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quarta-feira, 4 de março de 2015

JAGUARES: Notas sobre a origem do emblema (M1805 - 04RF/2015)



"Há quase meio século, alguns pilotos que foram então destacados para rumar ao ultramar para operar os Fiat G-91 decidiram que era necessário encontrar uma espécie de identidade que os "agregasse" e que conjugasse as suas vontades e porque não as suas interrogações face àquilo que os esperava numa terra estranha.

No espaço de 24 horas, esse "símbolo" que procuraram criar teria de estar concluído, uma vez que era preciso rumar a terra africana rapidamente."



O bocadinho de história que hoje ouso aqui contar, ou recontar, resulta de uma conversa com um dos primeiros pilotos de FIAT G.91 que foram destacados para Moçambique, que me contou quando me mostrava um conjunto de emblemas bordados, que à laia de colecção, foi juntando e que reflectem uma parte significativa da sua vida militar.
Ainda por Lisboa, e constituída a equipe de seis pilotos iniciais da esquadra, e portanto com as ordens superiormente transmitidas e quase prontos a abalar, este grupo de pilotos tiveram de encontrar, ou criar, num curtíssimo espaço de tempo, aquele que se pretendia que fosse um símbolo para a esquadra. Ouvi esta história de um desses Jaguares fundadores, quando me mostrou este emblema ímpar e que, disse, « foi tudo tratado no espaço de um dia». Temos de encontrar um símbolo e um emblema «disse o chefe», o que não era fácil, encontrar um símbolo na forma de um animal que fosse agressivo e simbolizasse a missão, e após a exclusão por partes dos animais mais óbvios porque alusivos à caça ou porque já tomados por outras igualmente aguerridas esquadras, decidiram-se por um felino, como convém, desta feita o jaguar. Falta o mote, alguém diz, logo respondido com um: «vemos no Canto IX,  por lá encontramos de certeza». Só faltava um desenho composto de todos os elementos encontrados. A solução foi encontrada na loja do fabricante de automóveis Jaguar, em Lisboa, não sem uma aguerrida negociação, por lá se conseguiu um dos seus emblemas. Retornado ao comandante da esquadra, o então Ten. Vitor Silva, mostrou a cabeça de jaguar, símbolo da marca inglesa, auferindo o assentimento do “chefe”, imediato que foi. Depois, foi o conseguir que uma senhora bordadeira conseguisse colocar tudo num conjunto, a cabeça do jaguar e o lema: De Nada a Forte Gente Se Temia, bordado com mestria e guarnecido de lantejoulas. Assim foi, no espaço de um dia que se criou mais um símbolo da Força Aérea Portuguesa, o da Esquadra 502 Jaguares.
Ao que julgo ter percebido, foram feitos mais seis emblemas, em tudo semelhantes a este original, um para cada um dos pilotos. Outros emblemas surjem mais tarde, um pouco diferentes.

Os primeiros oito FIAT G.91R/4 chegaram ao porto da Beira a 25 de Dezembro de 1968, desmantelados em contentores, foram montados e dados como operacionais seis dias depois no AB5 Nacala. A Esquadra 502 “Jaguares” foi criada em Janeiro de 1969, tendo inicialmente como pilotos:
Capitão Piloto-Aviador Fernando Fernandes (Jaguar-Mor)
Tenente Piloto-Aviador Manuel Bessa
Tenente Piloto-Aviador Rui Movila de Matos André
Tenente Piloto-Aviador Edgar Cardoso da Costa
Tenente Piloto-Aviador Vitor Manuel Rodrigues da Silva
Tenente Piloto-Aviador Costa Joaquim

Alguns dos primeiros FIAT G.91 da Esquadra 502 “Jaguares”, numa escala em Lourenço Marques, mostrando os primeiros jactos de combate naquela, então, província ultramarina. Na foto (da esquerda para a direita), os pilotos: Cap. Fernandes, Ten.André, Ten. Costa Joaquim, e Ten. Vitor Silva. À esquerda destes o Cap. Quaresma (da Secção de Transportes) e o filho.

