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sábado, 14 de dezembro de 2013

SERÁ QUE A CÚPULA DO PAIGC QUERIA GANHAR A GUERRA? (M1321 - 385PM/2013)

BA12 - Bissalanca com um C-47 em primeiro plano e linhas de G.91 (esq), ALIII (dir) e T-6 (2ºplano)

Isto de escrever para um sítio de internet tem que se lhe diga. Aos poucos vamos criando os nossos hábitos e raízes e por outro lado os camarigos (NR: conjugação das palavras "camarada" e "amigo") também nos vão catalogando conforme as nossas ideias e a nossa maneira de escrever, bom, mau, rambo, realista, esquerdista, salazarista, desbocado...
Pela minha parte, tenho feito os possíveis por me manter fiel ao que vivi na Guiné, contando factos e tentando justificar as minhas opiniões com coerência e sem grandes floreados ou divagações.
O que não impede de por vezes me caírem em cima, não pelo cerne da questão, mas por pequenas ninharias, se disser que “quatro é igual a dois mais dois”, alguém refila, que não senhor, que a minha visão está deturpada, a verdade verdadeira é que “quatro é igual a cinco menos um”. Feitios.
Mas tenho que reconhecer que às vezes também é bom dizer umas m&#@s sair das baias do dia-a-dia, entrar no disparate, gritar umas inconveniências, partir a louça, que a vida são dois dias e de tristezas já está o mundo cheio.
E para defender este meu ponto de vista, já lá dizia um português dos imortais que “mais vale experimentá-lo que julgá-lo”, não vos estou a dar nenhuma novidade, mesmo que nunca tenham lido o Camões já todos certamente “o experimentaram”.
Até porque tudo isto também é importante para a satisfação do nosso ego, anda por aí um alemão a ver se nos cala (o Alzheimer), qualquer dia já nem nos lembramos de como se atam os sapatos.
Tinha que dar esta introdução, um pouco longa, porque hoje resolvi pôr em cheque a minha pequenina reputação e avançar para o desconhecido... nada de factos devidamente comprovados... só suposições, bocarras de fazer tremer as paredes, só teorias disparatadas e ideias malucas.

Dos que quiserem afrontar a coisa depois que ninguém se corte, que aqui não há pegas de cernelha, todos entram de caras, os comentadores de serviço, os ideólogos e pensadores, os estrategas, passando igualmente pelos historiadores, pelos rambos, pelos normais e anormais, os que sabem tudo e os que só sabem que nada sabem, enfim, os que passaram por terras da Guiné e que ainda gostam de pensar com as suas cabeças.
Se já estão bem instalados frente ao computador, limpem os óculos, apaguem o cigarro antes que engulam a cinza, ponham a mulher, filhos e eventuais netos com destino e preparem-se para o embate.
E a pergunta que faço é a seguinte:

Será que os políticos do PAIGC queriam ganhar a guerra?

OK, já estou a ver a vossa cara de espanto, semblante carregado e testa enrugada, surpresos, “o gajo passou-se”, “foram os cortes do Governo”, “ o FMI”, “ o Sporting que só lhe dá desgostos”... e por aí fora.

Tenham calma, não me julguem antes que as minhas ideias possam ser passadas ao papel e devidamente lidas e interpretadas pelas vossas mentes iluminadas.
Deixem-me explicar as minhas teorias, se no fim chegarem à conclusão que me fartei de dizer asneiras, atirem-me com um cartão vermelho directo, cartões amarelos já não me causam mossa, passei a vida a coleccioná-los.

Estão prontos? Cá vai:

O PAIGC, Partido para a Independência da Guiné e Cabo Verde tinha duas correntes de funcionamento, os guinéus a vergar a mola, de bolanha em bolanha, umas vezes emboscando, outras vezes emboscados, vida difícil…
A outra corrente, os cabo-verdianos a angariar apoios, Nova Iorque, Estocolmo, Moscovo, até foram a Roma visitar o Papa... vida difícil...
E todos eles sabiam (uns e outros) que no final, quando os portugueses se cansassem da guerra e abandonassem a Guiné, uma “outra guerra” iria começar, a luta interna pelo poder e pelas suas mordomias (parece que passados estes 39 anos ainda não acabou)!!!

