domingo, 22 de março de 2026

O melhor caça da Luftwaffe em 1944? - [Episódio 6]

 Focke-Wulf Fw 190 “Dora” – Treino e realidade 

(Episódio 6)

A segunda, e final, história desta série, pertence a Heinz Radlauer.  Nascido em 1923, aprendeu a voar em planadores na área de Posen, uma actividade muito popular na Alemanha na altura.  Atraído pela magia do voo, não demorou muito até ser aceite como um promissor cadete na Luftwaffe em Agosto de 1941.  Depois de completar a formação básica no Fliegerausbildungsregiment (Regimento de Treino Aeronáutico) foi destacado para a Jagdfliegerschule 7 (Escola (ou Academia) de Caça 7) em Nancy-Essay, na França, onde voou uma mistura de caças obsoletos, como o Arado Ar 68 e Heinkel He 51, ou capturados, como o Dewoitine D.520 francês.  Em Setembro de 1943 Radlauer, finalmente, recebeu as cobiçadas “asas” e o distintivo de piloto.  Em Junho do ano seguinte deveria receber quatro semanas de instrução avançada no Ergänzungsjagdgruppe Ost (Grupo de Treino Operacional Leste) aos comandos de aviões de primeira linha (Bf 109 e Fw 190) mas a situação dramática da Jagdwaffe encurtou esse curso para apenas 14 dias.  Longe pareciam os tempos dos amenos voos de instrução e acrobacia, agora a ênfase era outra; combate e sobrevivência.  Treino de tiro e manobras de intercepção dominavam o curto currículo, ensinado não por bonançosos instrutores mas por pilotos de caça endurecidos por anos de combate ininterrupto – e com pouca paciência para aturar miúdos ou tolerar erros.  Depois de completar este curso final, Radlauer, que ganhou a derrogatória alcunha de ‘Piefke’ (um termo austríaco para alguém de descendência prussiana), foi colocado na famosa Jagdgeschwader 51, a operar na área de Minsk, na zona centro da Frente Leste.  Promovido a Sargento, era chegada a altura de Radlauer passar da teoria á prática.

Este “Dora-9” da JG 6 acelera numa “pista” relvada, completamente ensopada, carregado com uma bomba SC 250 de 250kg no suporte ventral.  Nas últimas semanas da guerra, com o aproximar das tropas Aliadas, até as unidades de caça eram recrutadas para funções de ataque ao solo e apoio ao exército.   

Aos comandos do rápido e letal Messerschmitt Bf 109G, o jovem piloto rapidamente demonstrou apetência na guerra aérea.  A 7 de Outubro abateu a primeira vitima, um Lavochkin La-5 e, seis dias depois, despachou um Yakovlev Yak-9.  Logo no dia seguinte juntou um Ilyushin Il-2, o célebre “shturmovik”, um avião notoriamente difícil de destruir.  Radlauer parecia bem lançado para se tornar um “ás” mas a situação na frente nas semanas seguintes obrigou a uma incessante série de evacuações pouco ordenadas das bases da JG 51, o que diminuiu as oportunidades de enfrentar o inimigo.  Nos caóticos meses finais do “Reich de Mil Anos” de Hitler, Radlauer transitou para o Fw 190A.  A instrução, ou “conversão”, foi um exemplo de brevidade e exemplifica a situação desesperada da Luftwaffe; enquanto Radlauer se ajustava no cockpit, um funcionário da Focke-Wulf explicava rapidamente a localização dos instrumentos no painel!  E quando a JG 51 recebeu um pequeno número de “Dora-9” em Abril de 1945, Radlauer foi um dos escolhidos para os pilotar, um sinal de confiança nos talentos do jovem ‘Piefke’.  

Desde planadores até ao poderoso Focke-Wulf Fw 190D-9 - Heinz Radlauer posa para a foto durante a rendição em Flensburg.  O seu percurso foi semelhante ao de tantos outros ao serviço da Luftwaffe nos últimos 12-18 meses da guerra; sem promoções meteóricas ou recordes de abates.  No entanto, Radlauer destruiu 15 aviões inimigos, apesar de nenhuma dessas vitórias ter sido alcançada nos escassos doze voos que efectuou aos comandos do “Dora”.