Agradecimentos: Cor. Vitor Silva, Gen. Vizela Cardoso, Cor. Arnaut Monroy, e Gen. Conceição e Silva.

sábado, 24 de maio de 2014

MEMÓRIAS DUM MECÂNICO DE ALOUETTE EM ÁFRICA - 1 (M1595 - 170PM/2014)

O Alouette III sobre a estepe africana

Fui ao jantar dos Índios (NR: Esquadra 503 - Moçambique) em Monsanto em 2004, o meu primeiro encontro com muitos elementos da esquadra que não via há muito tempo. Alguns havia 28 anos.
Entrei, começo a olhar. Quem é quem? É? Será?...
Alguns vou reconhecendo: Queiroga, Azevedo, Braga, Barbosa, Branco, Carreira (que já tinha encontrado em Sesimbra no Verão de 80 e nunca mais nos vimos), Branco que encontrava muitas vezes no cacilheiro) Magalhães, Tavares, Mourão, Oneto, Ferreira Neto e muitos elementos que não reconhecia...
Distribuímo-nos  pelas mesas e oiço o meu amigo Oneto a dizer : "Abdul, passaram-se muitos anos, procurei por ti e nunca soube onde paravas... queria dizer-te uma coisa, que ainda hoje está aqui guardado. Tenho a dizer-te: nunca vi uma pessoa com tanta coragem, como tu tiveste numa evacuação que fizemos na picada do Sagal. Ainda hoje estou a ver-te a andares na picada, com a maca debaixo do braço e debaixo de fogo. Os paraquedistas tinham caído numa emboscada e tinham um elemento ferido,  que foste buscar.  Com um "pára" que estava intrincheirado, os dois meteram o ferido na maca e carregaram-no até ao helicóptero. Nunca vi um ato de coragem tão grande."

Depois de ouvir o que ouvi, pensei "eu fiz isto?!" Fiz tantas evacuações, fui a tantos buracos, a tantas picadas fazer evacuações... Aliás nunca fui sozinho, tinha de ir com um piloto. O risco era sempre dos dois. Passados dias fui à minha caderneta de voo, procurei a data dessa evacuação que foi a 9 de agosto de 1974  (Mueda - Picada do Sagal - Mueda; 15 minutos). Está registado que no dia 9 de agosto fizemos voos operacionais (evacuações) de Mueda para Sagal e volta.

Meu amigo Oneto: se houve um ato  heróico da minha parte, esse ato não foi só meu, mas também teu. Meu por lá ter ido buscar o ferido e teu por estares dentro do helicóptero, à espera. Eras um alvo fácil e durante o tiroteio podias ter sido atingido. Felizmente nada aconteceu. "Alguém" nos protegeu e cumprimos com a nossa missão, que era salvar mais uma vida...
Tinha a minha caderneta de voo bem guardada. Quando lhe mexi, ao ler as datas e locais para onde voei, as recordações começaram a surgir e… vou passar para o papel todos os momento que posso recordar.

Novembro de 1971, estava eu em Lourenço Marques, depois de ter estado dois anos letivos em Tomar. Na conversa com um dos muitos alunos da Escola Industrial, decidimos ir para a Força Aérea Portuguesa (FAP). Queríamos tirar o curso de mecânico de aviões. Esse era o nosso sonho.
Fomos buscar as papeladas e falei com o meu pai, dizendo que queria ir para a FAP pois queria ser mecânico de aviões. Como já tinha os papéis preparados, assinou mas foi dizendo que não gostava muito da ideia.
Em Dezembro desse mesmo ano, fui à inspeção e em Janeiro de 1972, partimos para a Beira para a BA10, onde estivemos uma semana à espera de embarque para Portugal. Depois de uma semana à boa-vida, embarcámos no Boeing 707 da FAP. Nesse voo, veio pessoal que já tinham feito a comissão, outros que iam de férias e uma série de feridos que estavam a ser evacuados. Chegámos a Lisboa de madrugada e numa carrinha, fomos para a Base Aérea nº2, Ota. 
Aí começámos a recruta e em Março fizemos Juramento de Bandeira. Entrámos uns dias de férias e no regresso, sei que não vou para o curso que tinha pedido. Enviaram-me para o curso de comunicações. Chumbei logo no 1º período, pois não conseguia apanhar morse, aquela coisa de traço ponto, ponto, ponto traço etc.