Os guerrilheiros do mato, essencialmente balantas, manjacos e mandingas estariam mais que desejosos de ver o fim da guerra, eram sempre os mesmos, a fonte de recrutamento era bem escassa.
O dia-a-dia do PAIGC sempre foi incerto, por um lado conseguiam saber dos movimentos da nossa tropa quando esta saía dos quartéis, podendo assim avaliar as forças em presença e, num jogo de gato e rato, calcular se podiam ou não enfrentar-nos.
Por outro lado nunca conseguiam adivinhar para onde se dirigiam os aviões G-91 que todos os dias descolavam de Bissalanca a fim de largar uma série de bombas numa das chamadas “zonas libertadas”.

Ao contrário do normalmente apregoado, os guerrilheiros do PAIGC não podiam ser muito populares junto das populações.
Os comissários políticos iam falando de uma Guiné livre mas, para além de retórica, nada mais ofereciam, antes pelo contrário, “roubavam-lhes” os parcos víveres e levavam à força os jovens em idade de combater.
Do lado do opressor, o nosso, entre outros apoios, respondíamos às suas questões através dos “Congressos do Povo”, dávamos-lhes armas para se defenderem e assistência médica H-24, por sinal bem superior à que tinham (e ainda hoje têm) os habitantes de Trás-os-Montes.
Sim, que eu deixei algumas vezes de almoçar para ir buscar uma parturiente ou um doente a Susana ou Cacine ou Buruntuma.

Que fique “clarinho clarinho” como costumam dizer os militares, a “Guiné Libertada” não passava de uma utopia, o pessoal do PAIGC tanto morria no meio da bolanha e em combate contra as tropas portuguesas como a descansar nas ditas “zonas libertadas” do Morés, Caboiana ou Cantanhês, só eram “libertadas” enquanto os portugueses não fizessem intenção de lá ir.
Como exemplo do que acabo de afirmar, o Cantanhês, dizia o PAIGC ser uma área totalmente controlada e onde até planeavam declarar a independência.
Quando em finais de 1972 Spínola resolveu reocupar aquele território e lá estabelecer 3 novos quartéis (Cafine, Cadique e Caboxanque), logo se acabou essa coisa de “zona libertada”, a população fugiu, mas logo voltou, até gostou da mudança, os guerrilheiros é que tiveram que atravessar o rio Cacine em passo de corrida.

Igualmente em Setembro de 1973, quando o PAIGC declarou a independência supostamente nas terras libertadas de Medina do Bué, os intervenientes estavam num outro local, bem escondido e ao abrigo de um eventual ataque aéreo.
Certamente estariam para lá da fronteira, não podiam arriscar ser detectados e pôr em perigo a vida dos seus convidados, até porque já tinham tido essa má experiência.
No ano anterior e durante a visita de uma delegação da ONU, tinham passado as passas do Algarve para se safar da enrascada, com os pára-quedistas no seu encalço.
Por outro lado e ao contrário do que normalmente consta, o PAIGC não era bem recebido no Leste da Guiné, já que os fulas nutriam uma maior simpatia pelos portugueses.

No Bué e por mais que procurássemos naquelas terras desérticas nada encontrámos que pudesse indicar a preparação de uma cerimónia.
Comparando as fotos tiradas na altura com as de tempos anteriores, tudo continuava igual, sem o mais pequeno vestígio de qualquer movimentação.
Não contentes com as fotos, os nossos amigos Páras ainda tinham ido ao local, dar uma mirada, não enxergaram nem vivalma, tudo continuava como havíamos deixado.
Na eventualidade de ainda aparecer alguém por aquelas paragens, acabámos por lá deixar uma prenda, uma daquelas louças típicas das Caldas (não é gozo, é a mais pura das verdades, há fotos a comprovar).

Não sei se os camarigos sabem mas nós dispúnhamos de cobertura fotográfica de toda a Guiné, renovando-a periodicamente e assim descobrindo as diferenças existentes entre fotos tiradas no mesmo local mas em tempo diferente. Trilhos, tabancas, machambas, cambanças...
Este reconhecimento fotográfico era maioritariamente feito pelo avião Dakota e posteriormente interpretado por uma equipa especializada da Base.
Os voos do Dakota até acabaram por ficar registados em filme, conforme aparece na série “ A Guerra” do jornalista Joaquim Furtado. Na área do Morés vê-se de súbito a população da dita “área libertada” a refugiar-se por causa da aviação.
E por entre a folhagem das árvores lá se vê passar o pachorrento Dakota, nada de agressivo, tão só a fazer umas fotos.