É apropriado concluirmos com a última missão de combate da JG 51.  Recuamos até 1 de Maio de 1945, o dia em que foi anunciada a morte de Adolf Hitler.  Os pilotos concordaram entregarem-se aos Aliados após cumprirem as missões do dia; incluindo uma escolta a caça-bombardeiros perto do lago Schwerin, no Norte da Alemanha, e proteger a retirada dos milhares de refugiados alemães que fugiam da fúria dos soviéticos.  O Tenente Heinz Marquardt iria liderar a formação, um dos melhores pilotos da Luftwaffe e uma lenda na JG 51.  Com um impressionante registo de 121 vitórias em combate (todas na Frente Leste) e detentor da cobiçada Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro, era difícil encontrar maior talento nas fileiras depauperadas da Jagdwaffe, principalmente nestas derradeiras semanas.  Era conhecido como ‘Negus’, devido ao forte bronzeado que ganhou numa temporada como instrutor no Sul de França entre Fevereiro e Agosto de 1942.  E podia-se dizer que a combinação Marquardt e Fw 190D-9 era, no mínimo, poderosa; poucos dias antes, a 24 de Abril, foi-lhe incumbida a simples tarefa de levantar um “Dora” novo na cidade de Prenzlau.  Pelo caminho arrebatou quatro Yakovlev Yak-3!

O piloto responsável de proteger as costas de Marquardt, foi Radlauer, o jovem ‘Piefke’ da Prússia.  Assim, depois de escoltarem os aviões de ataque, os Focke Wulf “Dora-9” patrulharam a área a Norte do lago a baixa altitude.  E é neste momento que são avistados por um grupo de seis Spitfire do Esquadrão 41 da RAF.  A situação já seria séria se fossem os comuns, e letais, Mk.IX, equipados com motores Merlin, mas este esquadrão foi uma das primeiras unidades a receber o poderoso Mk.XIV, motorizado pelo enorme Griffon de 36 litros.  Dois dos Spitfire, pilotados por Peter Cowell e Walter Jallands, mergulharam directos aos “Dora” de Marquardt e Radlauer.  

O fim infeliz de um “Dora-9”.  Uma manobra mal calculada levou o Focke-Wulf até uma vala num aeródromo perto de Rostock a 30 de Abril de 1945.  Sofreu danos ligeiros - aparentemente apenas a hélice de madeira estilhaçada - mas a ausência de peças sobressalentes obrigou á destruição do aparelho para prevenir que caísse em mãos russas.  A desolação na cara de Marquardt, á direita, reflecte bem o seu estado de espírito – e o de toda a Luftwaffe.  Menos de 24 horas depois, Marquardt estaria na cama de um hospital.  O fim da guerra estava próximo.   

Os pilotos Alemães, nesta altura isolados do resto da formação, rompem em direcções opostas; Marquardt corta drasticamente para a direita e Radlauer para a esquerda.  Mas não foi suficiente.  A apenas 50 metros de distância Cowell abre fogo e regista alguns impactos no “Dora” de Marquardt.  O Focke Wulf levanta o nariz quase na vertical, envolto em fumo negro, e depois inverte em direcção às águas do lago Schwerin.  Momentos depois despenha-se contra a margem sudoeste do lago.  Apesar da violência do combate e da reduzida altitude, Marquardt consegue saltar e acabou pendurado com o seu pára-quedas envolto na chaminé de um convento nas redondezas de um hospital.  Radlauer, isolado e rodeado por vários Spitfire, decide retirar-se de cena.  Com o acelerador do seu “Dora-9” plenamente aberto e com o sistema MW50 em débito máximo, deixa os seus perseguidores para trás e ruma directo para a base em Flensburg.  Mais tarde, nesse mesmo dia, todos os sobreviventes da JG 51 renderam-se perante as colunas avançadas Inglesas.  Era, definitivamente, o fim da linha para a Luftwaffe.

Comentando este último combate, o diário do IV./JG 51 regista;

“Contra o destino todos somos indefesos.  Isto ficou demonstrado a 1 de Maio quando o nosso Tenente Marquardt – reconhecido como um dos melhores pilotos do Gruppe – foi abatido por Spitfires sobre o lago Schwerin na derradeira missão da guerra.”

Não deixa de ser irónico; a Focke-Wulf esforçou-se ao máximo para desenvolver, em condições muito exigentes, um caça competitivo face ao melhor que os Aliados ofereciam - e entregou-os em números consideráveis – mas numa altura em que a quantidade e qualidade dos pilotos se revelou drasticamente insuficiente.  E, conforme acabamos de ler, mesmo nas mãos de pilotos de grande categoria, são as circunstâncias externas de cada combate que determinam, quase sempre, quem vive e quem morre.

Mas sobre o Focke Wulf Fw 190D-9 “Dora”, concluímos com as palavras do Kommodore da JG 51, o Major Heinz Lange;

“Nunca esquecerei, era uma máquina fantástica!"