O curso de Mecânicos de Material Aéreo na BA2

Acabei por ir para o que queria, o curso de MMA (Mecânico de Material Aéreo). No fim do curso, em maio de 1973, venho a saber que tinha ficado em 45º lugar entre 60 elementos. Então não?! Pouco estudava, queria passar fins de semana em Lisboa e matava muitos" reforços" (serviço de sentinelas que os instruendos tinham de fazer). Assim ganhava umas coroas.

Tal como os últimos quinze elementos, tinha de ir tirar o curso de helicópteros. Fiquei magoado. Fiquei chateado. Não queria ir para os helicópteros, pois nessa altura ou um pouco antes, tinha sido abatido um helicóptero em Moçambique com seis comandos a bordo. Nessa noite, depois do jantar fui para o bar apanhar uma piela e só dizia "esses fdp querem mandar-me para a morte", até que tive de ir para a cama completamente "anestesiado".

De volta do Artouste IIIB na BA2

Passados dias, lá nos enviaram os quinze para as OGMA em Alverca. Já estava mais perto de Lisboa. Não sei porquê, comecei a gostar de conhecer o Alouette III (ALIII) e fui interiorizando o gosto pela máquina. Fiquei em segundo lugar e houve quem chumbasse, pois não queriam nada com essa máquina. Penso que fomos dez elementos estagiar para BA3 em Tancos. Uns foram para a manutenção, outros para a linha da frente durante uns tempos. Depois  trocávamos. Fui para a linha da frente primeiro, onde conheci muitos mecânicos que já tinham feito a comissão, por isso já tinham bastante experiência. Ouvi muitas histórias. Histórias do que o mecânico e o piloto passavam durante o voo. Comprei um bloco de bolso e "encostei-me" ao mecânico Raimundo, que ao princípio não queria ensinar os segredos da máquina, mas lá acabei por o convencer. Ensinou-me todos os segredos que sabia. Eu fartava-me de tomar nota dos tipos de avaria, o que deveria saber e as causas.
Geralmente as avarias eram no arranque.

Depois do estágio fui colocado no Montijo à espera de embarque para Moçambique. Acabei por embarcar no dia 9 de outubro de 1973 e chegar (a Moçambique) a 10 de outubro. 

Com o curso de manutenção e linha da frente de ALIII e Artouste IIIB (motor) e com o meu bloco de notas, estava pronto e convencido que iria parar a Tete ou a Nacala. 
Entretanto, enquanto espero colocação e estou sem fazer nada na BA10, para matar tempo vou indo ao hangar onde estavam dois helicópteros e começo a conversar com o mecânico que lá estava, o Carlos Alberto, mais conhecido por Joe, a quem tinha dito que tinha o curso de helicópteros. 
Num domingo o Joe vem à minha procura e pergunta-me se queria ir voar. Fazer uma evacuação. Eu disse logo que sim e não pensei em mais nada. Fui voar. Estava nas "minhas sete quintas". 
Fomos para a Cabeça de Carneiro e depois para uma largada de tropas. Isto com dois helicópteros. Passado um bocado, vem um com um cadáver de um soldado, que tinha levado um tiro na nuca e a parte da frente do pescoço tinha desaparecido. Quando vi fiquei impressionado. O Joe veio ter comigo e disse para me ir habituando que isto não era nada. 
Trouxemos o morto até à Beira.

(Continua)

Texto: Abdul Osman, Ex-MMA

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