Todo este palavreado para chegarmos à conclusão de que a Força Aérea seria a principal causa do desconforto do PAIGC.
Para se furtarem aos G-91, Heli-canhão, T-6 e até por vezes o DO-27 com foguetes nas asas (ideia bem parva de um qualquer iluminado), só para lá das fronteiras é que podiam garantir o estar em segurança e sem receio de serem bombardeados.

Passo seguinte, se a FAP era o calcanhar de Aquiles, como a neutralizar?

Lá chegamos aos STRELAs e aos MIGs.
Dos STRELAs já aqui se falou algumas vezes. Asseguraram os comissários políticos (PAIGC) à população que nunca mais seriam bombardeados e, no entanto, nunca e em tão curto espaço de tempo tantas bombas caíram sobre as suas cabeças.
Algumas dessas equipas de mísseis fora mesmo pulverizadas pois, ao dispararem da orla da mata, acabaram por permitir o referenciar das suas posições.
Constou-nos igualmente que algumas das equipas dos STRELAs acabaram por ser "averbadas" pela própria população, descontentes com as promessas entretanto feitas e não cumpridas.

Com os MIGs foi uma outra história, agora é que ia ser... ia do verbo ir... nunca ninguém os viu e nunca nada aconteceu!!!
E pronto, não conseguiram descortinar mais nada, soluções esgotadas.
É neste ponto que chegamos ao vértice da questão.

Então não havia outras maneiras de tentar aniquilar a FAP?
Deixem-me por momentos envergar a camisola do PAIGC e planear medidas contra os Tugas:

MEDIDA 1
Todos os dias e sempre à mesma hora (19:00), um autocarro Mercedes tipo TP21 saía da Base de Bissalanca em direcção a Bissau, transportando os pilotos que quisessem ir jantar ao Pelicano ou Solar do Dez, ou às ostras...
Quantos pilotos seguiam no autocarro?
Umas vezes 8, ou 13, ou 17, dependia da qualidade do jantar na base. Carne ainda a coisa aguentava, se fosse peixe dava um autocarro cheio.
E todos os dias à mesma hora (21:00) o autocarro regressava à Bissalanca.
O local para um possível encontro, a estrada entre a Base da Bissalanca e o quartel mais próximo, uma recta de uns bons dois quilómetros de completa escuridão, tabancas de um lado e do outro.
Agora imaginem três guerrilheiros devidamente fardados de paisanos e uma bazuca, um deles a ver se o autocarro vinha cheio, caso contrário adiava-se a coisa para o dia seguinte, outro a municiar e outro a apontar e disparar.
E no fim até podiam deixar a bazuca de prenda e ir comemorar o resto da noite ali ao Pilão, era bem perto.
Já perceberam porque razão comprei uma moto? 

MEDIDA 2
Eu e a maioria dos pilotos de G-91 morávamos em Bissau.
Por vezes acontecia que, já noite cerrada, alguém me batia à porta.
Abria-a com a mesma ligeireza com que abro a porta da Pensão Montanha quando vou ao cozido da
Dona Preciosa (NR: Almoço mensal em que se reúnem antigos combatentes da Guiné em Monte Real)
Uma das vezes apareceu-me um jovem africano a pedir dinheiro para livros de francês, disse ele “quando vocês forem embora o francês passa a ser mais importante que o inglês”, o rapazito até sabia de política internacional.Imaginem, se em vez do estudante aparecesse o...