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Episódio 5

Texto e seleção de imagens: Icterio
Edição: Pássaro de Ferro


segunda-feira, 2 de março de 2026

O melhor caça da Luftwaffe em 1944? - [Episódio 5]

Focke-Wulf Fw 190 “Dora” – Treino e realidade 

(Episódio 5)

É natural que a eficiência ou fama em combate de um caça seja perpetuada pelos feitos de pilotos fora-de-série – os chamados “ases” ou experten na língua alemã.  Richard Bong aos comandos do P-38 Lightning, Werner Molders e Erich Hartmann nos do Bf 109 ou Jonhnie Jonhson no Spitfire, são excelentes exemplos.  Mas pode ser também tendencioso basear conclusões apenas nesses factos - nas mãos destes pilotos até um frigorífico com asas seria um caça mortífero!  Apesar dos feitos extraordinários dos “ases”, são os incontáveis milhares de ilustres e anónimos pilotos, muitas vezes pouco treinados e mal equipados, que definem o curso de uma campanha ou a direcção de uma guerra.  Para concluir esta série vamos analisar a experiência de dois jovens pilotos da Luftwaffe, dois desconhecidos, que entraram na guerra na fase mais crítica e desfavorável possível; com pouco treino e recursos e com o desespero da derrota cada vez mais presente.  E é nas entrelinhas destes relatos pessoais que aprendemos ainda mais sobre o impacto, ou não, de aviões como o “Dora”.  Estes testemunhos são a “cola” que transforma os frios dados técnicos, a situação estratégia e as tácticas numa biografia real e sem filtros. 

Este “Dora-9” da JG 26 revela alguns pontos de interesse.  Além do pouco usual tanque externo central de 170 litros é de salientar o lançador em madeira, debaixo da asa, para foguetes ar-ar R4M de 55mm, uma arma habitualmente associada ao Me 262.  No “Dora”, o uso provável destas armas seria em ataques ao solo, um tipo de missão que se tornaria cada vez mais urgente e frequente nos meses finais da guerra. 

Vamos começar por conhecer Gerhard Kroll, um jovem da Prússia Ocidental que se alistou na Luftwaffe em 1941 com apenas 17 anos.  Seguiu a sua formação aeronáutica no Fliegeranwärterbataillon em Strubing e após receber o certificado A/B em Janeiro de 1943 foi destacado para a JFS 1 em Pau-Ost, na França, onde aprendeu voo em formação, acrobacia, navegação e outras disciplinas.  Em Fevereiro de 1944 é finalmente colocado numa unidade de combate operacional, a JG 54 em Bayonne equipada com Bf 109G, em funções Reichsverteidigung (defesa do Reich).  Pouco depois, a 8 de Março, o jovem piloto enfrentou o inimigo pela primeira vez, neste caso bombardeiros B-17 da USAAF, sendo atingido pelo intenso fogo defensivo das “fortalezas”.  Forçado a saltar do avião, Kroll torceu o tornozelo na aterragem e “ganhou” uma semana de licença para recuperar.  Exactamente um mês depois, é novamente atingido em combate mas consegue aterrar de emergência no seu Bf 109G em chamas.  Com queimaduras de terceiro grau, fica hospitalizado até ao fim de Julho.  Em Agosto é destacado para a 1./Jagdgruppe Ost em Sagan para receber formação no Fw 190A e é durante esse período que recebe a triste notícia da morte do pai, também ele militar, num ataque na base onde servia em Halberstadt.  Usufruindo de licença de luto, Kroll recolhe os pertences do pai e atende ao funeral na Prússia.  Sem tempo para chorar a perda, é rapidamente destacado em Setembro para o quarto gruppe da JG 26, em pleno processo de transição para o “Dora-9”.     

Em Março de 1945 o aeródromo do IV./JG 26 em Varrelbusch na Saxónia é devastado por bombardeiros americanos do 3º BG, forçando a evacuação para Bissel, situado a poucos quilómetros ao Norte.  As instalações eram rudimentares; cabanas de madeira e alguns bunkers escavados na terra, mas as florestas circundantes ofereciam boa camuflagem.  No dia 26 quinze “Dora” saíram para uma patrulha ofensiva de caça (freie jagd) para Sudoeste, seguindo o rio Reno entre Rees e Kirchellen.  Gerhard Kroll foi destacado como “asa” do Tenente Wilhelm Heilmann, staffelführer do 15. staffel.  Kroll lembra-se bem desse dia;

