “Frente Leste” tornavam-se redundantes.  Corria a piada entre as tropas Alemãs; “podemos viajar de eléctrico de uma frente para a outra”…   

Em finais de Abril de 1945 até os pilotos mais veteranos da Luftwaffe sentiam a pressão dos alertas incessantes e intensidade crescente das operações.  O Tenente Dortenmann recorda;

“Voar tornou-se uma experiência cada vez mais miserável, até a descolagem era um terror, devido à constante presença de patrulhas de caças Aliados.  A única consolação, e a única coisa que nos ajudava a seguir em frente, eram os cigarros e o álcool.”

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Texto e seleção de imagens: Icterio
Edição: Pássaro de Ferro


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