MEDIDA 3
Que raio de ideia quererem MIGs, isso era material demasiado caro.
Receita bem mais económica, uma "avioneta" das mais vulgares, daquelas que não custavam mais que o Mercedes do delegado do PAIGC em Nova Iorque, um piloto (dos mercenários do Nigéria/Biafra, não eram caros), um voluntário para fazer de ajudante e uma caixa de granadas.
Descolagem ao entardecer, de Ziguinchor ou de Boké, navegação calma e suave com o apoio das luzes dos quartéis dos tugas, evitar a Base Aérea que tem antiaéreas, chegada a Bissau já de noite, largada da carga uma a uma, alvos preferenciais, os depósitos de combustível da SACOR, o CG, o Palácio, o Solar do Dez... o granel na cidade.
E se não tivessem granadas, podiam largar tijolos que o efeito seria muito semelhante, os voos da TAP para Lisboa esgotavam-se nos meses seguintes.

Sem querer alargar-me mais, qualquer destas três medidas podia acabar rapidamente com a guerra.
Tudo o que acabo de dizer tem um denominador comum que dá pelo nome de “Terrorismo Urbano”, utilizado no Vietname, Argélia, Cuba, País Basco... enfim, em todos os locais onde a vontade da população em correr com o opressor é grande.
Por que razão nunca aconteceu na Guiné?
Alguém sabe?
Será que os guinéus em Bissau se sentiam bem com os portugueses ou, pelo contrário, queriam ver-nos pelas costas?
E as populações do mato?
E a população de uma tabanca da qual já não me lembro o nome, onde fui buscar um jovem a quem os curandeiros da aldeia já nada sabiam o que fazer para o salvar, e que, duas semanas depois, tive o privilégio de voltar a devolver à tabanca, fresco que nem uma alface e já sem o apêndice.
Alguém acredita que aquela população nos queria ver pelas costas?

E havendo tantos cabo-verdianos no PAIGC por que razão não havia terrorismo em Cabo Verde? E nos Bijagós?
Vão-me responder que era por serem ilhas? Bah, que falta de imaginação!!!
Então os pensamentos e vontades do PAIGC eram alimentados pelo povo local ou tinha a ver com coisa importada?
Terá sido por isso que já depois do 25 de Abril e nas cerimónias de entrega de vários quartéis, grande parte dos guerrilheiros só falava francês?
E todos estes nossos camarigos que nos dias de hoje vão à Guiné e são recebidos de sorrisos abertos, será que ainda não perceberam que eles sempre gostaram de nós?

Estas e outras questões seriam interessantes para conversar com os nossos amigos, os antigos membros do PAIGC.
Perguntas que provavelmente ficariam sem respostas pois que, passados todos estes anos e apesar de um franco diálogo (dizem), continuamos sem conseguir saber como foram os acontecimentos vistos do seu lado.
Como resultado da democracia por lá instalada, os nossos amigos afectos ao PAIGC leram todos pela mesma cartilha, a versão oficial diz que para eles só houve vitórias sobre vitórias, esquecendo algo importante, que as derrotas também podem ajudar a unir um povo.
E se alguém duvida destes comportamentos, basta ler as últimas páginas do livro do Cor Calheiros “a Última Missão”, contêm um depoimento do Comandante Manuel dos Santos, “Manecas”, Comissário Político da Zona Norte.
Neste texto e a propósito da operação dos Comandos Africanos a Cumbamori, afirma que o que é relatado pelos nossos militares, o armamento e os paióis destruídos, as baixas sofridas, tudo isso não passou de pura fantasia e que a operação Ametista Real em nada os afectou.
Nós reconhecemos termos tido inúmeras baixas, eles zero, nicles, null, népia...
Enfim, opiniões!

Em resumo, andámos nós e eles (os militares) a peneirar anos e anos pelos buracos da Guiné enquanto que nós e eles (os políticos) andaram a sofrer as agruras da guerra pelas salas de conferência dos Hotéis de 5 estrelas.

O 25 de Abril acabou por mudar as variáveis.

Para os militares (os portugueses e os balantas, manjacos e mandingas) significou o fim dos combates, nós fartos, rodávamos a tropa de dois em dois anos, eles bem pior, eram sempre os mesmos.

Para os políticos foi o fim de muita coisa.
Do nosso lado uns partiram para um exílio dourado, enquanto outros regressaram de um exílio dourado.
Para os nossos políticos o trabalho seguinte foi fácil, independência para todos já, quer queiram quer não queiram.
E foi o que se viu, até os que não queriam ser independentes (S. Tomé) tiveram que se chegar à frente.