“Estava muito nervoso nesse dia.  Sabia que se saísse em missão, alguma coisa iria acontecer.  Estivemos o dia todo em prontidão; pausa e alerta, pausa e alerta.  Dá cabo dos nervos a qualquer um.  Finalmente recebemos ordem para descolar e interceptar um grupo de caças inimigos.  O Tenente Crump liderava sempre as nossas formações porque tinha a melhor visão.  Conseguia identificar o tipo e modelo dos aviões inimigos quando o resto da malta só discernia pontos indistintos no céu.  A descolagem decorreu sem incidentes e o meu líder, o Tenente Heilmann, encostou-se na esquerda da formação.  Mas quando o resto do grupo virou á direita ele virou ainda mais á esquerda, num movimento duplo oposto.  Quando dei por ela, estávamos completamente sozinhos.  Não fazia ideia do que lhe ia na cabeça.  Quando chegamos á fronteira com a Holanda, e ganhamos altitude, percebi que estávamos prestes a ser atacados!  Olhei para baixo e vi 3, talvez 4 Hawker Tempest a subir ao nosso encontro.  Estavam a aproximar-se rápido e a bater os nossos “Dora” na subida.  De repente, o Heilmann vira á direita e mergulha – estávamos feitos.  Os pilotos dos Tempest só tinham de apertar o gatilho…e foi o que fizeram.  O meu “Dora” abanou para cima, para baixo, esquerda e direita com o impacto dos projécteis dos canhões e incendiou-se de imediato.  Isto não foi um “combate” (dogfight) mas sim uma manobra estúpida que acabou por me tramar.  Tentei abrir a canópia mas estava emperrada!” 

Depois da instrução em França e na Alemanha Gerhard Kroll serviu na JG 54, onde voou com o Messerschmitt Bf 109G, e reinvidicou um B-17 (não confirmado) mas, no processo, foi ele próprio abatido pelo fogo defensivo dos bombardeiros.  Posteriormente, foi transferido para a JG 26 onde aprendeu a voar o Focke-Wulf Fw 190A, de motor radial, e uns meses depois, o “Dora-9”.   

“Alguma coisa explodiu na zona frontal, talvez no motor, e levei com o painel de instrumentos na cara.  Por instantes pensei que era o fim, mas sentia muitas dores - sinal que ainda estava vivo.  Consegui forçar a cobertura uns poucos centímetros e a força da deslocação de ar arrancou-a completamente e sugou-me para fora (já tinha entretanto desapertado o arnês).  E lá estava eu, em plena queda livre a 4000 metros, a pensar se o pára-quedas não estaria queimado pelas chamas.  Não arrisquei puxar a corda.  Se estivesse a arder, bastava um “puff” e caia como uma pedra.  Deixei-me cair até ver as árvores bem perto e só então puxei a corda.  Senti o pára-quedas a abrir, um puxão valente, um balanço apenas e bati com o rabo no chão.  O pára-quedas necessita de 75 metros para abrir, por isso calculo que devo ter puxado a corda aos 150 metros.  Foi a terceira vez que sofri queimaduras em combate.  Gritei todos os palavrões!  Não sabia o local exacto da minha “aterragem”, algures a Norte de Bocholt.  Enquanto colocava umas ligaduras do meu kit de primeiros-socorros nas queimaduras na cara – o meu espelho partiu-se na queda – surgiram alguns soldados alemães.  Conduziram-me num Kubelwagen até uma espécie de convento.  Já tinha escurecido e eu estava meio inconsciente.  Só me lembro de uma freira disparatar sobre o cheiro do meu pára-quedas, encharcado de combustível.  Tive de o deixar lá fora.  Não recebi nenhum tratamento mas pouco depois chegou uma ambulância que me levou para um hospital em Haaksbergen, na fronteira com a Holanda.”  

Os ferimentos de Kroll significaram o fim da guerra para o jovem piloto.  Apesar da excelente performance do Fw 190 “Dora”, ou de qualquer outro caça, é a qualidade, a experiência e a agressividade dos pilotos que, invariavelmente, decidem os combates individuais.  

Durante a primavera de 1945 o território nas mãos dos Alemães era pressionado e esmagado incessantemente em 3 frentes.  Tornou-se comum para as caças da Luftwaffe enfrentar aviões Ingleses ou Americanos, e Soviéticos, na mesma missão.  Os termos “Frente Ocidental” e “Frente Leste” tornavam-se redundantes.  Corria a piada entre as tropas Alemãs; “podemos viajar de eléctrico de uma frente para a outra”…   

Em finais de Abril de 1945 até os pilotos mais veteranos da Luftwaffe sentiam a pressão dos alertas incessantes e intensidade crescente das operações.  O Tenente Dortenmann recorda;

“Voar tornou-se uma experiência cada vez mais miserável, até a descolagem era um terror, devido à constante presença de patrulhas de caças Aliados.  A única consolação, e a única coisa que nos ajudava a seguir em frente, eram os cigarros e o álcool.”

Episódio 1

Episódio 2

Episódio 3

Episódio 4

Texto e seleção de imagens: Icterio
Edição: Pássaro de Ferro


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