Aos políticos do PAIGC a transição foi bem mais difícil.
A partir desse dia tiveram que regressar à Guiné, deixaram o papel de “Executivos” e passaram verdadeiramente a arriscar a vida, tentando passar por entre as gotas da chuva, sobreviver aos vários “ajustes de contas”, aos golpes e contragolpes, até só sobrarem os “Eleitos”.
Passada essa fase má (já passou?) o democrata Nino Vieira lá acabou por correr com os políticos cabo-verdianos do PAIGC e, de golpe em golpe, a Guiné lá se tem conseguido transformar em país charneira para o tráfico de droga.

E os políticos que sobreviveram a tudo isto, devem andar a pensar:
“Estávamos tão bem sem termos que ganhar a guerra...”

Um abraço,
António Martins de Matos
Ten Pilav da BA12


NOTA: As memórias do Gen. Martins de Matos foram publicadas no livro "Voando sobre um ninho de Strelas" disponível através da loja do Pássaro de Ferro


sábado, 7 de dezembro de 2013

O DESTACAMENTO DE NOVA LAMEGO (M1310 - 377PM/2013)

Durante as próximas semanas, o Pássaro de Ferro vai dar continuidade aos "Sábados históricos", agora com um novo convidado, que aceitou partilhar algumas das suas experiências como Piloto Aviador:

António Martins de Matos, brevetou-se em 1969 em T-37C na Força Aérea Portuguesa. Tornou-se piloto operacional em 1970, tendo voado o F-86F até 1972, quando foi colocado na Guiné. Aí voaria o Fiat G.91 e Dornier DO-27, em comissão que durou até 1974. Regressou à Metrópole e a Sintra para ser instrutor de voo, reencontrando o T-37C (entre 1975 e 1982), tendo feito parte também da patrulha acrobática Asas de Portugal.
Entre 1982 e 1985 esteve na BA5 em Monte Real, onde foi Comandante da Esquadra 103, que operava então os T-33A Shooting Star  e T-38A Talon. De 1995 a 1997 foi Comandante da BA11 em Beja e entre 2003 e 2006 Comandante Operacional. Reformou-se com a patente de Tenente General, tendo acumulado um total de 4112 horas de voo.
A título de curiosidade, refira-se ainda que o Ten. Gen. António de Matos foi um dos comentadores da série documental exibida na RTP, da autoria de Joaquim Furtado, "A Guerra". 
Era também o piloto que estava em alerta no dia em que o então Ten Miguel Pessoa, foi abatido por um míssil terra-ar na Guiné, episódio contado no artigo do Pássaro de Ferro "Os dias do Strela".

O DESTACAMENTO DE NOVA LAMEGO

 ou Recordando o  TCor Almeida Brito

DO-27 em Nova Lamego     Foto: Col. António de Matos

É por todos reconhecido que a Guiné tem apenas uma pequena superfície, ainda assim são cerca de 200 quilómetros entre Bissau e Buruntuma, um voo de DO-27 ou AL-III entre estas duas localidades demora cerca de hora e meia, três horas para ir e voltar.
Foi com base nesta evidência que, durante a guerra colonial, a FAP acabou por decidir estabelecer um destacamento em Nova Lamego, duas aeronaves, respectivos pilotos e mecânicos, um meteorologista e um responsável pelos bidões de combustível necessários para as missões.
Pretendia-se com este núcleo dar uma maior prontidão às evacuações de feridos e doentes do Leste da província.
O mais graduado dos militares assumia o pomposo título de “Chefe do Destacamento”, oficialmente passava a ser o representante da FAP no Leste, nada que se deitasse fora, fosse ele Alferes ou Furriel, era como se fosse equiparado a Tenente-coronel.

O destacamento funcionava com um carácter permanente, o pessoal ia rodando e sendo rendido semanalmente.
O trabalho por ali acabava por ser um pouco rotineiro, o Coronel Comandante da Zona Leste tinha à sua disposição 15 horas de voo semanais por cada uma das duas aeronaves, para usar como entendesse na sua área de operações, uma vez gastas essas horas as aeronaves já só faziam evacuações.

E, verdade se diga, não havia muitos locais onde ir, o que normalmente acontecia ao longo da semana era uma saída para norte, visitando Paunca, Pirada, Bajucunda e Canquelifá, uma outra para sul com passagem em Canjadude e Cabuca, eventualmente uma terceira a Piche e Buruntuma.
Para os pilotos a melhor situação era deixar o Coronel alargar-se a gastar rapidamente essas tais 15 horas, como a guerra no Leste era ligeira e poucas evacuações ocorriam, apenas umas parturientes, uns apêndices e um ou outro braço partido, o resto da semana transformava se num “dolce fare niente”.

No entanto e aqui que ninguém nos ouve, os destacamentos continham algo de preocupante, já para não dizer de muito perigoso, o pessoal envolvido acabava por ficar totalmente fora do enquadramento normal, apenas entregues aos seus conhecimentos, vontades e loucuras.
Grande parte das histórias malucas sobre aviadores que se contam pela blogosfera ocorreram durante destacamentos, e não foi por acaso que a maior parte dos acidentes que a FAP sofreu na Guiné aconteceram igualmente durante esses períodos.
E deixem-me dizer-vos, fico de cabelos em pé quando oiço alguém contar histórias do A ou do B que voavam de porta aberta ou aos loopings ou com uns whiskies no bucho, ou... estes pilotos não deviam nem podiam ser admirados, deviam antes ser referenciados e punidos, não por arriscarem as suas vidas, mas sim por arriscarem as vidas de outros que, sem possibilidades de escolha, acabavam por ter que confiar neles.
Na minha comissão lembro-me de dois destes acidentes, um em Pirada (11-5-72) e outro em Bafatá (12-8-72), dois pilotos na flor da idade que morreram, dois aviões destruídos por “pardaladas aviadoras” e, custa dize-lo, dois Cabos mecânicos, o José Valoura e o António Madeira, não tinha que ser o seu dia, razões mais que estúpidas para se morrer ao serviço da Pátria.

No sentido de se tentar pôr um travão à indisciplina de voo e controlar o modo como as missões se iam desenrolando, de tempos a tempos o destacamento passava a ser comandado por um piloto mais experiente, do QP, verificação in loco de que tudo estava a decorrer de acordo com as Directivas promulgadas.

A introdução já vai comprida, passemos à história.
Alguém veio ter comigo para me dar um recado, chamavam-me ao gabinete do Tenente Coronel, Comandante do Grupo Operacional, não era habitual os Tenentes irem falar directamente com os Deuses, coisa boa não devia ser. Apenas um parêntesis para recordar que este Tenente-coronel iria mais tarde ser recordado pelos militares da FAP como um dos seus heróis, abatido por um míssil Strela a 28 de Março de 1973, o seu nome José Fernando de Almeida Brito.

Homem grande e forte, de poucas falas mas sem papas na língua, foi com ele que aprendi a voar DO-27, usava um fato de voo bem desbotado de tantas lavagens, naquela indumentária já dificilmente se conseguia descortinar o seu nome ou o posto.
 Amiúde fazia inspecções às pistas do mato, dava um certo gozo acompanhá-lo, por vezes os menos atentos tomavam-no por um mero “sargento barrigudo”, quando se apercebiam do equívoco já era tarde, não estivesse a pista nas devidas condições e... ia tudo à frente.
Dizia o que tinha a dizer, doesse a quem doesse, pouca gente o viu sorrir, o homem era daqueles que oscilavam entre o sério e o muito sério. E, para que fique claro, deixou muitas saudades.

Apenas chegado ao seu gabinete, logo me disse de rompante:
- “Ó Matos, venha cá, vai fazer um destacamento a Nova Lamego!
Há por lá uma data de chatices, é verdade que ultimamente só temos mandado Furriéis, aquilo está a precisar de entrar nos eixos, vai por uma semana, parte amanhã”. 

E pronto, nem "ses" nem "talvezes", nem "okeis" que, como já referi, o homem era de poucas palavras, as ordens dele não se discutiam, eram para se cumprir.
Só que não me disse que chatices se teriam passado e eu não podia ir assim no escuro, tinha que saber mais qualquer coisa, ainda fui perguntar aos Furriéis, certamente deveriam saber o que tinha corrido mal, não se descoseram, deveriam estar comprometidos com qualquer coisa.
Finalmente o Cabo que me ia acompanhar no destacamento acabou por me pôr um pouco ao corrente das últimas novidades (os Cabos sabiam sempre tudo), o pessoal do Exército estava em ascendente, já punham e dispunham do avião como muito bem entendiam e, para o cúmulo, um Major acabara de participar de um dos pilotos, só porque o rapazito tinha chegado cinco minutos atrasado à hora estipulada para a partida de um dos voos. 

OK, os dados estavam lançados, recapitulando, ter atenção ao que estava estipulado em termos de Directivas, ter atenção aos horários e identificar e não mais perder de vista o tal Major. 

Na manhã seguinte lá me preparei para o destacamento, a saída de Bissau seria logo ao início do dia, um DO-27 e o meu Cabo mecânico, verificação junto do Serviço da Carga sobre o que havia a transportar, apenas três passageiros e uns caixotes.
Só que um dos passageiros era... Major!
E não é que o passageiro Major, sem ninguém lhe perguntar nada e completamente a despropósito, resolveu mostrar serviço, entrar pelo bar dos pilotos adentro, a perguntar alto e bom som, quem é que ia com ele para o GABU?
- “Senhor Major, aqui ninguém vai consigo, o senhor é que vai comigo”, toma lá que já almoçaste.
Logo o Cabo a falar-me ao ouvido, “Este Major é um pouco desbundado mas até é porreiro, o mau é um outro…”.
Pronto, ok, tudo bem, mas, pergunta de periquito, afinal quantos Majores havia lá pelo Gabu?
Manga deles, que o mau até era fácil de identificar, andava de bota alta e pingalim.
Ok, já tinha planeado que este Major haveria de ir sentado lá atrás no meio da carga, convidei-o a sentar-se ao meu lado, durante o voo fizemos as pazes.
Viagem sem problemas, quem foi o tonto que disse que na Guiné não havia nevoeiro, o que vale é que o AL-III ia à frente e tinha um modo óptimo de o afastar.

Apenas chegados a Nova Lamego e logo a prioridade maior se revelava, parquear as aeronaves em condições de segurança.
Existiam dois locais perto da pista, ambos protegidos por bidões cheios de terra, era aí que estacionavam o DO-27 e o AL-III, os mecânicos tratavam de os abastecer a fim de no dia seguinte apenas ser necessário uma simples vistoria antes do primeiro voo.
E ali todos ajudavam, se houvesse uma bomba eléctrica de combustível o abastecimento levava 10 minutos, caso contrário algumas horas, só depois dessas tarefas completadas se iniciava a seguinte, a instalação do pessoal. 

Ao que parece haveria dois quartos disponíveis algures junto ao pessoal do Exército, só que os da FAP tinham por hábito dormir junto das aeronaves, uns alojamentos situados junto a um abrigo, daqueles construídos com o auxílio de grossos troncos.
Não era grande coisa, dois compartimentos minúsculos, demasiado quentes e a cheirar a Lion-Brand, banho racionado e ao ar livre, funcionando com o auxílio de bidões de água colocados estrategicamente sobre o tecto dos quartos.
Confesso, teria preferido o quarto lá do quartel, mas os “cabos velhos” insistiam que, além de mais operacional, era muito mais agradável o acordar por aquelas paragens.
Com aquela “boca” de ser mais operacional calavam-me, só que os seus olhares cúmplices e sorrisos matreiros, indicavam que deviam de me estar a preparar alguma...
Mesmo assim acabei por ceder e lá nos instalámos.
Aeronaves estacionadas e mochilas nos locais de pernoita, passo seguinte apresentação ao Coronel, saber o que nos estava destinado para o dia seguinte.
Finalmente e com o serviço terminado, o jantar, a comida do quartel era entre o sofrível e o mau, o melhor procedimento era deixarmo-nos levar pelos nossos Cabos, jovens sempre esfomeados, ou não tivessem eles vinte anos, conhecedores exímios das possibilidades de restauração em N Lamego, quase serviço “a la carte”.
Mais tarde e depois de algumas bazucas abaixo e mais uns whiskies, o sono a instalar-se, pesado e fundo, a esperança de não acontecer nenhum ataque durante a noite, que, a haver, “não estou com disposição para me levantar da cama”.

Com a manhã a chegar, logo o mistério que os “velhos” me tinham feito recear, acabava por ser desvendado, alguém me acordava movimentado-me o sexo, acima e abaixo, em ritmo bem compassado.
Subitamente acordado, logo reparei na intrusa, vinda não sei de onde, negra e jovem, eventualmente demasiado jovem, seios erectos e sorriso matreiro.
Acordar destes só em África, de imediato um movimento envolvente no sentido de a tentar agarrar, logo ela rindo e recuando, dizendo com ar malicioso:
“Ná ná, nem qui foras Tinente”.
E assim como tinha aparecido, sumiu-se num instante.
Certamente devia já estar farta de Cabos e Furriéis, para a próxima noite ainda pensei dormir com os galões bem à vista, para ela ver o que era um Tenente de verdade, podia ser que a sorte mudasse...
Não mudou.
E, verdade verdadeira, nunca mais a vi, não devia conhecer os postos da tropa.

Dois dias depois e ao ir saber junto do Coronel quais as missões para o dia seguinte, encontrei finalmente “O Major”, a bota e o pingalim a identificá-lo.
Queria ir a Canjadude e Cabuca e queria sair às 14 horas, frisou, o pingalim a dar toques na bota, “a coisa tá preta”.
“Sim meu Major, para sairmos às 14:00, faça o favor de estar junto à aeronave pelas 13:45.”

No dia seguinte eram 13:30 e já lá estava eu, o Cabo e o avião, os três, alinhados, apreensivos e completamente prontos.
Só que, às 13:45 nada aconteceu...
Até às 13:55 nada aconteceu... disse ao Cabo para pôr o correio dentro do avião e fechar portas.
Às 14:00, não se avistava vivalma, pus o motor em marcha.
Eram 14:05, iniciei a rolagem.
Ao longe, vi aparecer o jeep do Major.
Julgaria ele que eu ia voltar atrás?
Já vos disse, os pilotos de caça reagem em milésimos de segundo...
Passei com o DO-27 bem perto da sua viatura, cheguei à pista e ala que se faz tarde, descolagem em direcção a Canjadude.
E pronto, foi assim que o Major perdeu a oportunidade de ir mostrar as suas botas altas ao pessoal mal vestido lá do mato.
Fui recebido com entusiasmo, levava correio e nada de chatices, todas elas tinha ficado em terra, um cafezito para animar, uns abraços e logo em direcção a Cabuca, a recepção foi semelhante, sorrisos de orelha a orelha.
Descobri entretanto que o Capitão de um destes quartéis (já não me lembro qual) tinha andado comigo no liceu (O Académico), tão pouco me lembro do seu nome, desde sempre usava pêra, capa e batina e cantava o fado de Coimbra.
Quarenta minutos depois da partida e já estava de regresso a N Lamego.
Arrumar e abastecer o avião, o resto da tarde foi de uma tranquilidade absoluta.
À noite o Coronel perguntou-me se a missão tinha corrido bem.
Disse-lhe que sim, o que até era verdade.
O resto do destacamento processou-se sem algo digno de realce.
Com o regresso a Bissau, os respectivos relatórios escritos e entregues, estava pronto a esquecer o destacamento.
Nova chamada para voltar ao gabinete do Tenente Coronel Brito, Comandante do Grupo Operacional.
Mau mau, outra vez?
Coisa boa não deve ser, será que o Major fez outra participação?
Recebeu-me como sempre, com o seu ar sério:
-“Como é que correu o destacamento?
- Bem...
- As Directivas, estão a ser cumpridas?
- Sim senhor...
- E o Major?
Ó diabo, não querem lá ver que o homem sabia da marosca...
- O Major ficou bem...”. Disse a medo.
- “OK, pode ir...”
Como devem saber, os pilotos são todos duros de ouvido, doença profissional, dizem.
Ainda assim, não é que ao sair do gabinete e após fechar a porta, pareceu-me ouvir alguém lá dentro a rir às gargalhadas... 

Um abraço,
António Martins de Matos
Ten Pilav da BA12



NOTA: As memórias do Gen. Martins de Matos foram publicadas no livro "Voando sobre um ninho de Strelas" disponível através da loja do Pássaro de Ferro





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